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domingo, 11 de outubro de 2015

Poster e trailer para "Triple 9"



Com poucos dias de intervalo foram revelados um trailer red band e um poster para o novo filme de John Hillcoat, Triple 9.

O realizador de Escolha MortalA Estrada e Dos Homens Sem Lei continua a eleger o mundo do crime como o ambiente ideal para os dramas que dirige.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Dos Homens Sem Lei, por Tiago Ramos


Título original: Lawless (2012)
Realização: John Hillcoat
Argumento: Nick Cave
Elenco: Tom HardyShia LaBeoufGuy PearceJessica ChastainJason ClarkeMia Wasikowska e Gary Oldman

Há em John Hillcoat um esmero e brio a nível técnico, difíceis de criticar. Um tipo de trabalho competente e profissional que já era evidente em filmes tão distintos como The Proposition (2005) ou The Road (2009) e que aqui não se altera. Aliás, esse é provavelmente o maior destaque que podemos encontrar em Dos Homens Sem Lei: uma reconstituição detalhada do Estado de Virgínia nos anos 30, durante o período da Lei Seca (excelente trabalho a nível de direcção artística) numa excelente fotografia desbotada (com o vermelho como cor a destacar) de Benoît Delhomme. É esse trabalho que faz do filme uma recriação dos clássicos filmes de gangsters e westerns, com tudo o que isso tem de bom como de mau. Não que não haja competência além da técnica aqui: desenvolve a premissa simples de uma forma exímia e faz até um uso surpreendente da violência (por vezes inesperadamente gráfica), desconfortável, sádica e brutal. O elenco é um pequeno achado: Tom Hardy numa composição severa e rude (com pequenos trejeitos quase cómicos), Guy Pearce num assustador desempenho, repleto de frieza e maneirismos convincentes no papel de vilão; Jessica Chastain, figura feminina, solitária, pouco destacada, mas que se faz evidenciar e até um Shia LaBeaouf bem escolhido, como figura clássica de transição entre menino que vive na sombra dos irmãos, mas com ambições de figurar entre as maiores figuras sem lei. Outros nomes destacam-se na ficha técnica, sem contudo funcionarem mais além dos meros adereços.

Qual o problema então? O facto de não admitir ir mais além da figura de género, de um competente western ou filme de gangsters, não permitindo na sua maioria uma ligação emocional do espectador às personagens. Personagens essas que, independentemente de serem bem interpretadas pelos actores de luxo que as compõem, não passam de meros arquétipos de género. O argumento de Nick Cave nunca permite isso ao espectador: afasta-lhes os traços humanos, deixando-os apenas à luz dos valores da época sem lhes expor as verdadeiras vulnerabilidades. Curiosamente, onde lhe falta emoção no argumento, o próprio Nick Cave (na companhia de Warren Ellis) consegue transmiti-la na banda sonora e nas excelentes canções que traz (onde até há lugar para uma inesperada cover de White Light/White Heat, dos The Velvet Underground). Destaca-se porém uma bela cena, muito bem filmada, a meia luz, num bonito jogo de luz e sombra, com uma Jessica Chastain desnuda e tão forte, quanto vulnerável, num bom rasgo de emoção.

Dos Homens Sem Lei é um retrato violento e competente de uma época onde a lei era quase tão corrupta como os seus infractores. Uma recriação perfeita, melancólica e estilizada, mas tão convencional e pouco emocional, como os padrões dos géneros que pretende homenagear.


Classificação:

domingo, 7 de fevereiro de 2010

A Estrada, por Carlos Antunes

http://www.filmofilia.com/wp-content/uploads/2009/09/the_road_poster02.jpg

Título original:
The Road
Realização: John Hillcoat
Argumento: Joe Penhall
Elenco: Viggo Mortensen, Kodi Smit-McPhee e Charlize Theron

A aridez de A Estrada torna-a um material verdadeiramente difícil de trabalhar.
Não se trata apenas da aridez que o mundo em torno de Pai e Filho revela, mas é também uma aridez de personagens - e, claro, de diálogos - que se envolvam no caminho de ambos.
Facilmente se poderia perder o sentido do essencial e reconverter o filme em mais um banal exercício pós-apocalíptico de Hollywood.

http://i.blogs.indiewire.com/thompsononhollywood/images/uploads/thompson-on-hollywood/the-road_l.jpg

John Hillcoat evita um registo aventuroso, contendo-se, mantendo o olhar centrado, quase tão árido para com a superfície envolvente dos dois caminhantes como ela própria.
O importante aqui é a defesa da filiação que eles mantém num mundo que está a perder todo o tipo de relações, excepto aquelas que permitem que um grupo se una pela força para escravizar e usar como alimento os restantes.
E é nisso que John Hillcoat quer manter a concentração de quem vê, no silencioso poder emocional da sucessão de eventos que afligem o Pai e o Filho.

http://www.chicagonow.com/blogs/geek-to-me/assets_c/2009/11/the-road-movie-05-thumb-470x315-31753.jpg

