domingo, 20 de outubro de 2013

Semana em Crítica - 10 de Outubro

Gravidade (2013), de Alfonso Cuarón


Visto em IMAX e 3D o encanto visual de Gravity é inegável, sabendo o filme explorar ao máximo a profundidade de campo, o plano-sequência e a simples ideia de progressão espacial contra o infinito. Não é porque tudo isso seja hoje mais fácil de alcançar tecnicamente que não se reconhece o seu valor, mas como em muito outros momentos de superlativo visual o público habitua-se ao excepcional com alguma rapidez e fica à espera que o filme lhe proporcione algo mais. Não se trata apenas de não haver cena à altura da abertura, trata-se de não haver texto à altura da imagem. Um argumento monocórdico - tudo o que pode correr mal vai correr mal até que a sorte ou o engenho intervenham - acaba por desgastar a tensão que nos primeiros momentos tão bem fora gerada. Embora nada se possa apontar aos actores, são apenas mais uma engrenagem técnica para um filme cuja dimensão dramática é o seu elemento mais desfasado do resultado pretendido (e por isso vale a pena interrogar se actores anónimos e personagens definidas apenas pelo nome não seriam mais úteis). Em paridade com ela só as metáforas - da origem da vida humana e planetária - calcadas no ecrã contra o (suposto) realismo do Espaço. Caso para dizer que as actuais revoluções da maneira de fazer cinema são um pouco chatas - e se, pelo custo, raramente gerem descendência, fica a dúvida se serão verdadeiras revoluções. Uma estrelaUma estrelaUma estrela Carlos Antunes

A sua importância para o Cinema contemporâneo é inegável: a forma como utiliza uma técnica perfeita, que aproveita e melhora a tecnologia da época (o digital, o 3D e às câmaras de última geração). Um filme onde Cuarón não abdica da sua visão de autor e que imprime uma tensão vertiginosa constante ao espectador, também pela excelente interpretação de Sandra Bullock. Mas é também um entretenimento de largo orçamento, o que o condiciona também na liberdade como aborda a temática. Apesar de várias metáforas interessantes (veja-se aquela belíssima cena onde Ryan Stone flutua em posição fetal), a narrativa é pontuada por uma grande linearidade (e também previsibilidade), que impõe a necessidade de uma constante suspension of disbelief para o seu espectador. Mas o que deixa sobretudo mais pena é a utilização da banda sonora que, apesar de si magnífica por si só, não permite nunca ao espectador o silêncio sufocante que um filme sobre o Espaço deveria garantir. Uma estrelaUma estrelaUma estrelaUma estrela½ Tiago Ramos



Don Jon (2013), de Joseph Gordon-Levitt


O primeiro filme (mainstream?) sobre a educação sentimental e sexual na era da pronografia acessível em massa começa como uma comédia romântica e termina como um drama apontado a um final feliz e apaziguador. Consegue ser um filme agradável de uma ponta à outra mas pelo meio perde a hipótese de afirmar algo de verdadeiramente arrojado acerca da integração da pornografia numa relação saudável e de como nela e dela se deve projectar a realidade. Algo ainda mais desolador quando parece haver uma ressonância do papel de Julianne Moore em Boogie Nights. Disto resulta que o pressuposto do filme parece falso, iniciando-se na pornografia apenas para cabar no conflito sentimental que poderia originar de várias outras situações. Uma estrelaUma estrelaUma estrela Carlos Antunes



Um Quarteto Único (2012), de Yaron Zilberman


A lição de cinema que o quarteto de actores protagonistas nos concede, devia ser razão suficiente para este filme merecer o seu visionamento. Apesar do seu melodramatismo e das convenções do género dramático, é pontuado sobretudo pela delicadeza e sensibilidade com que o realizador segue a história e as suas personagens, sobretudo as maravilhosamente interpretadas por Catherine Keener e Philip Seymour HoffmanUma estrelaUma estrelaUma estrela Tiago Ramos

Homenagear a música do Brentano String Quartet pela ficção do drama do quadrado emocional - algo como um triângulo amoroso pacificado por uma figura sábia e acarinhada - no momento em que se desfaz parece uma boa ideia. Estaria muito melhor concretizada se fossem mais as vezes em que esse drama se mostrasse através da própria música. As emoções mostradas dentro dos próprios concertos e ensaios ou, alternativamente, projectadas contra a componente física da música - por exemplo, se a intenção é magoar, porque é que a personagem de Philip Seymour Hoffman não destrói o arco de violino da personagem de Mark Ivanir ao invés de o esmurrar como qualquer outro homem faria? Felizmente, a qualidade do elenco e, acima de tudo, da música apaga quase por completo tal reacção durante o visionamento. Uma estrelaUma estrela½ Carlos Antunes



Os Filhos da Meia-Noite (2012), de Deepa Mehta


Um épico como poucos (produtores e realizadores) arriscam ainda fazer e, arrisco dizer, menos ainda saberão escrever. Por isso mesmo foi Salman Rushdie a adaptar o seu próprio livro para assegurar a relação entre a dimensão individual da história das crianças e as suas ressonâncias na História cultural e geográfica dos países com elas relacionados. Muito embora o filme fique com algumas falhar por não poder comportar a enormidade da obra literária de origem, a adaptação tem uma inteligência que lhe dá fluidez e riqueza cinematográfica, mesmo se permanece dependente da origem da história que é evidente: a voz off, adequadamente, pertence a Rushdie. Uma estrelaUma estrelaUma estrela½ Carlos Antunes



