segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Semana em Crítica - 3 de Outubro



É um dos melhores filmes que chegaram às nossas salas de cinema nos últimos tempos e não só porque já contém em si toda a carga simbólica de retratar parte da história de vida de uma das mais importantes filósofas e politólogas contemporâneas, Hannah Arendt. Um filme que não desperdiça tempo em tentar ser uma revisão exaustiva da vida da personagem, mas que prefere focar-se sobretudo nos seus pensamentos, teorias e filosofias, dando a essas ideias tempo para respirar, num ritmo compassado, equilibrado e inteligente. É claro que tudo isso resulta porque a interpretação da alemã Barbara Sukowa é uma das melhores do ano e agarra cada detalhe da personagem como se fosse ela mesma, dando-lhe intimidade e sobretudo uma figura muito humana. Nem a actriz nem a sua realizadora quiseram cunhar a figura de Arendt como uma daquelas intocáveis, muito pelo contrário, atribuíram-lhe ainda todo um lado pessoal e talvez até radical, que equilibra bem este retrato natural e apaixonado. Uma estrelaUma estrelaUma estrelaUma estrela Tiago Ramos

Perante o peso do tema a que está associada Hannah Arendt o filme de Margarethe von Trotta esquece-se que o dramatismo tem de vir da narrativa e não apenas do contexto histórico. No seio do filme colocou a mulher (em privado) e a escrita dos artigos que pensaram a "banalidade do mal", quando deveria ter colocado um dos outro dois momentos: o confronto da pensadora com a realidade ou o confronto da sociedade com as ideias dela. Um e outro parecem estar transformados em detalhes que apenas proporcionam a Hannah discussões em público e, sobretudo, em privado - as melhores, em que alguém a confronta e a obriga a melhor expôr as ideias que "são" o filme - para se mostrar como personagem. O problema é que, em privado, Hannah Arendt interessa muito pouco: o próprio filma coloca Martin Heidegger a dizer que pensar é um acto solitário, portanto se não fossem essas cenas de discussão nada havia a mostrar. A prestação de Barbara Sukowa está, dramaticamente, uns furos acima de tudo o resto (mesmo se é potenciada por aquela cena de discurso emotivo quase no final), equilibrada mas cheia de tonalidades. Infelizmente é afogada pela falta de personalidade da realização que se compromete a partir do momento em que usa as imagens de arquivo do julgamento de Adolf Eichmann: a iamgem definitiva de que o dramatismo nunca esteve no argumento. Uma estrelaUma estrela Carlos Antunes





O filme termina com uma imagem de um momento em que Niki Lauda e James Hunt sorriam a propósito de uma conversa (?) antes de uma corrida. Nessa altura a voz off de Daniel Brühl fala do respeito e da admiração que criou pelo seu oponente. Isto é o retrato do filme, uma má tentativa de forçar a leitura complexa que só a realidade tem a partir de uns quantos momentos de confronto e nenhum - porque os que existem não têm significado - de comunhão das personagens. Dois pilotos reduzidos a estereótipos que servem, maioritariamente, o lado pior da rivalidade, aparecem vezes de menos a confrontarem-se verbalmente fora da pista. Na pista, apesar dessas cenas serem mais interessantes do que a maioria de anos recentes, continuam a ser pensadas sem uma relação com aquilo que foi bem desenvolvido durante anos a fio - a cobertura televisiva - e sem uma superação do lugar-comum da montagem - a que serve um grande plano de um capacete que encobre toda a expressão do actor?
A evidência de que o melhor do filme se passa quando se nota o trabalho de diálogo de Peter Morgan não deixa de ter uma oposição clara - e, por vezes, imediata - no terrível jogo emocional que o argumentista produziu. À conferência de imprensa de Lauda - baseada numa pergunta feita realmente - segue-se um momento redentor para Hunt. À discussão verbal entre os dois já campeões do mundo segue-se uma lição de felicidade de Hunt a Lauda que se baseia em álcool e sexo. Peter Morgan cedeu à admiração que tinha pelo piloto britânico, tentando melhorar a imagem dele. O problema é que os grandes momentos são todos de Lauda e da subtileza com que Daniel Brühl pode mostrar a preocupação pelo seu colega. Mesmo o casting fala disto, pois é do lado europeu e não american(izad)o que o filme mostra o maior acerto: além de Brühl,  Alexandra Maria Lara e Pierfrancesco Favino estão magníficos. Uma estrelaUma estrela½ Carlos Antunes

