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quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

The Paperboy - Um Rapaz do Sul, por Tiago Ramos


Título original: The Paperboy (2012)
Realização: Lee Daniels
Argumento: Lee Daniels e Peter Dexter
Elenco: Matthew McConaughey, Nicole Kidman, John Cusack, Zac Efron, David Oyelowo, Scott Glenn, Ned Bellamy, Nealla Gordon e Macy Gray

Depois de Precious (2009), já por si difícil de definir, Lee Daniels regressa à realização com um objecto bastante próximo do cinema pulp fiction. The Paperboy - Uma Rapaz do Sul é um filme completamente trashy - como o ambiente que recria - sujo, suado, sexual, arrojado, ousado e de mau-gosto. Ou seja, completamente digno do legado que o realizador norte-americano parece querer criar. Se isso é bom? Pode ser, mas com reservas. Dentro do hiper-realismo habitualmente impresso pelo realizador, toda a história emerge naquela Flórida quente, visceral e pantanosa, aproximada do cinema trash dos anos 70 (um dos seus mais flagrantes exemplares?), com uma fotografia saturada e um guarda-roupa e maquilhagem vulgares. Porém, dentro do seu estilo degradante e de mau-gosto (não é necessariamente uma crítica, o filme é mesmo assim) há espaço para abordar temas transversais ao cinema de Lee Daniels: questões étnico-raciais, sexualidade, justiça e degradação - sem nunca porém se aproximar do cinema-denúncia ou propagandista (que já em Precious não existia directamente). É essa irreverência do realizador tão ambígua quanto de profundo mau-gosto (há necessidade de termos cenas de sexo intercaladas com imagens de porcos em lamaçais ou ratos estripados?) que faz de The Paperboy tão peculiar quanto interessante. E sobretudo tão diferente, mesmo dentro do seu sensacionalismo.

Mas nada disto seria de destaque individualmente falando, se não contássemos com um trabalho de actores tão rico quanto este. Mesmo Zac Efron (os seus tempos de High School Musical já ficaram, felizmente, para trás) tem um desempenho seguro e merecedor de destaque, num filme onde Matthew McConaughey se destaca mais uma vez como o comeback do ano, num estrondoso trabalho na recriação de personagens complexas e desviantes (recentemente evidencia-se ainda em Bernie, Killer Joe e Magic Mike). Mas a estrela de The Paperboy é Nicole Kidman, que parece nos últimos anos mais segura do seu trabalho e sobretudo menos insonsa, com uma entrega absolutamente surpreendente e sem excessivo desejo de agradar ao seu público. A sua Charlotte Bless é uma das mais fascinantes personagens que já interpretou: white trash, vulgar, Barbie sexual, mas simultaneamente tão extravagante quanto genuína. Destaque também para o desempenho de Macy Gray (Lee Daniels volta a entregar papéis de destaque a não-actores depois de Lenny Kravitz, Mariah Carey e em breve Oprah Winfrey, num regresso ao cinema), numa composição com evocações de The Help (2011), mas claramente diferente desse carácter mais romantizado do filme de Tate Taylor.

A história de The Paperboy, enquanto thriller é cativante, impregnado com algum espírito do movimento cinematográfico blaxploitation - brilhante cena num ar ao som de um trio feminino que canta "That man is dangerous" - com momentos de absoluta tensão e sempre uma atmosfera húmida, pantanosa e vulgar. Tão vulgar quanto o filme, o que o torna difícil de catalogar. E repetimos: nem sabemos bem se essa vulgaridade e mau-gosto são motivo para crítica ou não. Mas a vulgaridade existe e entre aquele rol de personagens degradantes e suadas, é por vezes difícil de enxergar - mas é sem dúvidas um dos filmes mais incómodos do ano: para o bem e para o mal.


