sábado, 23 de dezembro de 2017

Star Wars: Episódio VIII - Os Últimos Jedi, por Eduardo Antunes


Título original: Star Wars: Episode VIII - The Last Jedi (2017)
RealizaçãoRian Johnson
Argumento: Rian Johnson

Passados dois anos sobre a que seria a revitalização de um franchise tão adorado durante agora quatro décadas, chegou-nos finalmente o segundo capítulo desta nova trilogia de Star Wars. Depois de um primeiro filme que se apoiava demasiado em ideias anteriores mas se esforçava por criar novas personagens tão interessantes como as suas antecessoras, resta-nos perceber se este universo conseguiu crescer para além dos arquétipos explorados nos filmes originais e consegue levar esta saga para novos lugares, literais e não só.

Para mim, a resposta é algo negativa. Tendo crescido com as prequelas, aprendi a ver os pontos positivos em filmes odiados por quase todos, muitas vezes pelas razões erradas. A verdade é que com as prequelas iniciadas no início do novo milénio, George Lucas, criador de toda esta saga, levou as ideias iniciais a todo um novo patamar, para o mal e para o bem. A verdade é que, por tudo o que falha, Lucas fez o possível por se distanciar o máximo possível das suas estórias originais para explorar uma parte desta galáxia com imenso potencial, em termos narrativos e visuais.
Não tendo recebido boas críticas por isso, há dois anos, J.J. Abrams, para retomar a estória, levou-a de volta às suas origens, recebendo também críticas por isso (depois ainda mais presentes pela familiaridade de Rogue One).

Vejo-me obrigado a fazer esta pequena introdução, não para demonstrar o que as prequelas ou The Force Awakens fizeram bem ou mal, mas para demonstrar que com estes novos filmes, a nostalgia pela trilogia de antigamente é muito grande para alguns, mas efectivamente demasiado presente para um franchise que se pretende agora anual e (no que toca à Disney) permanente. Isto porque não poderão focar-se para sempre nos mesmos pontos narrativos, já que isso levará (se não levou já) ao cansaço por Star Wars.
Tendo isso em conta, Rian Johnson tinha um papel difícil logo à partida, mas foi-lhe dado reinado completo sobre a estória deste episódio. E em parte leva a saga para sítios interessantes, mas que no final parecem ofuscados por más decisões e pretensões nunca concretizadas.

O grande ponto forte deste filme é sem dúvida o que Johnson faz com dois dos novos protagonistas (Rey e Kylo Ren) e com um dos antigos, Luke Skywalker, que já sabíamos que teria um papel principal aqui mas não até que ponto o levariam. E honestamente, as decisões tomadas são muito bem conseguidas e de louvar, tendo em conta o que se tenta distanciar dos clichés do passado e dar uma nova dimensão ao que costumava ser uma decisão binária entre os dois lados da Força. Demonstra estas personagens mais como seres humanos, conflituosos, com dúvidas, fraquezas e medos. Aliás, a razão por detrás do exílio de Skywalker retoma pontos explorados desde as prequelas, sobre o declínio da Ordem Jedi e dos seus ensinamentos.

Mas face a essas decisões, as opções tomadas com as restantes personagens e com a narrativa maior, em grande parte demonstram uma total falta de cuidado e desinteresse, como logo à partida é demonstrado pelo restante protagonista desta nova trilogia (Finn), que não recebe aqui qualquer tipo de arco. Este, juntamente com umas das novas personagens, Rose (que não tem quase desenvolvimento), participam numa narrativa secundária que, no final, é totalmente inconsequente na narrativa geral. Isto faz com que, tendo em conta a longa duração do filme e uma sequência (ainda que num planeta novo e potencialmente interessante) tão comum na sua execução (e com a inclusão de um Deux Ex Machina na personagem de Benicio Del Toro), a falta de desenvolvimento dessas personagens não possa ser desculpada.


