domingo, 27 de maio de 2012

Os Bem-Amados, por Carlos Antunes



Título original: Les bien-aimés
Realização: Christophe Honoré
Argumento: Christophe Honoré
Elenco: Chiara Mastroianni, Catherine Deneuve e Ludivine Sagnier
Editora: Clap Filmes

Reconhecemos os sapatos vermelhos como elementos cinematográficos transfiguradores, irresistíveis objectos de condenação, que aqui levam uma jovem mulher a usar a prostituição como alternativa à vida de roubo pela qual parecia ir enveredar depois de levar aquele primeiro par de sapatos. Mas são, também, objectos que transportam de volta a casa, o que neste caso significa uma confirmação como mulher de porte integralmente definido.
Os sapatos vermelhos deste filme condensam essas duas características. São a causa da descoberta como tempos que eram difíceis tornavam as mulheres mais fáceis sem que isso lhe roubasse dignidade, antes proporcionando maior independência.
Confirmaremos que é pela entrega do amor - e não do sexo - que uma mulher se prende, levando-a a trocar a mulher que era no glamour de Paris pela dona de casa numa Checoslováquia em guerra. Quando ela parte, apenas com a filha, confirma-se que o dinheiro que ela cobrava pelo sexo era tanto uma necessidade como uma forma de controlar os sentimentos que nascem do desejo e que a colocaram na rota de amantes, fugas e outros dramas amorosos.
Este é um dos filmes que Les bien-aimés alberga. Há outro, menos ousado, menos interessante e menos relevante. Esse outro é a história da filha de Madeleine - a protagonista de tudo o que está escrito acima -, uma mulher que não soube aprender com a vida da mãe e que, por isso, está tão rendida aos amores que erra sistematicamente, desprezando o amor sincero daquele que homem que a tenta dominar (porque ela necessita) e perseguindo o homem de uma paixoneta ciscunstancial - um homossexual que só lhe pode dar uma única noite de sexo partilhada com outro homem.
Este papel da filha, de um dramatismo que ela parece perseguir sem necessidade senão de mostrar que a sua vida é preenchida por um dramatismo autónomo, não lhe vem de uma infância traumatizada ou de uma revolta para com a vida da mãe. Véra é mais feliz quando vê a mãe, recasada, voltar a ser amante do seu pai e aceita com alegria que foi "feita" nas escadas do prédio quando a paixão tomou conta do que seria apenas mais uma transação comercial.
Esta não chega a ser uma saga familiar de amores desencontrados porque não há heranças de vida entre mãe e filha. São duas mulheres, uma optando pelos homens errados, a outra optando pelos homens todos, que por acaso têm um grau de parentesco directo.
Duas histórias unidas pelo mínimo possível, que nem o estilo. Para a vida de Madeleine compreende-se que Christophe Honoré tenha citado Jacques Demy à força, entre a presença de Catherine Deneuve e a esperança de repetir o sucesso de Les chansons d'amour num resultado em que se encontra sincero prazer. Para a tragédia procurada de Véra, provavelmente, o estilo in(die)timista também será certeiro mas Honoré continua sem o saber dominar, como já mostrara na metade desperdiçada de Homme au Bain. Não há, depois, nenhum momento em que tais estilos se fundam e isso reforça a ideia de que, correndo juntos para o excesso das três horas, estamos perante dois filmes dos quais apenas um seria bom.


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