quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Blue Jasmine, por Tiago Ramos


Título original: Blue Jasmine (2013)
Realização: Woody Allen
Argumento: Woody Allen
Elenco: Cate Blanchett, Alec Baldwin, Peter Sarsgaard, Alec Baldwin, Andrew Dice Clay, Bobby Cannavale, Michael Stuhlbarg, Alden Ehrenreich e Louis C.K.

Como é que um filme que não é um dos melhores da carreira de Woody Allen pode-se tornar efectivamente um dos seus melhores? Contraditário, eu sei. Mas estranhamente possível e claramente notório quando nos vemos perante aquele que é um dos seus filmes que, simultaneamente, tanto mais se aproxima como se afasta dos seus temas e formas habituais. Estamos a bordo de um avião e vemos uma personagem que parece desesperada, neurótica até, que desfia perante uma outra passageira um rol de conversas sobre a sua própria (triste) vida. Nada estranho aqui e pensamos que talvez esteja aqui o alter-ego da figura de Woody Allen (algo a que já nos habituámos em grande parte dos seus filmes): Jasmine pode ser Woody Allen, assumimos. Mas não. E a verdade é que o espectador acaba por ver o tapete a ser-lhe tirado, de repente, debaixo dos pés, tal como fizeram também a Jasmine. No topo do mundo, da escala social, Manhattan, Park Avenue, o luxo e subitamente em Brooklyn e depois em São Francisco, em casa da irmã, sem dinheiro, sem orgulho, sem nada, o que mais tem é pena de si própria. E o espectador quando dá conta do que se está a passar percebe: Jasmine não é uma neurótica-obsessiva, não é uma hipocondríaca, não é um alter-ego de Woody Allen. Jasmine é uma mulher real, doente, profundamente doente, um esgotamento, uma depressão, uma profunda crise existencial e económica, uma dose de loucura nada saudável.

E quando aquele confronto com o inusitado da situação (chega pobre, sem nada, mas de malas Louis Vuitton) que inicialmente fazia o espectador rir de constrangimento, acaba por passar. O espectador já nada tem para rir, porque a dor e a espiral descendente daquela mulher é tão vertiginosa que só há um sentimento esmagador, de pena por ela (mas nunca maior do que a pena que esta sente por si própria). É aí que o espectador percebe que talvez esteja perante a personagem mais complexa e actual do cinema de Woody Allen: esta mulher é real e vive uma crise real, que talvez todos nós reconheçamos (mesmo que nunca tenhamos sofrido este downgrade tão intenso assim na escala social). Daí que este é também um autor diferente, aquele que reconhece ainda mais os sinais dos tempos e aquele que os trabalha com uma maior intensidade. Obviamente que não podemos ter medo de o dizer: este Woody Allen é Cate Blanchett. Jasmine é o filme. Cate Blanchett é o filme. Ela está quase sempre em cada plano da história e todas as outras servem-lhe apenas como complemento para a sua própria composição. Daí que dizemos que este pode não ser um dos melhores filmes de Woody Allen: falta-lhe talvez a habitual e intrincada teia narrativa que envolve várias vidas e personagens (embora tenhamos outros actores e interpretações excelentes, onde talvez se destaque Sally Hawkins) e até a montagem abusa em demasia dos flashbacks, quebrando-lhe por vezes o ritmo. Mas é também por isso que podemos dizer que este é bem capaz de ser um dos seus melhores filmes. Porque dá espaço à personagem e à história que realmente interessa.

Porque Cate Blanchett e a sua Jasmine suga o espectador. Suga tudo à sua volta, é a peça central de um magnífico drama. Suga-se a si própria porque já não tem escapatória. Porque a verdade é que já não há volta a dar, já não há salvação, mesmo quando parece haver uma pequena luz no topo da escada por onde caiu. Allen e Blanchett trabalham em sintonia, com subtilezas e delicadezas, mas também sem medo de pontapear o espectador. Aquela mulher é real. É sofrida e dorida, tem um desajustamento grave da realidade, é doente, está deprimida. Não é neurótica porque a vida já nem isso lhe permite. Por mais que queira, é Jeanette e nunca mais Jasmine, mesmo que ainda ouça a canção Blue Moon lá ao fundo.


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