Uma série que em Portugal passou praticamente despercebida (a primeira temporada foi exibida no canal FOX e a segunda e terceira - esta só agora no início do ano - no canal FOX Crime) e que mesmo nos Estados Unidos não tem ganho o protagonismo que merecia. Apesar de alguns dos grandes críticos a considerarem-no o "melhor programa actualmente em exibição" ou a "melhor série de espiões", constar em listas de melhores do ano (incluindo o American Film Institute) a série nunca conseguiu ser globalmente aclamada nos grandes circuitos de prémios televisivos norte-americanos (como os Golden Globes ou os Primetime Emmy), nem sequer uma audiência acima da média. Ainda assim é seguramente uma das melhores séries da actualidade, consistente, excitante, emocionante, dramática e acutilante, tudo no ponto certo. Porquê?
1. Genérico inicial.
Comecemos por algo tão básico como o genérico inicial. Pouco importante para muitos, mas que facilmente se torna icónico (quem não se lembra do genérico de séries como Six Feet Under ou Mad Men, por exemplo?) e que em The Americans não é de descartar. Isto porque estabelece de imediato o mote da série: a Guerra Fria, um conflito de ideais, um conflito de personalidades, uma era. Que começa por confrontar a propaganda soviética com a propaganda norte-americana da altura - e cujos métodos não eram assim tão diferentes entre si. Que mostra personagens soviéticas em poses familiares e recreativas - crescer na Rússia seria tão diferente de crescer na América. Que é curta e rápida, repleta de imagens e planos sobrepostos - uma grande técnica da Propaganda, repleta de mensagens subliminares e que origina uma overdose sensorial. Uma tipografia icónica, com palavras escritas em russo e que depressa surgem escritas em inglês. Um tema musical introdutório estranho e agressivo que não sai da cabeça.
2. Banda Sonora
Já falamos do tema musical dos genéricos inicial e final, mas toda a composição original de Nathan Barr é notável. Incorpora bem o espírito dos anos 80, com recurso ao piano, repercussão e baixo, mas introduz elementos da música russa, contribuindo para estabelecer a temática da série e enaltecer determinados elementos dramáticos ou emocionantes da história. Mas também a supervisão musical de Janice Ginsberg criou uma mixtape invulgar e consistente de hits musicais da década de 80, bem adequados à história (quem não se lembra da cena final do episódio piloto ao som de In the Air Tonight, de Phil Collins ou a season finale da primeira temporada ao som de Games without Frontiers, de Peter Gabriel?).
3. Os protagonistas são russos.
Este é um dos pontos mais surpreendentes da história e que mostra como a produção é destemida e corajosa. A série sobre espiões da Guerra Fria não é feita sob a perspectiva dos espiões norte-americanos, das investigações da CIA ou do FBI. É sim sobre os espiões soviéticos "adormecidos", ensinados a comportarem-se como norte-americanos, a viver o american dream com uma família e filhos nos subúrbios de Nova Iorque. Embora os actores protagonistas sejam norte-americanos (Keri Russell e Matthew Rhys em interpretações poderosas), falam frequentemente em russo. Outras personagens secundárias falam também muitas vezes em russo, sendo que a série recorre muito ao uso de legendas (algo que não é comum no mercado norte-americano). Existem ainda vários actores de origem russa ou nascidos na União Soviética, que falam fluentemente russo durante a narrativa: Annet Mahendru, Lev Gorn, Costa Ronin ou Vera Cherny, por exemplo.
Podia ser apenas uma simples série sobre espiões e já seria um grande trabalho. Ainda assim, não se limita aos clássicos de espionagem. É uma série repleta de momentos acção, drama e sexo, com algumas cenas bastante arrojadas, mas é também uma série sobre a família e a complexidade do casamento. Cada temporada evolui narrativamente e deixa o espectador no dilema de apoiar personagens que são simultaneamente heróis e vilões. Enquanto que a primeira temporada contextualiza a série no início dos anos 80, com um jogo do gato e do rato, onde Philip (Matthew Rhys) e Elizabeth (Keri Russell) tentam esconder as suas verdadeiras origens do seu vizinho, amigo e agente da CIA Stan (Noah Emmerich); a segunda temporada ultrapassa esse patamar. Começamos a seguir os dilemas morais de Philip e Elizabeth, à medida que os valores soviéticos entram em conflito com os novos valores que apreenderam ao longo dos anos enquanto cidadãos norte-americanos. Já na terceira temporada, a sua posição enquanto espiões é descoberta pela filha adolescente Paige, que começa a ganhar consciência social e política e adere à religião católica. Enquanto que do lado russo, o casal é incentivado a criar em Paige (Holly Taylor) uma nova geração de espiões, nascidos e criados em solo americano; do lado ocidental, o Pastor Tim (Kelly AuCoin) começa a incutir-lhe uma tendência de contra-inteligência.
Ironicamente chamada na série BoJack Horseman de Character Actress Margo Martindale, a actriz tem ao longo dos anos feito uma série de participações especiais em produções televisivas que se destacam muitas vezes das dos actores principais. Em The Americans, a actriz atinge esse patamar de excelência, num papel especial de Claudia, uma agente do KGB, responsável por monitorizar o casal Jennings. A sua personagem é perversamente manipuladora, agindo muitas vezes como mera observadora, mas também como orientadora das missões, intervindo em casos extremos, sempre com métodos duvidosos e entrando em conflito directo com Elizabeth. É sem dúvida, um dos pontos altos da série.
Em Portugal, o canal FOX Crime exibe ainda a terceira temporada de The Americans. A quarta temporada ainda não tem data de estreia prevista para o nosso país. As duas primeiras temporadas estão disponíveis no Netflix.
4. A evolução da complexa narrativa.
5. Margo Martindale
Em Portugal, o canal FOX Crime exibe ainda a terceira temporada de The Americans. A quarta temporada ainda não tem data de estreia prevista para o nosso país. As duas primeiras temporadas estão disponíveis no Netflix.





