quinta-feira, 28 de março de 2013

Terra Prometida, por Tiago Ramos


Título original: Promised Land (2012)
Realização: Gus Van Sant
Argumento: John KrasinskiMatt Damon e Dave Eggers
Elenco: Matt Damon, Frances McDormand, John Krasinski, Hal Holbrook e Rosemarie DeWitt

Uma das tendências da produção cinematográfica de 2012 pareceu ser uma espécie de regresso às narrativas clássicas, uma estrutura formal simples mas com efeitos comprovados. Se o futuro do cinema é evolução e o espectador tem de aceitar isso (se olharmos com atenção, a estrutura na escrita de argumentos tem mudado radicalmente), não é menos verdade que há bons e interessantes regressos a essa fórmula clássica. Tivemos recentemente dois casos bem-sucedidos: Arbitrage e Flight, cada um à sua maneira, recupera ensinamentos clássicos e aplica-os ao cinema contemporâneo, trabalhando a história de uma forma linear, competente e clara. Terra Prometida faz o mesmo e daí a sensação agridoce que deixou junto da crítica. A história não traz qualquer dose de originalidade a algo já inúmeras vezes abordado na história do cinema norte-americano: sim, é verdade, estamos perante o clássico combate entre uma pequena cidade do interior dos Estados Unidos contra grande corporação, sem ética e escrúpulos (há até uma vibe que rapidamente nos faz recordar de Erin Brokovich).

O que há então para ver nesta Terra Prometida? A construção narrativa sincera, simples storytelling e sem grandes artifícios, com interessantes importantes noções sociais, politicamente importante, mas simultaneamente contido na forma como a aborda. Fá-lo através da forma como medita sobre as dificuldades económicas numa América perdida e a alteração dos valores comunitários. Ou seja, estamos perante uma recuperação das fórmulas clássicas do cinema de Frank Capra, sendo socialmente consciente e explorando o poder da comunidade nos nossos dias, mas também com uma dose acertada de humor e emoção. Mas curiosamente há também uma subversão dessa fórmula clássica, já que o filme parte de um protagonista que é oposto à ingenuidade e inocência das personagens de Capra. É essa personagem protagonista que Matt Damon sabe segurar, interpretando-a de forma competente e afastando-se do exibicionismo de outras das suas interpretações, permitindo assim ao espectador evoluir com a personagem e aproximar-se afectivamente da mesma. O cinismo que carrega consigo desde o início, vai dando lugar a uma abertura admirável e cujo trabalho resulta bastante nos momentos (e de diferentes formas) em que contracena com as personagens de Rosemarie DeWitt e Frances McDormand - esta última com mais uma prestação excelente e a merecer destaque. Ou também na forma como personifica o conflito da ganância corporativa com a consciência comunitária (captada pela interpretação de Hal Holbrook). É também essa evolução que existe no sentido inverso na personagem de John Krasinski e que confirma a possibilidade de trabalhar competentemente com uma narrativa de fórmulas clássicas, mas ainda assim ser capaz de incrementar um espírito de subversão das mesmas.

Como um todo, Terra Prometida tem elementos que rapidamente permite comparações com o cinema de Gus Van Sant em Good Will Hunting (1997), com os pontos fortes assentes nos mesmos pontos, mas também uma certa desilusão na forma normativa com que dirige a história, especialmente se nos lembrarmos que estamos perante o realizador de filmes como Elephant (2003) ou Paranoid Park (2007). Não quer dizer isto que os traços do cineasta estejam completamente apagados por aqui. Há um sentido estético e simbólico, que trabalha em parceria com o director de fotografia Linus Sandgren, a fazer recordar o seu estilo (note-se o plano inicial trabalho com os reflexos da água e os vários planos do céu e das nuvens). Introduz-nos na imagética de uma América old school, clássica, com uma direcção competente e delicada.

O problema talvez aqui seja talvez a forma como no terceiro acto, o filme acabar por revelar-se manipulativo ou no modo como desemboca no típico monólogo auto-consciente da personagem, num tom severamente moralista. E embora isso resulte bem em outros momentos da trama, a dada altura parece frustrante, já que sente-se o exagero de uma história que até então tinha sido dada a uma construção lenta, mas eficaz. Onde funcionava apenas através da construção e evolução das personagens, com diálogos simples, acaba por sucumbir à necessidade de uma revelação que força o choque no espectador. Soa cinicamente e não era isso pretendido. Mas no fundo essa sensação geral de classicismo, um reencontro do espectador com os thrillers corporocráticos onde a importância está nas palavras e na forma como são conduzidas pelos seus actores, faz Terra Prometida revelar-se uma agradável surpresa. Acima dessa sensação de fórmula comum, está uma noção de conforto a que sabe bem regressar, mas também uma importante mensagem social e política que seria de bom tom não desconsiderar.

*Crítica possível através de uma cópia oficial gentilmente cedida pela Focus Features.

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