terça-feira, 25 de setembro de 2012

Uma Vida Melhor, por Tiago Ramos


Título original: Une vie meilleure (2011)
Realização: Cédric Kahn
Argumento: Cédric Kahn e Catherine Paillé
Elenco: Guillaume Canet e Leïla Bekhti

A par de Jerichow (2008), Uma Vida Melhor é uma das estreias de cinema recentes que mais oportunamente se inserem no actual contexto sócio-económico. O seu poster e título cruelmente brincam com as expectativas do espectador ou simplesmente antecipam uma realidade a que infelizmente nos começamos a aperceber lentamente. O êxodo, o american dream, o european dream ou a busca de uma vida melhor são tão antigos como o próprio ser humano, mas a construção que o francês Cédric Kahn dá a esse sonho tão antigo é também influenciada pela realidade contemporânea. A fugacidade do sonho é tão rápida quanto alguns poucos minutos de filme, quando os sonhos dos protagonistas (tão felizes que eles estão) são subitamente dilacerados pela máquina cruel que é a sociedade, pelos bancos, pelas empresas de créditos, pelos empréstimos pessoais, pelos loan sharks, pelos oportunistas. É aí que a má sorte dos protagonistas entra numa acentuada espiral descendente, onde se há algo mal, a certeza é que se vai tornar ainda pior. Um produto da escola do (por vezes exacerbado) realismo social tão cruel, quanto verídico, tão desinspirado quanto desencantado. E a forma como o argumento mostra como pequenas acções, por mais bem intencionadas que sejam, podem condicionar completamente o nosso futuro no actual panorama económico, aparenta uma tragicidade que, infelizmente, o espectador sente que quase não pode negar ou acusar de ser pouco plausível. A tensão emocional cresce no filme com a intensidade assombrosa da perfomance do francês Guillaume Canet que suporta grande parte do filme e cujos problemas pessoais interagem com a sua ligação afectiva e familiar. A forma como o seu revés pessoal o transforma a si e à sua recente família é tão trágico como comovente, mesmo que por vezes, admitamos, pareça cansativo.

Embora por vezes melodramático, Uma Vida Melhor não se perde totalmente nos clichés de género, desconstrói o (mito?) do american dream e da emigração por motivos económicos e deita por terra as expectativas do espectador enquanto pessoa social. Chega talvez a ser demasiadamente cruel (haverá razão para termos ou não alguma réstia de esperança?), mas este neo-realismo é tão severo e doloroso, quanto facilmente reconhecível numa notícia de jornal, na casa ao lado ou na nossa própria vida.


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