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segunda-feira, 30 de maio de 2011

Meek's Cutoff, por Carlos Antunes


Título original: Meek's Cutoff
Realização: Kelly Reichardt
Argumento: Jonathan Raymond
Elenco: Michelle Williams, Bruce Greenwood, Paul Dano e Will Patton

Comecemos desta vez ao contrário, destacando as interpretações. E logo três num único filme que não deverá chegar aos lugares que as premeiam.
Michelle Williams, Bruce Greenwood e Will Patton destacam-se no que é uma forte interpretação de grupo. Não por serem os actores mais conhecidos mas por aplicarem o seu talento na elevação da qualidade que se uniformiza entre os restantes. A interpretação de Greenwood rivaliza mesmo com a de Jeff Bridges em True Grit, se alguém se lembrar de comparar.
Interpretações individuais a servirem o grupo a servir o olhar sobre a dureza do percurso que leva estes colonos ao Oeste prometido mas nunca aparecido.
O grupo de descobridores em busca do Oeste Americano tem tantas mulheres quantos homens, além de algumas crianças.
Kelly Reichardt foca-se mais nas mulheres, por se esperar que sejam os seres mais fracos. Mas olhando-se para como elas surgem, caminhando enquanto os homens conduzem as carroças ou montam os cavalos, percebemos que não é assim.
As mulheres têm mais determinação e mais certezas mas a pouco e pouco deixam de ser um grupo para se destacar entre elas a individualidade de Emily Tetherow (Williams) que é a única a enfrentar o guia que os perde e que é a única a ajudar o índio que capturaram.
Ela começa a tomar decisões mesmo sem as pronunciar, porque o seu carácter é o único a elevar-se quando o dos outros socumbe às dificuldades.
Mesmo essas decisões não são sinónimo de sucesso e o filme leva-nos pelas paisagens vazias até onde o olhar alcança no meio de caravanas sem o encanto das canções à luz da fogueira.
Um percurso de perigos verdadeiros, que eram a falta de água e de perspectivas, enquanto os ataques dos inídios são histórias contadas, possivelmente, para dar emprego aos homens de temperamento irritável e gatilho sempre pronto, como Stephen Meek.
O filme não termina com um destino para as suas personagens. Nem com a chegada ao local que procuram nem a chegada da morte.
Nada é resolvido porque aqui interessa a dureza do percurso e a incerteza da própria travessia. Isso é aquilo com que o filme nos deixa pois como diz Stephen Meek, os seus destinos já estão traçados, resta-lhes cumpri-los e continuar andando.
Como nós que entramos nesta experiência. Meek's Cutoff não é um filme para se olhar de longe.


quinta-feira, 10 de junho de 2010

Wendy & Lucy, por Carlos Antunes


Título original: Wendy and Lucy
Realização: Kelly Reichardt
Argumento: Jonathan Raymond
Elenco: Michelle Williams, Wally Dalton e John Robinson

Eis o retrato de uma América que parece esquecida pelo Cinema e pela consciência popular.
Uma América onde se entra pela porta dos fundos, de um sentimento genuinamente folk, da solidão de quem vive de partida com a casa às costas mas também da solidariedade genuína e desapegada.


Numa América assim é tão importante a companhia de uma cadela que se justifica travar todo o percurso delineado para a recuperar. Algo que, pelo contrário, um carro incapaz de avançar não justifica.
Uma América onde, mais do que isso, se justifica o sacrifício da nossa comodidade pelo bem de uma cadela que representa mais humanidade do que aquela que é possível encontrar.


Mas, no fim de contas, esta é a América à qual se exigem maiores sacrifícios, uma América fascinante mas que continuará a ser a da "porta dos fundos" e da solidão desenraizada.
Uma América que ainda guarda medos primordiais e momentos de esperança, uma América onde tudo se radicaliza mas onde não se escapa a uma perda final.


É isto que Michelle Williams encarna com uma notável representação de contenção externa da sua dúvida interior.
Ela que, apesar da nomeação ao Oscar, continua a ser uma das melhores das ignoradas actrizes.
Apoiada no olhar persistente e lançado à redescoberta de Kelly Reichardt, gera um olhar único neste momento no interior do cinema americano.