Título original: Dogville (2003)
Realização: Lars von TrierArgumento: Lars von TrierElenco: Nicole Kidman,
Harriet Andersson,
Lauren Bacall,
Paul Bettany,
Patricia Clarkson,
Jeremy Davies,
Ben Gazzara,
Philip Baker Hall e
Siobhan FallonMuitas das filosofias de vida intemporais admitem que para atingir o estágio final de auto-realização é necessário um total sentido de despojamento.
Lars von Trier tenta fazer o mesmo com
Dogville: uma obra despojada de quaisquer artifícios que, ao abdicar dos cenários e adereços, privilegia o interior de cada uma das personagens, distinguindo o essencial do supérfluo.
Dogville constitui a primeira parte da trilogia EUA - Terra das Oportunidades e torna-se numa interessante e polémica parábola sobre o ser humano, a escolha individual vs a escolha colectiva, o individualismo vs o conformismo, uma crítica à sociedade de classes, numa simplificação à natureza des(humana) de todos nós. Não obstante gostos pessoais, não podemos negar a originalidade do cineasta dinamarquês. Minimalista, utiliza apenas algumas linhas para demarcar a divisão dos cenários, o que permite reparar no plano secundário face à acção principal (note-se a polémica sequência da violação em que as restantes personagens continuam os seus afazeres diários, impávidas).
Mais uma vez,
Lars von Trier mostra ser um (excelente) manipulador de emoções que nos leva a querer algo que, no seu fim, recusamos veementemente. Impõe o espectador perante o dilema, dá-lhe uma posição activa, fá-lo temer-se a si próprio e à sua natureza. Faz reconhecer a natureza maligna do ser e não lhe reconhece qualquer outra boa qualidade. Afinal, as personagens que pareciam ser bondosas e tolerantes apenas o faziam por interesses pessoais e por isso mesmo encontramos em cada uma delas, a personificação das fraquezas humanas: a vaidade (
Chloe Sevigny), o orgulho (
Ben Gazarra), a ira (
Patrícia Clarkson), a luxúria (
Jean-Marc Barr), a avareza (
Lauren Bacall) e a inveja (
Stellan Skarsgard). Sobretudo, ao dar a esta trilogia o nome
EUA – Terra das Oportunidades,
Lars von Trier pretende ironizar a condição e a política norte-americana, tal como se pode notar no fim com recurso a imagens tiradas nos Estados Unidos, na década de 30, ao som de
Young Americans, de D
avid Bowie.
É um filme claramente político e social que transforma a vila numa espécie de laboratório, numa clara crítica à sociedade americana e geral. Muito ao estilo da obra de
Franz Kafka,
Dogville aborda temas como a fuga, paranóia e influências exteriores, rematando também com uma crítica aos intelectuais e pensadores que são meros passivos perante a sociedade. São todos estes elementos do filme que revelam a visão de
Lars von Trier: a humanidade não tem salvação. Perante tudo isso, a protagonista torna-se descrente no ser humano e desencadeia o que poderíamos chamar de Juízo Final, numa clara alusão bíblica.
A nível do elenco, destaca-se sobretudo
Nicole Kidman, numa das suas melhores interpretações de sempre.Mas também todo o elenco secundário, repleto de nomes reconhecidos na indústria, encontra-se à altura da protagonista e do argumento.
Dogville é uma visão pessimista do Mundo e da Humanidade mas é, ao mesmo tempo, o Cinema mais genuíno, mais cru e real que poderíamos já ter visto.
Lars von Trier confirma a sua originalidade, a sua visão, o seu ponto de vista dogmático e de certa forma simplista, mas que não deixa de ter a sua razão. A maldade é aqui retratada como a única certeza do mundo. E o espectador bem que acredita.
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