domingo, 28 de maio de 2017

Piratas das Caraíbas: Homens Mortos Não Contam Histórias, por Eduardo Antunes

http://splitscreen-blog.blogspot.com/2017/05/piratas-das-caraibas-homens-mortos-nao.html


Os realizadores desta quinta aventura na saga do famoso pirata Jack Sparrow disseram em tempos numa entrevista que o seu objectivo com este empreendimento era capturar de alguma forma a magia e novidade do filme original. Mas a única coisa que se esqueceram é que, para que tal aconteça é preciso que haja novidade.

O que fez do primeiro filme um sucesso, apesar de ter passado um pouco despercebido a início, foi não só a novidade de um filme de piratas após tantos anos de uns quantos clássicos com Errol Flynn mas também a irreverência e humor natural que a personagem principal Jack Sparrow (penso que me esqueci de um capitão algures) trazia, sem que a história fosse deixada para trás e se deixasse de focar nele, apesar de um arco com enfoque em elementos fantásticos.

Apesar dessa novidade perder-se inevitavelmente ao fim de um filme, Gore Verbinski conseguiu transportar o mesmo humor e aventura para os dois filmes posteriores, elevando o elemento do fantástico a um arco que envolvia elementos da lírica e "mitologia" pirata de uma forma nova e interessante e trazendo personagens novas e interessantes para a mistura, mas mantendo sempre o enfoque no seu protagonista, muitas vezes sem precisar de palavras para o fazer (como era mostrado através do uso da bússola, na qual Sparrow nunca teve um Norte certo).
Mas ao fim dessa trilogia, o navio desta saga afundou-se bastante, com uma quarta tentativa em recolher mais uns trocos dos nossos bolsos em que Jack Sparrow se tornava meramente um gag recorrente mas deslocado na restante narrativa, já sem grande imaginação ela própria.

Assim chego ao principal ponto que, enquanto fã acérrimo da primeira trilogia, me deixou muito desapontado com o quinto episódio nestas aventuras. Talvez a aparente repetição da personagem em outras interpretações de Johnny Depp me tenha feito cansar um pouco da personagem como a outras pessoas, mas a verdade é que o Capitão Jack Sparrow perdeu qualquer encanto que tinha desde há catorze anos atrás. As piadas já não são equilibradas e parecem ainda mais forçadas e sem graça, tirando um ou outro gag físico.


Para além disso, ele já não é essencial à narrativa e parece incluído apenas pelo nome e presença chamar mais pessoas para a sala de cinema. Até Barbossa tem mais para fazer neste filme que Jack.
Também a narrativa tem um problema óbvio de reciclagem de tantos elementos dos filmes passados. Uma tripulação e navio amaldiçoados, um elemento fantástico que dará a quem o possuir controlo sobre o mar, alguém que procura vingança sobre Sparrow por algo que ele fez em tempos, a bússola de Jack como o elemento que põe a narrativa em marcha, a Marinha sempre à perna dos nossos heróis, para nomear alguns. Parece que a tentativa de retornar a sucessos anteriores significava copiar os mesmos.

Infelizmente, os problemas do filme não acabam aí. Mesmo as personagens que envolvem Sparrow (numa segunda tentativa em dar novas caras à saga) ficam aquém do que prometem. De longe a mais interessante integração neste novo filme, Carina (Kaya Scodelario) é uma astrónoma considerada bruxa pelas suas práticas, o que é interessante dada a natureza fantástica deste franchise. No entanto, não são entendidas realmente as suas razões para ir em procura do artefacto que todos procuram, visto que provavelmente continuariam a não levar a sério as suas descobertas. Aliás, para além de Henry Turner (Brenton Thwaites), cuja prólogo do filme lhe é dedicado mas depois apenas marca presença quando é conveniente para a narrativa, ninguém tem realmente motivos para ir à procura de tal artefacto tão poderoso (que certamente teria dado jeito em filmes anteriores...) até ser conveniente.
Mesmo o Capitão Salazar (Javier Bardem), no que ainda assim é uma das melhores partes do filme, aparece apenas porque estes filmes sem um vilão principal não seriam aparentemente a mesma coisa. 

No final, não só não traz nada de novo à saga como ainda dilui e contraria sem sentido aspectos estabelecidos de filmes anteriores, numa aparente vontade de continuar a fazer sequelas apostando, novamente, em personagens anteriores mais interessantes.
Tudo isto faz com que, para além de algumas cenas de acção divertidas, não tenhamos realmente nenhum investimento nestas personagens ou narrativa, como já acontecera no filme anterior. Apesar de um pano de fundo interessante e divertido e de algumas ideias merecedoras de continuação, talvez o tempo deste franchise já tenha passado. Talvez já seja altura deste capitão se reformar de vez e não contar mais histórias.

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