quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

Os Aeronautas, por Eduardo Antunes


Título original: The Aeronauts (2019)
Realização: Tom Harper
Argumento: Tom Harper, Jack Thorne

Tendo visualizado o trailer de relance, ficou a estranheza do contexto mas igualmente alguma curiosidade num filme que é povoado na sua génese e execução de contradições mas que justifica, ainda assim, a sua visualização num cinema, pelo espectáculo patente na aventura que a narrativa premeia.

The Aeronauts não deixa de ser um filme sem grandes pretensões, apesar das aparências, do elenco e do aviso inicial referindo a sua inspiração em factos verídicos. Notar-se-á isso logo à partida pela duração, que não chega às duas horas, remetendo-se simplesmente à narrativa essencial que pretende contar, sem demais floreados.
Não existe qualquer comentário assertivo sobre, por exemplo, a visão machista da sociedade vitoriana de outrora, aparte uma cena em que Amelia irrompe pela Royal Society perante a estranheza dos seus académicos. Ao invés, foi na substituição do aeronauta que acompanhou Glaisher na viagem por Amelia Wren, mulher ficcional mas baseada em diversas mulheres-piloto, que a equipa arranjou a forma de transpor a coragem de uma mulher em realizar tal empreendimento. Tem, em certo aspecto, uma mensagem feminista no seu âmago, povoando todas as suas opções, sem no entanto ser uma narrativa que se centre em volta dessa forçosa mensagem.

É pena e mesmo algo contraditório, face a aparente humildade narrativa, que a história contada não se foque inteiramente na viagem que oferece o mote a todo o filme. Pois se seria sempre necessária alguma contextualização sobre a mesma, dada a sua base verídica, da mesma forma o seu retrato ficcionado da protagonista e, consequentemente, dos eventos, reporta-nos alguma inutilidade na tentativa de informar-nos de factos históricos. A inclusão dos propósitos científicos de Glaisher à sua época parecem-se tornar secundários e elementos de uma outra narrativa, ainda que servindo o objectivo concreto para a realização da viagem. Especialmente as divergências durante a viagem para as reacções das restantes personagens cortam o nosso enfoque na jornada dos dois protagonistas.



Até porque o real interesse do filme não é mais patente que na visão prolongada e ininterrupta da sequência climática de todo o filme, em que a tensão se instala, onde a protagonista que seguimos se vê obrigada a forçar os seus próprios limites, ao mesmo tempo que, apesar de suspeitarmos o feliz destino dos protagonistas, nos agarramos com um pouco mais de força ao assento, nesse ténue desconhecimento das consequências que poderão advir, numa jornada complexa de uma pessoa pela sua própria sobrevivência que já víramos antes excelentemente representada em All Is Lost.
A própria tensão entre os planos panorâmicos sobre a extraordinária atmosfera que os rodeia a qualquer dado momento e a extenuante claustrofobia dos close-ups sobre as duas personagens presas num cesto a 11 km de altitude, acompanhadas pela quer bela quer tensa composição de Steven Price, cria um conflito de sensações no expectador que espelha o conflituoso empreendimento aqui retratado. 

Para além da generalizada boa execução das cenas que reportam e ilustram essa jornada, é Felicity Jones que maior contribuição tem no nosso entranhar nesta jornada. É ela que oferece toda a dor, alegria, propósito e dúvida constantes, é ela que nos convence de tal incrível possibilidade, numa actuação que comprova novamente e sempre o seu contributo como actriz no cinema recente.
É mesmo interessante reconhecer o que podemos caracterizar em Amelia como stress pós-traumático surgido da situação dolorosa da morte do marido, e que se torna particularmente trágica quando conhecemos a vericidade por detrás desse específico aspecto narrativo. Entende-se o espectáculo que Amelia assume inicialmente como forma de esconder a dor que o seu segredo impõe sobre ela, mais do que um requisito do seu público.

Na sua curta mas eficaz viagem cinematográfica, que não necessitou de utilizar qualquer elemento artificial extra para nos transportar para esta literal viagem, esta é uma experiência que vale a pena, ainda assim, ter no cinema, pese embora a esquizofrenia dos seus intuitos retratistas. Talvez devesse ter-se assumido como um retrato inteiramente ficcionado, unindo todos os elementos reais na sua própria narrativa, como tenta fazer, mas sem a aparentemente obrigatória afirmação no início e consequente reportagem dos factos que o inspiram, antes prestando uma homenagem sincera às personagens e acontecimentos de onde retirou inspiração sem necessitarmos de tecermos comparações com a realidade.


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