Impressiona pensar que mesmo para quem não se interesse particularmente com a Fórmula 1, carros ou velocidade no geral, este filme consegue cativar por saber muito bem equilibrar esse lado com a vertente humana das personagens. Ron Howard reúne-se de novo com o argumentista britânico Peter Morgan e algo interessante acontece: é seguramente um dos mais interessantes filmes de entretenimento dos últimos meses. Não é também por isso isento de algumas falhas e que curiosamente assentam numa tendência dos últimos argumentos de Morgan (recordam-se os falhados Hereafter ou 360): acabam por ceder em demasia ao sentimentalismo barato, abusando de chavões como a narração em voz off. Já para não falar de alguns simbolismos que envergonham o espectador, como aquela cena em que se vê reflectido numa janela o rosto da personagem Niki Lauda, juntamente com o fogo da lareira de casa. Para além de, claro está, da tentativa redentora final, que só prejudica o filme - que poderia (e deveria!) ter terminado uns minutos antes. Mas Ron Howard tem mão segura e não abdica do tom vertiginoso que dá a grande parte do filme, com especial atenção para o detalhe das cenas da corridas, já para não falar do notável trabalho de montagem, fotografia, direcção artística e efeitos sonoros e visuais do filme - tecnicamente excelente. Contudo e se é para falar de excelência, é impossível não atentar na importante composição de Daniel Brühl, um trabalho genial, detalhado na personificação da personagem (não só na incrível parecença física, mas também a nível da expressão corporal e verbal), nunca abdicando das nuances de personalidade. Ele e Alexandra Maria Lara são do melhor que o filme tem, onde nem Chris Hemsworth falhou (a personagem assenta-lhe que nem uma luva), mas onde Olivia Wilde surge como um terrível erro de casting.  Uma estrelaUma estrelaUma estrela½ Tiago Ramos





Nove anos depois de The Dreamers, Bertolucci regressa ao cinema com um filme bastante simpático e humano, que garante uma conexão emocional muito forte ao espectador e que estabelece uma relação simbólica entre a ficção e realidade (não nos parece aleatório por exemplo, que o psicólogo das cenas iniciais, esteja numa cadeira de rodas, por exemplo, quando olhamos para um cineasta em condições semelhantes). Eu e Tu convida à introspecção sensível e minimalista, bastando-lhe apenas para isso o olhar sobre a face do seu jovem protagonista (Jacopo Olmo Antinori), tão real, tão único, simultaneamente tão imperfeito quanto perfeito, como somos na adolescência. Bertolucci filma a juventude de uma forma apaixonada, como uma recordação do que já passou, sempre com uma visão sensível e única desse período. Uma estrelaUma estrelaUma estrela½ Tiago Ramos

A claustrofobia com tanto de arrojo de cineasta experiente como solução inteligente de cineasta sem recursos. A fotografia exemplar, calorosa e opressiva em igual medida. A banda sonora, perspicaz e inesperada, mas a juntar-se às imagens com precisão. Estas são as coisas boas do novo filme de Bertolucci que é um velho filme de Bertolucci - ou o mesmo filme que Bertolucci já filmou várias vezes, se preferirem. O problema é que lhe falta a precisão dramática de há umas décadas ou o arrojo de ressonância de há "meros" dez anos atrás. Fechar o mundo do lado de fora deste filme pode servir a uma metáfora sobre os personagens e a sua clausura pode servir para potenciar os lados melhor e mais perigoso dessa proximidade súbita, mas depois nada disso se chega a sentir neste filme que termina com uma imagem que dissipa o pensamento sobre o resultado do que ainda está para vir daquele período a dois. Uma estrelaUma estrela Carlos Antunes





Uma ficcionalização de um documentário em torno da reconstituição dos quarenta minutos cortados a Cruising - um thriller pouco interessante mas uma interessante memória de um tempo perdido como a recuperação em DVD há uns anos deixou claro. Não contando com o facto de só termos cinco minutos desses prometidos quarenta ou que haja uma parte deles que são apenas a imitação de uma cena do filme original, há muito sobre o que nos queixarmos em Interior. Leather Bar.. A intenção era reflectir sobre a aceitação da violência ou do sexo heterossexual e a rejeição do sexo homossexual, usando a figura de James Franco como catalisador mainstream, visto que ele estava prestes a ser Oz para a Disney. Mas a questão que o sexo oral explítico deste filme levanta quando contraposto ao fisting perceptível mas não visível do filme original não tem a ver com o preconceito do público, antes com a necessidade da presença de qualquer tipo de sexo explícito e não coreografado no Cinema. O filme responde a essa pergunta de forma categórica, já que James Franco repete a ideia de que estão a usar o que é próprio do cinema pornográfico para contar uma história, mas essa história nunca consegue materializar-se em torno do desconforto do actor principal que faz de heterossexual a assistir a sexo homossexual. Uma estrela½ Carlos Antunes





