sexta-feira, 6 de março de 2009

Watchmen - Os Guardiões, por Carlos Antunes


Título Original:
Watchmen (2009)
Realização: Zack Snyder
Argumento: David Hayter e Alex Tse


Nestas ocasiões é sempre difícil segurar o confronto que se dá entre o cinéfilo e o bedéfilo que existe em mim.
Não sou dos que clamou insistentemente por um filme baseado em Watchmen. Pelo contrário, gosto que a BD seja BD e que o Cinema seja Cinema e que se encontrem o mínimo de vezes possíveis com os melhores resultados possíveis.
Mas desde o boom das adaptações que tenho vindo a aprender a suster a minha angústia.
Fundamentalmente aquilo que reclamo - sobretudo desde que Sin City estreou - é que não se confunda a banda desenhada com um storyboard.
Por mais que a linguagem da BD se tenha aproximado da do Cinema, o Cinema não pode depois reduzir a sua linguagem à da mera cópia da da BD.


Isso seria aliás, praticamente impossível com Watchmen.
A intricada composição de Watchmen exigiria uma versatilidade, quer do argumento quer da realização, absolutamente ímpar de forma a reconstruir no novo formato o que Alan Moore e Dave Gibbons haviam feito.
Não é o caso.
Zack Snyder e os seus argumentistas resumiram Watchmen à sua linha narrativa essencial e mais evidente, mas no processo perderam muito do que tornava Watchmen uma obra ímpar, reduzindo-o no Cinema a mais um filme de "super-heróis", mesmo que aparentado com o dramatismo negro de The Dark Knight.
O que antes era a descontrução dos "super-heróis" é agora a sua glorificação.


Mas o público genérico, deconhecendo a obra original, poderá apreciar este filme pelo seu visual - mesmo quando a intricada história exige de si conhecimentos que não tem - e pelas suas cenas de acção.
Cenas essas carregadas da inutilidade do slow motion, dando a Zack Snyder a possibilidade de caucionar a sua insuficiência criativa como figura de estilo.
Insuficiência ainda mais evidente quando percebemos que a sua fidelidade à obra se traduz num vazio de ideias de cinema, mesmo que haja planos dignos de nota por o serem desde logo originalmente pelos lápis de David Lloyd.
Falta dinâmica, inventividade e arrojo ao cinema de Snyder, mesmo quando arranca algo de mais substancial às suas cenas.
Esta é afinal a pecha mais grave do filme, o seu medo de ofender os fãs, caindo assim no facilitismo de não ter uma postura cinematográfica arrojada ou, pelo menos, consistente.
Não é mau o resultado, entenda-se, apenas desapontante, mesmo que durante o filme haja um gosto pelo reconhecimento dos diálogos e situações da BD.
A transposição é, no fundo, o melhor que pode ser nas condições presentes - aguardarei a versão de 4 horas em DVD e os restantes "extras" que saírão entretanto - mas, lá está, apenas isso.
Fica um gosto desapontante pelo filme como obra independente.


Porque nesta versão ficam claramente pontos por explorar devidamente.
Silk Spectre II (Malin Akerman) e Nite Owl II (Patrick Wilson) são pouco mais do que veículos de violência gráfica, até porque no caso de Akerman, a sua interpretação é de uma enorme pobreza.
Dr. Manhattan (Billy Crudup) tem uma presença que seria impossível de abafar mas falta-lhe maior sofrimento interior para que não pareça tão implausível a sua súbita passagem do distanciamento à emoção pela Terra.
The Comedian (Jeffrey Dean Morgan) e Silk Spectre (Carla Gugino) são as personagens que mais gosto dá seguir, apesar da sua secundariedade, enquanto Matthew Goode acaba por conseguir impor a sua quase não-actuação como o tom certo para Ozymandias.
Sobra, claro, o inevitável Rorscharch. Apesar de o filme parecer ir abusar da sua voz off, acaba por conseguir arrancar graças a ele e à magnífica interpretação de Jackie Earle Haley.
Mais uma, acrescente-se, e que apenas dá mais vontade de encontrá-lo ao serviço de Martin Scorcese e Dennis Lehane em Shutter Island!


Fundamentalmente, para o bedéfilo em mim, o filme proporcionou um deleite (temporário) pelo reencontro com o mundo que me era tão familiar.
Mas para o cinéfilo em mim o filme redundou nos mesmos erros que venho encontrando.
Nem o filme é assim tão mau, nem assim tão bom como poderá ser discutido pelos dois lados da barricada, mas com tanto à disposição, é pena que não tenha chegado mais longe!




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