sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Notas de Amor, por Tiago Ramos


Título original: Take this Waltz (2011)
Realização: Sarah Polley
Argumento: Sarah Polley
Elenco:  e Luke Kirby

Chega agora discretamente às salas portuguesas (com um atraso de dois anos e sucessivos adiamentos) a segunda longa-metragem da actriz-realizadora Sarah Polley (que surpreendeu com Away from Her) e que poderá facilmente passar despercebido junto do espectador. Um dos motivos talvez seja precisamente a forma como a máquina de marketing o promove: uma espécie de comédia romântica, cujo título nacional perde todo o poder da versão original inspirada numa canção de Leonard Cohen. Aquilo que nos traz é um anti-romance, um modo peculiar de definir a forma como a autora contorna todas as regras típicas do romance, para nos trazer algo bem mais profundo (e talvez menos esperançado) que uma mera paixão ocasional. Este Notas de Amor apresenta um retrato das relações duradouras, da sua natural monotonia e da tendência humana e frequente de ansiar sempre por algo mais intenso e diferente. É a construção, em fogo lento, de uma paixão que vai crescendo simplesmente pela impossibilidade da sua existência, algo que narrativamente acaba por ser comum, mas que Sarah Polley torna num delicado e amável filme.

Michelle Williams enche a tela (naquela que é mais uma das suas estrondosas e subvalorizadas interpretações) com um desempenho poderoso na forma de uma mulher cansada da sua vida rotineira. Um modelo de personagem frequente na carreira da actriz, mas que tão subtilmente consegue preencher, como poucas. A actriz e Sarah Polley tornam este pequeno filme numa pequena e rara pérola, possível pela construção simples do argumento, repleta de momentos encantadores e elegantes (há, no mínimo, dois momentos maravilhosos: um envolve uma viagem de carrossel ao som de Video Killed the Radio Star e outro, uma conversa sensual e intensa à mesa de um café) e sempre uma subtileza que oscila efectivamente entre o romance, a comédia e o drama poderoso. Expõe as fragilidades dos relacionamentos e a nossa própria natureza tendencialmente insatisfeita, com o apoio de uma direcção artística e fotografia visualmente contrastante e que contribui para uma ambiência que metaforiza a nossa ânsia por algo diferente com um ambiente de quase fantasia. A moral final é dura e só nos expõe à nossa própria fragilidade, mas a forma como o consegue fazer é bastante poderosa e querida. Só nos deixa com mais expectativas para próximo trabalho da realizadora (desta vez um documentário, Stories We Tell, que francamente gostaríamos que chegasse ao nosso mercado de distribuição e se possível, não com tanto atraso).


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