O Sentido do Amor (2011), de David Mackenzie


Fugindo às convenções do disaster movie através da sensibilidade de um belo romance, permite-se uma sensação de lufada de ar fresco (mesmo que haja uma imediata comparação a Blindness) quando em comparação com os filmes sobre o Apocalipse que frequentemente chegam às nossas salas de cinema. A metáfora da nossa perda da "humanidade" é bem contrabalançada pela esperança trazida pela química, intensidade e delicadeza da dupla protagonista. Uma estrelaUma estrelaUma estrela Tiago Ramos

De uma premissa perigosa, por remete de imediato para Blindness, David Mackenzie consegue um filme de cariz popular - ou não fosse conduzido por uma história de amor - com detalhes de enorme força. Detalhes que são relativos à filosofia e à imagética dos sentidos - ou da sua falta -; não tanto à ideia de ficção/especulação científica que é mesmo o ponto fraco da obra. Tanto a sofreguidão dos sentidos como a resolução dos estímulos contra o seu desaparecimento geram cenas visualmente estimulantes que, inevitalmente e sobretudo nas relativas ao paladar, recordam grande obras do cinema. Uma estrelaUma estrelaUma estrela Carlos Antunes



Haute Cuisine - Os Sabores do Palácio (2012), de Christian Vincent


Não sei se a denominação de comédia popular francesa pode aplicar-se a um filme que explora temas de um funcionalismo interno das instituições com um certo grau de crítica. Através da história - com uma estrutura narrativa muito perspicaz - de uma cozinheira com um sentido de preservação da tradição - e da relação maternal - da Cozinha Francesa, que mesmo sendo cozinheira do Presidente o via como um degustador a agradar, o filme pensa fenómenos que vão da arrogância competitiva dos elementos invisíveis da organização ao excesso de etiqueta regimental em todas as situações de Estado, não deixando de lado a forma como o controlo da vida do próprio Presidente lhe é retirado. Há algo de discretamente político num filme que delicia com a interpretação de Catherine Frot - uma actriz a toda a prova - e, acima de tudo, com a capacidade de proporcionar uma verdadeira experiência gustativa dos pratos filmados. Uma estrelaUma estrelaUma estrela½ Carlos Antunes

É um simpático entretenimento que sabe equilibrar as doses certas de comédia e drama. Apesar de se limitar também às directrizes dos biopics, é muito bem filmado e especialmente cativante para os espectadores foodies. Mas mesmo para os restantes (sobretudo os que souberem perceber que o filme não vai além da ligeireza que quer manter), o filme sabe manter-se cativante. Nem que seja pela beleza e talento de Catherine Frot, que não deixará nenhum espectador indiferente. Uma estrelaUma estrelaUma estrela Tiago Ramos


Abelhas e Homens (2012), de Markus Imhoof


Markus Imhoof conseguiu o impensável: fazer o espectador importar-se com as abelhas, como se de personagens humanas se tratassem. Filmado com uma mestria invejável, a câmara move-se em conjunto com as abelhas, numa dança impressionante e belíssima, que torna o espectador sensível ao tema. Sabe sobretudo ser informativo e portador de uma mensagem, mas move-se para além disso, demonstrando uma notável sensibilidade do seu realizador. Pontos para os excelentes trabalhos de montagem, fotografia e edição sonora. Uma estrelaUma estrelaUma estrelaUma estrela Tiago Ramos

O tema é premente e pleno de descobertas, algumas das imagens são excepcionais, mas Markus Imhoof falha no momento de se decidir por um foco de abordagem. Durante boa parte o filme é uma introdução à apicultura com bastante alma mas sem esquecer o âmbito do que é um negócio, e depois lembra-se da pergunta a que se propunha responder e torna-se num aviso científico dos males que virão do desaparecimento das abelhas. Não é um documentário digno de nota por qualquer inventividade cinematográfica, mas a informação significativa e algumas das  personalidades curiosas que traz à nossa atenção merecem que se veja o filme. Uma estrelaUma estrelaUma estrela Carlos Antunes



A Chamada (2013), de Brad Anderson


Um thriller em torno do objecto que se tornou num facilitismo narrativo de algum cinema e que sabe explorar o telemóvel como via comunicante entre a acção e aconsciência dela - o que é mais importante do que a comunicação entre as duas protagonistas. É sempre pela existência de um telemóvel na posse da vítima que o filme gera e gere a tensão - mais interessante nos momentos de necessidade de silêncio - como é pela existência de outros na posse de outras personagens que coloca obstáculos no caminho narrativo. Lamenta-se que a resolução do filme tenha contornos mais comuns e se afaste do distanciamento entre as duas protagonistas que era o seu motor. Até porque essa resolução se parece aproximar de um terror femininista menor (que o MOTELx exemplificou este ano). Uma estrelaUma estrela½ Carlos Antunes

O cunho de Brad Anderson e que traz uma sensação contínua de tensão e sufoco, faz do filme, sobretudo numa fase inicial, uma agradável surpresa. Mesmo quando nos apercebemos que está limitado a uma visão comercial do género e que não irá muito mais além disso, as empolgantes sequências de acção e tensão deixam o espectador interessado na história. O problema é mesmo o último terço da narrativa que descai para a necessidade de criar uma reviravolta para surpreender o espectador, quanto teria beneficiado muito mais da sua simplicidade inicial.  Uma estrelaUma estrelaUma estrela Tiago Ramos

1 comentário:

  1. Don Jon: 5*

    "Don Jon" é um filme único, com uma história bastante interessante...

    Cumprimentos, Frederico Daniel.

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