domingo, 7 de fevereiro de 2010

A Estrada, por Carlos Antunes

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Título original:
The Road
Realização: John Hillcoat
Argumento: Joe Penhall
Elenco: Viggo Mortensen, Kodi Smit-McPhee e Charlize Theron

A aridez de A Estrada torna-a um material verdadeiramente difícil de trabalhar.
Não se trata apenas da aridez que o mundo em torno de Pai e Filho revela, mas é também uma aridez de personagens - e, claro, de diálogos - que se envolvam no caminho de ambos.
Facilmente se poderia perder o sentido do essencial e reconverter o filme em mais um banal exercício pós-apocalíptico de Hollywood.

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John Hillcoat evita um registo aventuroso, contendo-se, mantendo o olhar centrado, quase tão árido para com a superfície envolvente dos dois caminhantes como ela própria.
O importante aqui é a defesa da filiação que eles mantém num mundo que está a perder todo o tipo de relações, excepto aquelas que permitem que um grupo se una pela força para escravizar e usar como alimento os restantes.
E é nisso que John Hillcoat quer manter a concentração de quem vê, no silencioso poder emocional da sucessão de eventos que afligem o Pai e o Filho.

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Porque também o Pai se centra na sua única missão, dar ao filho a sua única hipótese de sobrevivência quando ele acabar por morrer, como sabe que inevitavelmente acontecerá.
É o seu derradeiro acto de amor, dar ao filho uma vida a que não poderá assistir e de que não fará parte.
O problema está no facto de esse acto de amor ser, afinal, um homem a arrasar a réstea de humanidade que o filho ainda tem, porque afinal estão perante um novo mundo, um mundo onde as regras e as crenças estão tão devastadas como tudo o que os rodeia.
O risco que ele corre nesse acto de amor é o destruir a memória que o filho tem dele como um pai carinhoso e como um ser humano bom, daí que tal acto seja tão poderoso e tão revelador do sentimento que mantém esta relação caminhando para a salvação que representa o mar.

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O filme é poderoso, mesmo que não não se pudesse esperar dele uma eloquência que o torne numa obra de excepção.
Mas isso fica a dever-se, exactamente, à aridez que referi logo no início e que não podia ser sufocada por um exagero estilístico ou interpretativo - é impossível imaginar outros actores naqueles papéis, senão Viggo Mortensen e Kodi Smit-McPhee senão com aquela seca obstinação um para com o outro, com um fundo sentimetal.
O golpe a seco que é o filme é, indiscutivelmente, a sua força. Tentar algo diferente era esmagar o sentido do que se vê.


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