quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Dos Homens Sem Lei, por Tiago Ramos


Título original: Lawless (2012)
Realização: John Hillcoat
Argumento: Nick Cave
Elenco: Tom HardyShia LaBeoufGuy PearceJessica ChastainJason ClarkeMia Wasikowska e Gary Oldman

Há em John Hillcoat um esmero e brio a nível técnico, difíceis de criticar. Um tipo de trabalho competente e profissional que já era evidente em filmes tão distintos como The Proposition (2005) ou The Road (2009) e que aqui não se altera. Aliás, esse é provavelmente o maior destaque que podemos encontrar em Dos Homens Sem Lei: uma reconstituição detalhada do Estado de Virgínia nos anos 30, durante o período da Lei Seca (excelente trabalho a nível de direcção artística) numa excelente fotografia desbotada (com o vermelho como cor a destacar) de Benoît Delhomme. É esse trabalho que faz do filme uma recriação dos clássicos filmes de gangsters e westerns, com tudo o que isso tem de bom como de mau. Não que não haja competência além da técnica aqui: desenvolve a premissa simples de uma forma exímia e faz até um uso surpreendente da violência (por vezes inesperadamente gráfica), desconfortável, sádica e brutal. O elenco é um pequeno achado: Tom Hardy numa composição severa e rude (com pequenos trejeitos quase cómicos), Guy Pearce num assustador desempenho, repleto de frieza e maneirismos convincentes no papel de vilão; Jessica Chastain, figura feminina, solitária, pouco destacada, mas que se faz evidenciar e até um Shia LaBeaouf bem escolhido, como figura clássica de transição entre menino que vive na sombra dos irmãos, mas com ambições de figurar entre as maiores figuras sem lei. Outros nomes destacam-se na ficha técnica, sem contudo funcionarem mais além dos meros adereços.

Qual o problema então? O facto de não admitir ir mais além da figura de género, de um competente western ou filme de gangsters, não permitindo na sua maioria uma ligação emocional do espectador às personagens. Personagens essas que, independentemente de serem bem interpretadas pelos actores de luxo que as compõem, não passam de meros arquétipos de género. O argumento de Nick Cave nunca permite isso ao espectador: afasta-lhes os traços humanos, deixando-os apenas à luz dos valores da época sem lhes expor as verdadeiras vulnerabilidades. Curiosamente, onde lhe falta emoção no argumento, o próprio Nick Cave (na companhia de Warren Ellis) consegue transmiti-la na banda sonora e nas excelentes canções que traz (onde até há lugar para uma inesperada cover de White Light/White Heat, dos The Velvet Underground). Destaca-se porém uma bela cena, muito bem filmada, a meia luz, num bonito jogo de luz e sombra, com uma Jessica Chastain desnuda e tão forte, quanto vulnerável, num bom rasgo de emoção.

Dos Homens Sem Lei é um retrato violento e competente de uma época onde a lei era quase tão corrupta como os seus infractores. Uma recriação perfeita, melancólica e estilizada, mas tão convencional e pouco emocional, como os padrões dos géneros que pretende homenagear.


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