Classificação:

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Precious, por Tiago Ramos



Título original: Precious: Based on the Novel Push by Sapphire (2009)
Realização: Lee Daniels
Argumento: Geoffrey Fletcher e Sapphire
Elenco:
Gabourey Sidibe, Mo'Nique, Paula Patton, Mariah Carey e Lenny Kravitz

Há filmes que têm esta virtude: não têm medo de socar o espectador, dar-lhe murros no estômago e deixá-lo ali, sem ajuda. Precious é um desses filmes, foca-se no hiper-realismo, na verdade, em mostrar o mundo tal como ele o é, não ter medo de falar do tabu. E por nessa forma ser um filme tão singular, genuinamente independente, permitiu-lhe viver um grande hype desde o início de 2009.


Na verdade Precious, apesar de todo o mérito (perfeitamente justificado) não é uma obra-prima, embora também não se esperasse tal de um realizador tão inexperiente quanto Lee Daniels. O filme é um melodrama poderoso, longe dos clichés do género que poderiam ter arrasado o filme, com um argumento forte que faz desfilar todas as disfunções sociais que o espectador poderia esperar e mais algumas que nunca esperaria. Obesidade mórbida, racismo, abuso sexual, violência verbal e física, incesto, gravidez adolescente, deficiência. Mas há mais, muito mais. Lee Daniels não se cansa de nos atirar à cara os problemas de um local pequeno como o Harlem, mas que sabemos que são extensíveis a toda a sociedade, independentemente da faixa social. Não há tréguas para o espectador que não consegue, com certeza, evitar a sensação de enjoo que sofre ao longo de todo o filme. Os murros no estômago tornam-se cada vez mais fortes, são secos, profundos.

Lee Daniels merece respeito por isso. Mesmo dentro deste desfilar de desgraças, não encontramos em Precious um objecto panfletário. O realismo existe, mesmo que a verdade seja real e crua. Contudo, a dada altura, temos cenas de puro mau gosto que, mesmo justificadas, tornam difícil a sua visualização. O mesmo acontece com o estilo pop de realização que, quebrando todas as estéticas e normativas do Cinema, permite-se explorar os devaneios de Precious que destoam do resto do filme. Mais que nos sentirmos próximos da personagem, sentimo-nos deslocados nas alturas em que o realismo evoca um estilo fantástico que não combina nada com o restante.



Não é um realizador perfeito, mas dirige de uma maneira notável um elenco de amadores, que acabam por se revelar actores fantásticos - com performances dignas de um Óscar. Daí destacamos Gabourey Sidibe - descoberta no Harlem - que consegue não se vitimizar dentro dos problemas (e não são poucos) vividos pela sua personagem. É genuína. É real. A sua nomeação para o Óscar de Melhor Actriz é perfeitamente justificável. Mas quem surpreende é Mo'Nique - a sua interpretação é perturbadora, revoltante e angustiante. A energia dispensada na personagem é tão grande que chega a incomodar o espectador: a agressividade, a linguagem, a expressão corporal deixa-nos sem palavras e com constantes nós na garganta. Dentro desta revolta imensa, não deixa de ser surpreendente que, perto do final do filme, consiga dar lugar a uma outra faceta da mesma personagem que consegue emocionar verdadeiramente o espectador. Será a verdadeira vencedora do Óscar para Melhor Actriz Secundária.



Num plano mais secundário, destaque para Paula Patton - num papel simples, mas motivador -, Mariah Carey - irreconhecível, mas talentosa como poucas vezes se viu, e até Lenny Kravitz - surpreendentemente diferente, mas que consegue transmitir simpatia.

Precious não é perfeito (a estética da realização é o que mais incomoda), mas é um objecto único e singular, num universo cinematográfico cada vez mais igual entre si. É um trabalho respeitável, mesmo que incomodativo, que dá espaço à reflexão. Mas primeiro e antes que enquanto espectadores possamos reflectir no que vimos, precisamos recuperar do choque e dos constantes murros no estômago.



Classificação: