domingo, 30 de agosto de 2009

Paranoid Park, por Tiago Ramos



Título original: Paranoid Park (2007)
Realização: Gus Van Sant
Argumento: Gus Van Sant e Blake Nelson
Elenco: Gabe Nevins, Daniel Liu, Jake Miller, Taylor Momsen e Lauren McKinney

Enquanto que nos seus últimos filmes - especialmente os conhecidos como Trilogia da Morte - Gus Van Sant explorou a temática conceptual do vazio, da ausência e da complacência, em Paranoid Park é retomado o espírito mais mainstream do realizador. Dostoiévski espreita a cada canto de uma das melhores obras do realizador.



Paranoid Park
torna-se assim num ensaio contemporâneo sobre a culpa, o crime e o castigo. Alex, é um adolescente comum, que cometeu um crime. E que nos tenta contar a sua história. Mas enquanto narrador, é bastante ilusório e inacessível, que tenta dissimular os acontecimentos tanto para os outros como para si próprio. É por vezes inconsciente, amnésico e pouco fiável, para nós espectadores. Até porque ele próprio tenta reconstituir toda a história, mas recalcou-a.

Alex, confessa o inconfessável escrevendo uma carta. E é através dela que nos vamos apercebendo da realidade dos factos, onde por vezes parecem faltar folhas, numa narrativa incompreensível. O objectivo é tentar descobrir entre essa narrativa fragmentada, o que se esconde entre os planos, mesmo até ao corte. Por tal motivo, Alex descobre a realidade dos factos ao mesmo tempo que os espectadores: reconstituindo eventos passados, voltando às imagens já vistas e vendo para além da superfície.



A realização de Gus Van Sant é por demais inteligente. Ilustrando a confusão interna do seu protagonista - interpretado pelo fantástico Gabe Nevins - o realizador conjugas imagens filmadas em 35mm, como de super 8, imagens rápidas e lentas, planos largos e planos fechados. Inclusive na banda sonora teve o cuidado de realçar o factor confusão e fragmentação, com músicas aparentemente desconexas das cenas. Essa conexão só é recuperada no final, quando se redime da culpa numa fogueira, tal como já acontecera em My Own Private Idaho (1991). Mas o elogio nunca estaria completo sem chamar a atenção para o trabalho fotográfico do excelente Christopher Doyle.

Mas esta fragmentação que se explora do início ao fim do filme é até evidenciada pelo poster, acima ilustrado. Os fragmentos em que está dividido remete para o corpo do vigilante cortado em dois, para os carris ou até para o skate. A sobreposição de certas zonas ou omissão de outras aborda o estado confuso da mente de Alex, em mais um sinal de inteligência do realizador e dos envolvidos no projecto.



Paranoid Park é dos projectos mais fascinantes e coerentes do cineasta Gus Van Sant, num excelente balanço entre o seu estilo e o estilo comercial.

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