sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

El espíritu de la colmena, por Tiago Ramos


Título original: El espíritu de la colmena (1973)
Realização: Víctor Erice
Argumento: Víctor EriceÁngel Fernández Santos e Francisco J. Querejeta
Elenco: Fernando Fernán Gómez, Teresa Gimpera, Ana Torrent e Isabel Tellería

O olhar fascinado pelo cinema (o mesmo que é tão bem replicado na cena do filme abaixo) é evidente numa das cenas iniciais de El espíritu de la colmena. Numa Espanha que vive a Guerra Civil em 1940, numa pequena província, onde o cinema chega itinerante e as crianças (e adultos) correm expectantes em saber qual a película escolhida. A escolha era Frankenstein (1933) e os olhos daquelas crianças permanecem concentradas em tudo o que se passa, ávidas pelas imagens que se sucedem, mesmo que não percebam bem a história. «Porque é que o monstro mata a menina e porque o matam a seguir?» pergunta a menina, sem tirar os olhos do ecrã. A resposta, essa é mais ou menos importante, mas aqui não interessa muito. O que interessa mesmo é que esse o ponto de partida para um filme sobre o olhar. Uma questão que começa no cinema e parte para menina solitária que aprende, a partir dali, através da curiosidade infantil, as diferenças entre o real e a ficção, bem como o significado da vida e da morte. O filme explora a inocência daquela menina e os meandros da sua imaginação, numa estrutura que Victor Erice torna formal, mas maravilhosamente minimalista e onírica - veja-se a belíssima fotografia do espanhol Luis Cuadrado em tons dourados, composta por inúmeras referências a favos de mel. Aquilo que vemos perante os nossos olhos é uma bela alegoria sobre o nosso próprio questionamento da vida, bem como a perda da inocência, pela forma como interagimos com o mundo que nos rodeia.

O olhar é sempre subjectivo e a câmara assume-se poética, preocupa-se com o olhar das diferentes personagens e das suas perspectiva distintas da vida e por conseguinte da morte. Daí que cada uma ensina (ou aprende) de forma subtil aquilo que é a perspectiva da morte: ao andar sobre carris de um comboio, ao apanhar cogumelos, a olhar para dentro de um poço. Cada um desses ensinamentos advêm da forma como se olha e como se lida, assim como a belíssima Ana descobre, numa interpretação soberba de Ana Torrent, com apenas sete anos e ainda assim tão maravilhosamente delicada e subtil. É através dela que o nosso olhar se prende nesta maravilhosa fábula que tão bem demonstra o poder do cinema, mas também da imaginação e do crescimento. Daí que no fim é uma Ana destemida que, a meio da noite, abre aquela janela e diz "Soy Ana, soy Ana". E nós somos os espectadores, de olhar atento a um dos mais belos filmes da história do cinema, mas também da vida.


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