Apesar de parecer que a única razão para combinar Mahjong com Interior. Leather Bar. é o somatório das durações para perfazer uma hora e meia, a possibilidade de ver a estreia comercial da mais recente curta de João Rui Guerra da Mata e João Pedro Rodrigues é sempre de louvar. Sobretudo porque se torna no ponto principal da sessão dupla. Um epílogo totalmente ficcional para A Última Vez Que Vi Macau que liga essa cidade outrora portuguesa a uma cidade portuguesa tornada numa Chinatown em que os elementos chineses estão escondidos dentro de armazéns, no que é uma zona periférica de Varziela. Novamente no domínio do film noir os realizadores valorizaram a magia do simples que traduz uma transformação do Oriente em comércio do Ocidente. Sendo perceptível os baixos valores investidos na produção, tudo o resto - com a imaginação da composição acima de tudo - está ao nível que se espera de qualquer filme que passe no grande ecrã. Até porque beneficiou de mãos experientes na montagem que lhe reforçam o tom de assombrada premonição que está nas imagens e de uma banda sonora que poderia ter saído do melhor terror dos anos 1970/80. E se João Rui Guerra da Mata não é (nem se vê como) actor, tem o estilo e a presença física para ser um "corpo" ao serviço de um género. Uma estrelaUma estrelaUma estrela½ Carlos Antunes





É daqueles casos em que apesar do atraso (perde três anos de um momento-chave para a carreira de uma actriz como Jacki Weaver, que foi aqui nomeada pela primeira vez ao Óscar), vale a pena dizer que é melhor mais tarde, que nunca. O filme é um belo retrato clássico do poder de desintegração (ou será integração?) do crime numa família, que evoca uma dimensão trágica e até quase antiquada que é aqui muito bem-vinda, nem que seja pela forma como o seu elenco a eleva. Não falamos só de Weaver como matriarca desta família, mas também para nomes como Joel Edgerton (foi também este o filme que o lançou para o estrelato destes dias) e James Frecheville. Uma estrelaUma estrelaUma estrelaUma estrela Tiago Ramos

Uma família de criminosos e a reacção criminosa que ela provoca contra si da parte de quem deveria ser a Lei. Acção, reacção, reacção, como num grande épico que se fecha naquele grupo familiar. As relações de sangue acossam os restos de humanidade que existam e toda a inocência ou ligação ao exterior é esmagada. Um cículo fechado a outras pessoas obriga todos os elementos a rodar numa espécie de vazio até perderem a noção dos limites. A força do filme está toda nas muitas supresas do sentimento predatório - e impune - que o círculo fechado da família gera. E, claro, nas muitas e excitantes interpretações, de entre as quais as de Ben Mendelsohn e Jacki Weaver se destacam pela maneira como arrancam o público a qualquer confortável distanciamento. Uma estrelaUma estrelaUma estrelaUma estrela Carlos Antunes





Um divertimento caseiro de amigos comediantes que filmaram o seu próprio chorrilho de disparates. O tipo de disparates de que todos os grupos de amigos se riem em privado mas que apenas um grupo famoso como este pode aspirar a transformar num filme com um exagero de efeitos especiais a esconder as falhas que da aglutinação de ideias cómicas que tiveram. Entre amigos tudo parece mais divertido por essa relação pessoal com as ideias e é notório que há muitas coisas no filme que não chegaram a passar por um filtro que tivesse em atenção o público. Tanto que o único momento verdadeiramente digno de nota é a produção caseira de uma sequela para Pineapple Express que Michel Gondry teria visto com bons olhos. Mesmo assim, o filme não é suficientemente mais divertido do que a curta que Goldberg e Rogen haviam feito antes para se justificar esta versão longa. Uma estrelaUma estrela Carlos Antunes

Filme de amigos para amigos, o lado mais interessante que Isto é o Fim! tem para os espectadores é a oportunidade de assistirem a um grupo de actores a fazerem de si próprios ou pelo menos de uma versão de si mesmos. É esse desfile de estrelas em situações mais ou menos inusitadas que faz o filme ser tão divertido dentro do seu estranhamento e bizarria, especialmente quando olhamos para cameos tão curiosos como os de Michael Cera ou Emma Watson.  Uma estrelaUma estrelaUma estrela Tiago Ramos