Mais, o sacrifício de uma outra personagem apresentada neste filme, que apenas surge no ecrã durante uns minutos, não significa nada, tendo em conta que a maior parte do tempo não temos empatia por ela por a vermos pelos olhos duvidosos de Poe (que, felizmente, ganha aqui algum desenvolvimento, ainda que em termos bastante comuns - piloto impetuoso que aprende a liderar).
Mesmo a estória principal não tem o efeito que poderia ter tido. Podendo ter sido trabalhada como uma perseguição extremamente tensa, contra o relógio, pelo perigo de ficar sem combustível para escapar à imperdoável First Order, e tendo o interesse de se passar quase exclusivamente no espaço, sem aparente saída em vista (havendo inclusive a certo ponto um motim), esta acaba por se tornar aborrecida. Ainda que o momento final dessa perseguição seja extremamente forte em termos visuais, a jornada é sempre interrompida pela desinteressante correria das personagens de Boyega e Kelly Marie Tran, e pela nossa vontade de passar mais tempo com Hamill, Ridley e Driver em ecrã.

Aliás, um problema do filme que se faz sentir é a sua duração. Muitas vezes o filme parece apenas estar a passar tempo sem que realmente alguma coisa aconteça, sendo que a primeira metade demora algum tempo a arrancar. Não fosse pela aprendizagem de Rey na ilha em Ahch-To, pelo confronto climático a meio do filme e pela sequência final visualmente estimulante no planeta Crait, ter-me ia custado bastante a rever o mesmo tipo de batalhas espaciais pela terceira vez nos últimos tempos. 
Até porque desde cedo percebemos também que o filme não está comprometido com os temas e tom que pretende desenvolver com as suas personagens e narrativas. Várias cenas parecem subverter as nossas expectativas, para imediatamente a seguir lhes corresponderem, ficando nós primeiro estupefactos e, seguidamente, dormentes relativamente ao momento e reticentes em restantes tentativas de nos surpreender, desde a primeira sequência de acção. 

Da mesma maneira, existem momentos em que são discutidas ideias sobre a indefinição dos lados numa guerra e da riqueza ganha através desta, mas as quais nunca se reflectem realmente na narrativa do filme, já que os heróis e os vilões continuam marcadamente separados, acabando por tornar essas ideias apenas em pseudo-mensagens forçadas, sem qualquer fundamento para a sua inclusão neste filme.
Por último, existe um problema gravíssimo, que vem certamente sendo consequência do estilo familiar e amistoso da Disney e que tem marcado muitas vezes uma presença algo exagerada em vários filmes da Marvel. O humor aqui apresentado demonstra igualmente a falta de compromisso a um tom, já que a todo o momento surge uma criatura demasiado adorável ou uma piada desnecessariamente cómica, incluindo em momentos extremamente dramáticos. Não sendo tão estupidificado como em The Phantom Menace, por exemplo, esse humor não deixa de ser problemático, precisamente porque não nos mantém num sentimento de inquietude, tirando rapidamente uma risada do público em vez de o deixar em sobressalto. Veja-se que nos filmes originais da saga, o humor era contextual ou estava meramente presente nas interacções entre as personagens nas quais o humor era uma característica própria, nunca se sobrepondo ao momento mas sendo parte natural do mesmo. 

Esta experiência cinematográfica foi certamente um caso - para mim que continuo até este dia a ser um grande fã de Star Wars e tendo tido a oportunidade de ver este várias vezes consecutivas - em que a nostalgia já não me conseguiu fazer engolir as más decisões de argumento e edição. Ainda que os "principais protagonistas" sejam desenvolvidos de maneiras interessantes, o resto não traz nada de novo e revolve em volta do mesmo tipo de estereótipos narrativos e visuais que estes e outros blockbusters tendem a usar e abusar há anos, apesar de tentar dissimular que tal não é o caso. Se Star Wars não receber uma reforma mais ambiciosa rapidamente, temo ficar cada vez mais conflituoso relativamente a estes filmes e cada vez menos excitado pelo anúncio de cada novo registo na cada vez maior Guerra das Estrelas.




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