sábado, 8 de fevereiro de 2020

Bombshell - O Escândalo, por Eduardo Antunes


Título original: Bombshell (2019)
Realização: Jay Roach 
Argumento: Charles Randolph 
Elenco: Charlize Theron, Nicole Kidman, Margot Robbie, John Lithgow

Aproveitando a boa vontade por trás do movimento feminista que cresceu na América do Norte, este é um filme que arrisca muito pouco, retirando, ainda assim, todo o seu potencial das interpretações que enchem as próprias imagens promocionais. Não ficará na memória para além do reportar da situação a quem não a conheça a fundo.

É quase um filme para uso interno, apresentando e significando factos e personagens de uma história que, fora dos Estados Unidos da América, poderão escapar ao restante público internacional, pela brevidade com que são apresentados. Isto também porque, ainda que com um conhecimento extra dos bastidores dos factos aos quais geralmente não temos acesso, nunca transpõe a narrativa para lá da básica reportagem dos factos, nem na sua formalização.

Não é isso mais patente que na discrepância para as cenas com Margot Robbie que, no epítemo do que transpõe na sua partilha de ecrã com John Litgow numa cena desconfortável de ver – mais que não seja pelo silêncio de Robbie ao se expor brevemente na sua restante fisicalidade –, apresenta uma perspectiva crua sobre os factos que a restante história, por se apresentar tão factual, não é capaz de reportar. E não será de admirar que tenha sido necessário introduzir esta personagem aparentemente ficcional para tal efeito, visto o filme não querer potencialmente desrespeitar as reais vítimas, apresentando destas "apenas" os seus testemunhos reais sem qualquer ajuda visual.



Da mesma forma, o elemento narrativo que apresenta e fecha a história – através de uma abordagem meta-linguística, informando as personagens directamente o público sobre os acontecimentos no ecrã (muito utilizada por Scorcese, por exemplo, em The Wolf of Wall Street) – não é utilizada ao longo de toda a história, deixando a dúvida da sua utilização sequer nesses pontos. Poderia aí ter achado um ponto fulcral na linguagem cinematográfica utilizada, mas pelo respeito que pretende apresentar à história, não se permite tornar mais arriscado.

É de facto na força das interpretações dos elementos principais da história que o filme retém o seu ritmo e interesse. Logo à partida, e ainda assim sendo a personagem da qual deveríamos entender imediatamente como o vilão, Roger Ailes (longe de merecer a nossa empatia) recebe alguma caracterização enquanto mentor das suas apresentadoras para lá dos seus actos obscenos, que nos leva a horrorizar ainda mais na visualização da casualidade com que seguidamente é capaz de as (ab)usar desrespeitosamente.

E para além da quase irreconhecível Nicole Kidman como aquela que teve que se permitir inteiramente decair apenas para fazer desabar o império do seu antigo chefe, é na pele da Megyn Kelly, perfeitamente conflituosa na sua posição perante as pessoas que lidera, a sua própria família e, no fim, a sua feminilidade, que Charlize Theron transpõe a dificuldade de assumir um papel, seja perante os seus colegas ou perante o público infinito que a segue superficialmente pelo ecrã e assim escolhe a sua posição.

Infelizmente, isso não chega para fazer destacar um realizador sem uma voz própria para fazer valer uma história que, mais não seja pela bravura destas mulheres em assumirem a sua fragilidade perante aquele(s) que se aproveitam do seu poder, poderia inspirar outros a dar mais voz a quem não a têm.



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