Outro dos filmes a que é difícil resistir pela sua simpatia e simplicidade. É mais um retrato social do mundo britânico contemporâneo, a que Ken Loach já nos habituou, aqui talvez até ainda mais acessível. Comédia igualmente leve como negra, o realizador continua com o seu tom de crítica social, mas aqui com um bom-humor simpático e com as personagens - um grupo de alcoólicos e não só, condenados a um trabalho comunitário - a servirem bem o seu propósito e a cativarem sobretudo o espectador, pelo seu lado humano e amigável. Uma estrelaUma estrelaUma estrela Tiago Ramos

O realismo social de Ken Loach tem este apelo de final feliz moderado, à dimensão realista de um ditoso momento extraordinário que se cruza com o universo do possível. Uma dimensão de sonho da cultura pop como já se vira em Looking for Eric e que aqui se retoma. De certa forma estamos perante a composição de uma comédia de contornos clássicos com algo de The Ladykillers (como o filme com Cantona poderia ser uma variação de Harvey) com um grupo improvável cujo sucesso é colocado em causa por eles próprios. Um filme de enorme charme, que inteligentemente oferece a recompensa muito depois de aplicar o sofrimento (da consciência) ao público. Uma estrelaUma estrelaUma estrela Carlos Antunes





A aspereza que Brad Furman dera a The Lincoln Lawyer merecera a atenção do público, mas este Jogo de Risco parece indicar que esse outro filme não passou de um acaso potenciado por uma bela interpretação de Matthew McConaughey. Runner Runner é um thriller sobre negócios e burlas - com um triângulo amoroso pelo meio - que perde pouco tempo com as hipóteses dramáticas sempre fascinantes do poker (mesmo que online), não chegando sequer a sugerir a afinidade que a trama poderia ter com as próprias incidências do jogo. Com as interpretações masculinas bastante constritas e com Gemma Arterton a servir de rebuçado para o olhar (bastante pobre para quem entretanto viu Byzantium) o filme é mesmo assim um pouco menos mau do que os posters ao melhor estilo "publicidade de champô" prometiam que fosse. Uma estrela½ Carlos Antunes





Apraz-nos dizer que vinte anos depois da sua estreia, Parque Jurássico soube envelhecer bem e ainda encerra em si todas as qualidades de um bom entretenimento. Olhar agora, à luz dos conhecimentos actuais, para a produção deste filme permite-nos reconhecer ainda mais o visionário (por mais que odeie esta expressão) trabalho de efeitos especiais que Spielberg e a sua equipa conduziram neste filme. Efeitos esses que em nada nos chocam e que figuram bem lado a lado com os trabalhos mais recentes. O tom de filme familiar de aventuras é mais uma vez bem-vindo, até porque confirma algo que digo há muitos anos: há falta desse género no cinema actual. E apesar do 3D pouco melhorar a sua apreciação, vale-lhe o mérito de ter trazido o filme de volta às salas de cinemas e talvez dar a oportunidade de novas gerações também o conhecerem. Uma estrelaUma estrelaUma estrelaUma estrela Tiago Ramos





Atire-se uma improvável mulher fatal para o seio de uma família já de si cheia de relações estranhas e está um argumento semi-pronto. Basta acrescentar um elemento qwerky para o diferenciar das centenas de outras versões desta narrativa e está completo: neste caso é a produção de som para filmes. Além de terminar com uma espécie de final sereno para a protagonista sem que esta o mereça ou o filme o justifique, este é um caso em que a sétima arte nunca consegue afastar uma certa percepção de série televisiva a meio caminho entre as soaps e a imitação de Six Feet Under (embora reconheça que o elenco ajuda a um certo preconceito). Mais um indie sem grande serventia no mercado nacional já de si pouco rico. E pela amostra não se percebe o que é que Girls terá de interessante para ver... Uma estrela½ Carlos Antunes

Bem integrado na cena indie actual, o que prejudica maioritariamente este trabalho é precisamente o facto de se refugiar nos lugares e temas comuns do género, sem lhe permitir adquirir uma identidade própria. Vale-lhe aquele olhar interno do trabalho de edição e mistura de som (na realidade tão interessante e que comparando o incomparável, tanto pela qualidade como pela forma, nos fez lembrar Berberian Sound Studio) e pela qualidade do seu elenco, especialmente a brilhante Rosemarie DeWittUma estrelaUma estrelaUma estrela Tiago Ramos

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