terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Amor, por Tiago Ramos


Título original: Amour (2012)
Realização: Michael Haneke
Argumento: Michael Haneke
Elenco: Jean-Louis Trintignant, Emmanuelle Riva e Isabelle Huppert

Há, ao início, uma sensação de libertação. Não sabemos ainda que tipo de libertação é, mas arrombam-se portas, abrem-se janelas, cortinas esvoaçam e o espectador sente-se subitamente livre. Mas pouco a pouco, o espectador apercebe-se que essa libertação não é a sua, porque o plano corta e, em breve, as portas daquela casa onde nos encontramos fechar-se-ão. A partir daí a câmara de Michael Haneke não nos deixa sair ficamos aprisionados naquela casa, com aquelas personagens e cada vez mais presos. Há personagens que entram, mas rapidamente saem ou são convidadas a sair. Há um pombo que entra, mas acaba por sair. E enquanto isso acontece, o espectador fica sempre ali. A câmara não o deixa sair. Talvez o deixe vislumbrar a rua pela janela. Brevemente, tal como a protagonista. E o espectador é tão íntimo daquelas personagens quanto elas mesmas. Haneke é manipulador e clínico, como sempre e nós deixamos. Mas ao mesmo em Amour está um dos seus trabalhos mais (cruelmente) ternos de sempre. Aquilo que o seu argumento faz é colocar-nos perante um dos mais abnegados exemplos de amor e convivência conjunta, à medida que ambos definham perante a velhice, doença e a dor. É cruel e ao mesmo tempo tão incrivelmente terno e afectuoso, porque a crueldade nunca é daquelas personagens, - há apenas um desejo de ser livre, de ambos os lados - a crueldade vem da inevitabilidade da nossa natureza. Essa natureza tão incrivelmente genuína nunca poderia ser possível sem duas das melhores interpretações dos últimos anos. Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva trabalham em conjunto de uma forma tão harmoniosa e absolutamente naturalista, evidente perante os seus gestos e expressões aparentemente tão rotineiros como assistir a um concerto, preparar uma refeição, vestir-se ou olhar-se. O olhar daquelas duas personagens é tão incrivelmente sentido, carinhoso e tão humanamente sensível que chega a ser impressionante a forma como transformam esses mecanismos ritmados em mais do que meras acções. São eles que conectam o processo de Haneke em nos manipular perante o sofrimento (e simultâneo amor) daquelas personagens. São eles que perante a óbvia rigidez formal do cineasta, ligam a essência da história.

Amour é um retrato da intimidade de um casal, um retrato clínico da verdadeira essência humana daquelas personagens, à medida que naturalmente definhem e sucumbem à crueldade da vida. Uma obra-prima humana e simplesmente devastadora que nos é revelada  pela visão habitualmente austera do cineasta austríaco. À medida que avançamos para o fim da narrativa, a sensação de libertação (a mesma com que nos confrontamos no início) começa a sentir-se. Há personagens que saem. Há quem se torne de facto livre. Há quem se liberte. Mas da mesma forma que aquela porta se abre e se sente a libertação, ao espectador não lhe é dada essa oportunidade. A porta tranca-se e com ela ficamos nós, fechados naquela salas (a câmara severa não nos deixa sair), naquelas paredes e a nós, voyeuristas forçados e intrometidos, não nos é dada oportunidade de libertação. E agradecemos, porque fomos expostos a um dos filmes mais cruelmente belos do Cinema.


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