Realização: Fernando Lopes
Argumento: Rui Cardoso Martins
Elenco: Rui Morrison, João Reis, Maria João Pinho, Maria João Luís e Maria João Bastos
Fernando Lopes sempre filmou com muita poesia. Não só do ponto de vista estético, mas também no seu conteúdo. Não é de estranhar então que Em Câmara Lenta haja poesia à espreita em cada cena, haja literatura, filosofia e cultura do saber. Não é de estranhar então que logo numa das cenas iniciais o protagonista cite assim e em tom declamatório, Alexandre O'Neill: «Sigamos o cherne, minha amiga!». O filme é também assim, de interpretação não directa, lento na sua exposição e compreensão, como que à espera de amadurecimento. Como diz o título: em câmara lenta. Ou seja, mais uma estrutura ao nível de Fernando Lopes. A personagem de Rui Morrison é também ela, de certo modo, recorrente na sua filmografia: o Don Juan português, o sedutor, o de lábia fácil, num estilo que evoca imediatamente O Delfim (2002). Mas aqui a intenção da narrativa é construir uma teia de interacções ou um conjunto de interessantes ligações entre personagens (que o Salvador, belamente interpretado por João Reis, esquematiza numa das cenas), que infelizmente nunca chega a acontecer exactamente. As personagens aparecem-nos como que isoladas em pequenos retratos, sem nunca dar espaço a essa verdadeira interacção entre elas. Todas aparecem dispersas, dando espaço apenas ao Santiago de Rui Morrison para que interaja com elas. Propositado ou não, a verdade é que é precisamente a curta duração do filme (mesmo em câmara lenta) que não permite que se explore essa teia e quando estamos prestes a chegar ao âmago da questão é aí que o alto-mar se sobrepõe. «Vou atrás de um peixe grande. Ou o apanho eu, ou ele a mim». E aí também Fernando Lopes nos apanha e larga-nos das personagens e encerra-nos com uma narrativa que exigia mais amadurecimento. Algo que no fundo não nos soe a tão vazio.
Porém, a poesia de Fernando Lopes é encantadora. É um exercício próprio do autor que, tal como Santiago, também nunca se entrega totalmente ao espectador. Poesia estética, divagação pessoal, de quem questiona - tal como Santiago enquanto nada - a sua própria alma.
Nota para a curta-metragem que acompanha o filme e que marca a estreia na realização do actor Adriano Luz. O Dia Mais Feliz da Tua Vida, embora mais terra a terra, é também ele exemplo de uma visão poética e neste caso, de uma angustiante degradação humana. A direcção é precisa, detalhada, com ângulos interessantes e com uma excelente coordenação a nível sonoro (aquele constar pingar da torneira fica na cabeça). Mas a nível narrativo é também ela um pouco vazia e ficamos a amadurecer o que aconteceria além daqueles 20 minutos. Um pouco à semelhança de Em Câmara Lenta: ficamos à espera do que há para além daquele mar.
Elenco: Rui Morrison, João Reis, Maria João Pinho, Maria João Luís e Maria João Bastos
Fernando Lopes sempre filmou com muita poesia. Não só do ponto de vista estético, mas também no seu conteúdo. Não é de estranhar então que Em Câmara Lenta haja poesia à espreita em cada cena, haja literatura, filosofia e cultura do saber. Não é de estranhar então que logo numa das cenas iniciais o protagonista cite assim e em tom declamatório, Alexandre O'Neill: «Sigamos o cherne, minha amiga!». O filme é também assim, de interpretação não directa, lento na sua exposição e compreensão, como que à espera de amadurecimento. Como diz o título: em câmara lenta. Ou seja, mais uma estrutura ao nível de Fernando Lopes. A personagem de Rui Morrison é também ela, de certo modo, recorrente na sua filmografia: o Don Juan português, o sedutor, o de lábia fácil, num estilo que evoca imediatamente O Delfim (2002). Mas aqui a intenção da narrativa é construir uma teia de interacções ou um conjunto de interessantes ligações entre personagens (que o Salvador, belamente interpretado por João Reis, esquematiza numa das cenas), que infelizmente nunca chega a acontecer exactamente. As personagens aparecem-nos como que isoladas em pequenos retratos, sem nunca dar espaço a essa verdadeira interacção entre elas. Todas aparecem dispersas, dando espaço apenas ao Santiago de Rui Morrison para que interaja com elas. Propositado ou não, a verdade é que é precisamente a curta duração do filme (mesmo em câmara lenta) que não permite que se explore essa teia e quando estamos prestes a chegar ao âmago da questão é aí que o alto-mar se sobrepõe. «Vou atrás de um peixe grande. Ou o apanho eu, ou ele a mim». E aí também Fernando Lopes nos apanha e larga-nos das personagens e encerra-nos com uma narrativa que exigia mais amadurecimento. Algo que no fundo não nos soe a tão vazio.
Porém, a poesia de Fernando Lopes é encantadora. É um exercício próprio do autor que, tal como Santiago, também nunca se entrega totalmente ao espectador. Poesia estética, divagação pessoal, de quem questiona - tal como Santiago enquanto nada - a sua própria alma.
Nota para a curta-metragem que acompanha o filme e que marca a estreia na realização do actor Adriano Luz. O Dia Mais Feliz da Tua Vida, embora mais terra a terra, é também ele exemplo de uma visão poética e neste caso, de uma angustiante degradação humana. A direcção é precisa, detalhada, com ângulos interessantes e com uma excelente coordenação a nível sonoro (aquele constar pingar da torneira fica na cabeça). Mas a nível narrativo é também ela um pouco vazia e ficamos a amadurecer o que aconteceria além daqueles 20 minutos. Um pouco à semelhança de Em Câmara Lenta: ficamos à espera do que há para além daquele mar.
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