Porque também o Pai se centra na sua única missão, dar ao filho a sua única hipótese de sobrevivência quando ele acabar por morrer, como sabe que inevitavelmente acontecerá.
É o seu derradeiro acto de amor, dar ao filho uma vida a que não poderá assistir e de que não fará parte.
O problema está no facto de esse acto de amor ser, afinal, um homem a arrasar a réstea de humanidade que o filho ainda tem, porque afinal estão perante um novo mundo, um mundo onde as regras e as crenças estão tão devastadas como tudo o que os rodeia.
O risco que ele corre nesse acto de amor é o destruir a memória que o filho tem dele como um pai carinhoso e como um ser humano bom, daí que tal acto seja tão poderoso e tão revelador do sentimento que mantém esta relação caminhando para a salvação que representa o mar.

http://blog.oregonlive.com/ent_impact_tvfilm/2008/05/theroad.jpg

O filme é poderoso, mesmo que não não se pudesse esperar dele uma eloquência que o torne numa obra de excepção.
Mas isso fica a dever-se, exactamente, à aridez que referi logo no início e que não podia ser sufocada por um exagero estilístico ou interpretativo - é impossível imaginar outros actores naqueles papéis, senão Viggo Mortensen e Kodi Smit-McPhee senão com aquela seca obstinação um para com o outro, com um fundo sentimetal.
O golpe a seco que é o filme é, indiscutivelmente, a sua força. Tentar algo diferente era esmagar o sentido do que se vê.


segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

A Estrada, por Tiago Ramos



Título original: The Road (2009)
Realização: John Hillcoat
Argumento: Joe Penhall e Cormac McCarthy
Elenco: Viggo Mortensen, Kodi Smit-McPhee e Charlize Theron

Esta estrada que se nos apresenta perante os nossos olhos é longa e negra. Nesta estrada não há esperança – há a certeza do desespero e do fim. Nesta estrada não se vive – sobrevive-se. Nesta estrada, seres humanos há poucos. Há seres, mas selvagens, há impiedade. O mundo, à sua roda, deixou de existir. O mundo mantém-se moribundo, decadente, espectador do seu próprio fim. Não reage, não se regenera, apenas se revolve na sua própria destruição, nas suas cinzas. Não se vê mais que o cinzento – o mundo é cinzento. Mas o futuro é negro e a esperança – tal como a Terra – há muito que deixou de ser verde.


Cormac McCarthy entrega-nos um retrato peculiar de um mundo pós-apocalíptico. Ninguém sabe o que aconteceu, como aconteceu, quem sobreviveu. Apenas sabe-se que aconteceu e não precisamos de mais. Porque tudo é tão realista, tão sufocante que não perguntamos por mais, que nem queremos saber, que tentamos passar ao lado da origem e lutar contra o nosso próprio sentimento de culpa de, talvez quem sabe, tenhamos sido nós a provocar este colapso, o Armagedão. A agitação na verdade não é muita. Ninguém sabe porquê. Talvez porque já não restem muitos. Talvez porque não há nada a fazer, o que existe é apenas resignação. Sem panos quentes, Joe Penhall escreve o argumento com a calma necessária – apenas a motivação humana, a relação pai-filho, em preterimento da destruição e da violência.

É este sentimento agonizante, de “murro no estômago”, que faz de A Estrada um grande filme – que se apresenta com semelhanças a O Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago e Blindness, de Fernando Meirelles. A cegueira é a mesma. As pessoas estão cegas pela sobrevivência, cegas pela sua protecção – às vezes tão cegas, que quase irracionais. As personagens de ambos os livros/filmes não interessam, não são importantes. Num mundo colapsado para que servem os nomes? O que interessa é o ser humano por si próprio.



Viggo Mortensen é o filme. A par dos cenários, é ele que carrega às costas o fardo do fim do mundo. Um grande actor, subtil, nunca excessivamente dramático, mas com uma entrega total. Olhamos para ele e acreditamos que luta pela vida, sentimos a sua angústia. Kodi Smit-McPhee é uma pequena revelação, um diamante em bruto, com muito para aprender, mas convincente no seu desempenho. Também Charlize Theron, nas suas curtas aparições, espelha bem o desespero e garante dos momentos mais comoventes do filme.

Tecnicamente o filme é excelente, passando pela fotografia cinzenta de Javier Aguirresarobe (Vicky Cristina Barcelona), os cenários de Robert Greenfield (Cloverfield) até à banda sonora de Nick Cave e Warren Ellis.



The Road não é um filme fácil, não é para estômagos fracos. Porque dá-nos socos e nós limitamo-nos a aceitá-los, como se arcássemos com o mesmo fardo que as personagens, como se a nossa estrada também não tivesse fim. A dada altura, talvez pedíssemos um argumento menos linear – uma explicação para tal apocalipse. Mas isso, nunca nos é dado. E nós limitamo-nos a esperar, angustiados. Angustiados. E nada mais.

Classificação: