quinta-feira, 29 de agosto de 2019

Godzilla II: Rei dos Monstros, por Eduardo Antunes


Título original: Godzilla: King of the Monsters (2019)
Realização: Michael Dougherty
Argumento: Michael Dougherty, Zach ShieldsMax Borenstein
Por todos os problemas que Godzilla, há cinco anos teve, esta sequela acaba por não conseguir resolver, ainda que ofereça mais daquilo que seria esperado de um filme que envolva a personagem titular.

De uma forma geral, a recente renovação hollywoodesca da franquia dedicada a Godzilla enveredou primeiramente por algo que prestava um tributo à ideia original por trás da sua origem, adaptado a um contexto mais moderno, reflexo do receio de ataques de ameaças desconhecidas e consequente inabilidade de responder de forma viável ao rescaldo. E a escolha de Gareth Edwards que apenas tinha realizado um filme antes, foi na altura uma escolha atenta para o proposto recomeçar da série, visto que o seu primeiro filme Monsters lidava com isso mesmo, sob o olhar de duas personagens isoladas.
Ainda que pecasse pela falta de oferta de caracterização às personagens que acompanhávamos, de forma geral resultou em recaracterizar o famoso monstro de forma distante do filme de 1998. E no pouco que mostrava da criatura, não só potenciava esse olhar realista que o filme original já possuía, como a cada pequena cena o olhar era utilizado de forma cuidada, fruto da anterior experiência do realizador como técnico de efeitos visuais.

É logo à partida neste aspecto que esta sequela falha. A escolha aqui de um realizador relativamente desconhecido - com apenas um punhado de filmes de terror para dar como prova (insuficiente) das suas capacidades - não abona nada em favor do que deveria ser um dos aspectos essenciais do filme. É efectivamente oferecida uma mais razoável quantidade de conflitos, para quem procurava isso mesmo, mas os mesmos não entendem a escala que estas cenas deveriam ter. 
Pela entusiasmante cena em que vemos Rodan acordar e com um mero passar de asas arrasar uma cidade por completo, ganhamos um "combate" final entre Godzilla e Ghidorah em que ambos correm como se o seu tamanho não fosse um factor a considerar. Por entre uns close-ups junto a um actor ou correrias entre detritos, nunca nenhuma sequência consegue oferecer o receio ilustrado pelo testemunho de crianças enquanto o monstro destrói a Golden Gate Bridge em Godzilla; ou o espectáculo puro, cromático e coreográfico, do primeiro ataque de Kong em Kong: Skull Island.

E é também essa falta de sensibilidade de como utilizar a escala que faz transparecer o desespero desta sequela. Para oferecer mais e maior, ganha o filme uma escala exagerada, com umas enumeradas dezassete criaturas, o que nos faz questionar porque, quando são todas libertadas, a humanidade não é imediata e completamente devastada em poucos minutos, dado o tamanho de cada uma.



E não apenas isso, mas tendo em conta que o próximo filme pretendido se estabeleceria entre Godzilla e o Kong de Skull Island (como é feita questão de apontar aquando dos créditos finais, sob a forma de recortes de jornais), se Godzilla já derrotou Ghidorah, parece ter havido uma troca de lugares entre ambos os filmes, devendo este ser reportado a um final de série. Aliás, a utilização de diversas criaturas poderia ter sido estendida entre diversos filmes, como a série de filmes japonesa faz desde sempre. Se o objectivo é criar uma franquia, deveria ter havido, não apenas uma economia de recursos na produção do filme, como na utilização dos monstros à disposição.

Para além da oferta de mais criaturas, também o desnecessário número de personagens humanas que conhecemos é totalmente insensato. Se antes o problema era o desinteresse que existia na personagem de um simples militar cuja função era apenas andar de um para outro sítio, até conseguir destruir a ameaça e/ou regressar a casa e à sua família, aqui o desinteresse é ainda maior, no acompanhamento de uma série de cientistas sem motivação ou objectivos concretos e cuja função é apenas apontar para ecrãs. E mesmo de quem possui alguma (desnecessária) motivação, existe um questionamento da nossa parte. O intuito de um eco-terrorista extremista em libertar estas criaturas para restabelecer um suposto equilíbrio do planeta faz algum sentido, mas pôr a mesma força motriz nas mãos de uma mãe que perdeu um dos seus filhos devido a Godzilla já pede demasiado da nossa (in)credibilidade.

Isso é fruto de uma narrativa que, sendo simples, se parece complicar sem razão alguma. Enquanto os diversos filmes nipónicos de título "Godzilla vs." ofereciam a simplicidade de simples combates no seu tom desanuviado, este, oferecendo o mesmo tipo de espectáculo, tenta forçar a sua contextualização numa mensagem dramática já tão utilizada e já sem impacto, apesar do esforço e relevância actual (como, há pouco, também Aquaman tentou).

O cuidado que houve em oferecer algo mais cirúrgico na abordagem desta personagem famosa para captar a atenção de uma possível audiência nova foi substituído pela assumida e repentina vontade de criar um universo partilhado entre estas criaturas sem antes haver uma maior afinidade por algo que faz parte de uma cultura bastante diferente. Com essa vontade de oferecer uma série de filmes, e dado um certo cansaço na oferta de filmes com consequências apocalípticas, a falta de um realizador capaz de abordar este tipo de acção, narrativa e visual, faz com que esta seja uma tentativa perdida que tanto potencial oferecia, mais que não fosse de puro entretenimento.


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