quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

Birds of Prey (e a Fantabulástica Emancipação De Uma Harley Quinn), por Eduardo Antunes

Realização: Cathy Yan
Argumento: Christina Hodson
Elenco: Margot Robbie, Jurnee Smollett-Bell, Ewan McGregor, Chris Messina, Rosie Perez, Ella Jay Basco, Mary Elizabeth Winstead

Mais um filme que na sua promoção prometia uma entretida viagem por uma das melhores partes retiradas de Suicide Squad, mas que no final serve como prólogo para personagens que existem no título mas não muito mais além disso.

Imediatamente começamos de pé atrás, com um recontar da história de Harley Quinn através de uma sequência de animação que, apesar de cativante, nos indicia desde logo a permanecer em suspeita. Isto porque apenas serve para esconder uma forma demasiado básica de contar a história precedente da personagem que, não só não é particularmente necessária para a nossa visualização do filme, como é recontada mais tarde pela mesma voz, num diálogo, em breves segundos.

Da mesma forma, o elemento da protagonista se direccionar directamente ao expectador apresenta-se demasiado familiar. Nota-se a vontade de retirar alguma familiaridade de Deadpool, aqui apenas muito esporadicamente usado, mas já só parece servir precisamente para dissimular a falta de ideias que o filme apresenta. Aliás, o constante apontar que o argumento faz sobre os clichés que utiliza (como na caracterização de Renee Montoya como uma simples detective dos anos 80) não lhe oferece o direito ou desculpa de os utilizar sem demais subversão.
Também as legendas que vão aparecendo sobrepostas a várias personagens ironicamente nos remetem demasiado para Suicide Squad, do qual de resto este filme parece querer fugir o máximo possível. E desde Bumblebee, parece este ser o problema desta argumentista. Ao se focar acertadamente na sua protagonista para se distanciar o máximo dos restantes elementos do universo maior, chama demasiada atenção para os mesmos, levando aqui demasiado tempo a referir Joker para além da boca de Harley, cujo impacto parece ser grande neste mundo mas nunca presente ou visível ao público.



E demora o primeiro acto, apesar de fazer jus ao subtítulo, tempo demais a reforçar a mensagem já por ela pouco subtil da emancipação da protagonista, nunca realmente merecida por não termos visto a sua causa (aparte a sequência animada inicial).
A própria simplicidade da narrativa daria azo para uma maior apreciação das personagens que no final formam o grupo titular, mas face o facto de verdadeiramente pretenderem capitalizar na personagem que Margot Robbie já conseguiu imortalizar no grande ecrã, as supostas restantes protagonistas recebem muito pouco (tempo) para trabalhar. Serviria a própria dinâmica de grupo como instrumento de emancipação para Harley, mas fica apenas a nota superficial no final para o filme que se seguir.

Mesmo a excentricidade que Margot Robbie já tinha apresentada em Suicide Squad, apesar de se manter consistente e entretida, é levada por vezes a um extremo distractivo, por se sobrepor em algumas cenas que deveriam ser mais comedidas e equilibradas. Existe inclusivamente uma reprodução curiosa da cena de Gentlemen Prefer Blondes em que Marilyn Monroe canta Diamonds Are a Girl's Best Friend, mas aqui na sua edição inteiramente caótica e epiléptica, sem qualquer sentido ou sequer contextualização narrativa para lá da referência ao diamante que deve recuperar, perde qualquer impacto que tivesse no trailer.
Também os vários saltos temporais, servindo uma potencial e divertida exploração da duvidosa narração de Harley, apenas complicam e atrasam uma narrativa que poderia avançar a um ritmo mais constante e talvez não tão acelerado para apresentar tantas personagens. Apenas na caracterização de Dinah Lance encontra o desenvolvimento suficiente e contra-ponto a Harley que o filme precisava.

É pena que, dado o talento natural de Robbie neste papel e a ocasional excelência na realização das sequências de acção - cuja sequência de fuga no armazém merece um grande destaque - e mesmo a presença de um vilão deliciosamente incerto e sádico interpretado por McGregor, continue a ser um filme que tenta morder um pouco mais do que deveria. Talvez se devesse inteiramente ter focado na segunda parte do título, sem apresentar ainda quem dará azo à primeira.



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