Por Joaquim da Silva.
«Do You Want The Truth or Something Beautiful?»
Século XXI. Evolução, tecnologia, comodidade. Computador, smartphone, robot de cozinha, redes sociais, plataformas digitais, interacções irreais. "Faz-me um like" : longe se vai o momento em que esta frase era uma simples paródia, para ser cada vez mais uma necessidade do ser humano. Escravos da reality TV, ligados nas hashtags e recebendo likes como se de vida se tratasse, enveredamos num mundo fabricado, ilusório, de realidade distorcida e do qual conhecemos muito pouco. O que será realmente que existe? Poderá um hacker salvar o mundo? E se sim, que mundo? O meu, o dele, o nosso?
Mr. Robot é uma ode à proeza heróica clássica, na sua forma mais primitiva, em contraste absolutamente directo com o ambiente da série.
Elliot (
Rami Malek) é um humano comum. Seja lá o que isso for. É uma pessoa que vive num bairro médio de Nova Iorque, tem um emprego medianamente remunerado numa empresa de segurança informática. E é aqui que se abre a porta para o desenrolar da história.
Elliot vive perseguido por si mesmo, enrolado numa densa névoa de ansiedade social, paranóia e alguma loucura utópica, ao mesmo tempo que parece o mais lúcido e iluminado de todos nós, pois vê aquilo que realmente precisa ser visto: somos escravos de nós mesmos, e precisamos de ser libertos. Na sua cruzada por destruir
E(vil) Corp,
Elliot depara-se com a sua própria destruição: a morte do pai, que era a sua figura mais próxima, o isolamento afectivo, a descrença emocional e a fuga infrutífera ao sentimento que nutre por
Angela (
Portia Doubleday).
Quando tudo parece perdido,
Elliot é recrutado por
Mr. Robot, um homem cujo sonho é exterminar a dívida mundial e lançar o mundo num caos descontrolado, de forma a reorganizar a sociedade e mudar inevitavelmente o paradigma da experiência social e humana de todos aqueles que se propõe afectar. Dentro da organização de
Mr. Robot, surge também
Darlene (
Carly Chaikin), uma figura igualmente perturbada, mas mais controlada que
Elliot ou
Mr. Robot.
À medida que a narrativa segue o seu curso, vai-se desvendando a névoa que tolhe o pensamento de Elliot. Sempre que uma nova personagem é introduzida vivemos um aprofundar da dimensão do problema: no início pensa-se que o destino do mundo é circunscrito ao poder da E Corp. Contudo, torna-se perfeitamente claro que isso é só a ponta do metafórico iceberg de relações de poder e de dominação a que está sujeita a sociedade mundial. Alusões e referências agressivas à desmedida e incontrolável influência do dinheiro, à proclamada força do sistema financeiro - tão ou mais frágil que o próprio Elliot - são um dos pilares da história. Assim se desenha uma antítese metafórica fortíssima entre a necessidade emergente da acção e a nossa própria inércia enquanto agentes de mudança de uma sociedade desconstruída e em implosão anunciada.
Mr. Robot brinca seriamente com paralelos entre a ficção e a realidade: o crescendo das doenças psiquiátricas, na forma das perturbações de Darlene e de Elliot, com graus de seriedade crescentes entre um e outro, assim como a corrupção mundialmente aceite no tratamento dos dados informáticos, biométricos, financeiros, privados, secretos, intrínsecos de cada um de nós. É a invasão total do nosso ser. É a devassa das nossas ideias do que é o mundo, de que aquilo que se vê não corresponde ao que existe de facto. Numa última reviravolta, Elliot descobre qual a relação entre si e Mr. Robot, e porque foi escolhido especificamente como a peça fulcral no ataque ao mundo. Aquele humano comum que será afinal o super-herói. Ou será super-vilão? Mr. Robot, em busca da verdade. Mas qual delas?
«I am happy to deceive you».
P.S.: Mr. Robot tem cenas fortes, tocantes, chocantes, que desconstroem tudo o que estamos confortáveis que seja. Cada episódio é uma obra de arte visual, auditiva, sensitiva. Textos inteligentes, abertos. Fotografia impecável. Só é pena ter de se esperar por mais.
USA Network
Temporada 1