Mostrar mensagens com a etiqueta Shion Sono. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Shion Sono. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 30 de março de 2012

Guilty of Romance, por Tiago Ramos



Título original: Guilty of Romance (2011)
Realização: Shion Sono

O cinema de Shion Sono é tão pertubador, conturbado e sangrento quanto hipnotizante. Cineasta peculiar, o japonês assume a sua veia poética e reflecte-a sempre de uma forma ponderada nos seus filmes. Veja-se por exemplo a atenção aos detalhes com que filma em Guilty of Romance: a repetição constante de cenas, os belos planos, a relação visceral entre as personagens e o ambiente que os rodeia. Autor transgressivo, há tanto aqui de satírico como cruel, especialmente na forma como é abordada de uma forma quase obsessiva a forma como três diferentes melhores encaram e se relacionam com a sua própria sexualidade. O sexo e a morte sempre em sintonia como um bailado sangrento que só Shion Sono sabe criar. Em Guilty of Romance assume-se a forma de um thriller psicossexual poderosamente guiado pelas excelentes interpretações das actrizes protagonistas (Miki Mizuno, Makoto Togashi e Megumi Kagurazaka) que se entregam literalmente de corpo e alma a uma história negra como esta.

Uma história selvagem sobre desejo sexual, auto-descoberta e descontrolo que completa a Saga do Ódio do cineasta japonês, composta pelos igualmente bons Love Exposure (2008) e Cold Fish (2010). Funde-se entre a exuberância da fotografia de Sôhei Tanikawa (Love Exposure) e a poesia da banda sonora de Yasuhiro Morinaga, para dar um tom extremo a uma história que assume alguns contornos do cinema noir. Admitimos que no meio desta experiência, que também é visual, Shion Sono se perde um pouco na sua intenção. Mas culmina de uma modo tão pungente, confuso e perturbador numa história tão bem liderada que, de facto, há muito por onde perdoar.


Classificação:

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Kimyô na sâkasu, por Carlos Antunes


Título original: Kimyô na sâkasu
Realização: Shion Sono
Argumento: Shion Sono
Elenco: Masumi Miyazaki, Issei Ishida e Rie Kuwana

Este é um filme profundo que joga com duas temáticas que servem de traves mestras à exploração de uma teia fixações de Shion Soto.
São elas o grau de perda da realidade no seio da criação artística e a retribuição como hipótese de resolução do drama familiar.
Ambas acabam por criar um emaranhado onde histórias dentro de histórias e personagens dentro de personagens vão questionar a própria noção de identidade e a construção da memória.
E logo depois delas podemos olhar a miríade de vícios, fétiches e ilusões que são segredos para o ser humano mas são matéria-prima para o bom cinema.
Trata-se de um filme enigmático mas perfeitamente esclarecido. Não ludibria o espectador mas baralha todas as expectativas. Dá-nos aquilo que não imaginávamos que ele continha!
Não se rende à linearidade mas não anda perdido tentando perder o público. Vai sempre a caminho de um objectivo narrativo bem definido que prima pela surpresa.
Uma surpresa para a qual até deixou pistas mas com as quais foi sensato e não as desvendou antes do tempo.
Longe da tal linearidade, o filme não quer meramente chocar o público. Está a complexificar a estrutura para melhor retratar a dramaturgia da realidade extrema colocada sob uma lupa que logo a filtra com a sensibilidade de verdadeiro artista.
Visualmente criativo (e muito belo) quando tal serve o progresso das sugestões contidas no filme, é um filme de múltiplos momentos sem que nenhum se desprenda da forma una ou do propósito global.
Quando chega o desfecho de sangue não parece exagerado. O exagero gráfico não é gratuito, é a única resposta imediata possível ao rasto de perfídia humana deixado contra quem executa esse novo acto de violência física.
A sexualidade brutalizada ou a psicologia traumatizante purgam-se no diálogo... com a violência.
O verdadeiro terror do filme esteve todo no que nos levou até à cena final, uma aterradora maldade (por vezes inconsciente) trabalhada por Shion Soto com um humor negro que nos marca um sorriso durante a maior parte do filme.
Quando ganhamos consciência dele amedronta-nos ainda mais por reconhecermos em nós o mesmo deleite pela violência que têm as personagens à nossa frente.
Terror e fascínio mesclados numa obra que não se esgotará nunca e cujo efeito surpreendente não diminuirá com o tempo nem mesmo quem não a apreciou.
Tudo isto agora escrito é apenas arranhar a superfície da vida que o filme tem dentro de si, da imaginação florescente de um autor para quem criar um filme parece ser conter-se onde outros têm de forjar a inspiração.

 

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Jisatsu sâkuru, por Carlos Antunes


Título original: Jisatsu sâkuru
Realização: Shion Sono
Argumento: Shion Sono
Elenco: Ryo Ishibashi, Masatoshi Nagase e Mai Hosho

Por bastante tempo este filme tem uma forma de policial como outro qualquer até que se transforma em algo que será mais fácil apelidar de Lynchiano para facilitar a comparação (e não a classificação, já agora) do grau de sentidos que há por descobrir neste filme.
Para uma audiência ocidental não familiarizada com a cultura nipónica, da qual faço parte, será muito difícil captar a ressonância identitária - à falta de melhor palavra para condensar tanto a espiritualidade de um povo como o seu comportamento social - que transforma a estranheza na lógica específica à sociedade que o originou e para a qual foi criado.
É possível sublinhar o que são, certamente, os traços mais evidentes da exploração da pestilência emocional encoberta debaixo da camada visível de assepsia esfuziante da sociedade. Tema que é mais forte dentro do próprio Japão, mas que é universalmente compreensível.
O sentido crítico do realizador é sublinhado pela criação irreverente e extraordinária, não
Ele atira-se ferozmente à difusão acrítica de modas e de imaginários maléficos à juventude, mais forte quando os gritos adolescentes elevam o suicídio em vez de uma qualquer banda; ao apagamento da identidade milenar e sua substituição por modelos ocidentais incongruentes, mais chocante quando uma estrela de glam rock se intitula o Charles Manson da era informática; desenraizamento emocional e substituição do contacto humano por qualquer oca oferta visual (internética ou televisiva), mais eficaz quando a música Mail Me cantada por um bando colorido de crianças é elevada acima da voz do pai de fmília.
Essa crítica está envolta na tal história moldável à imaginação do realizador. Uma imaginação que não facilita o caminho ao espectador nem negligencia nenhum elemento - por mais extravagante ou desmesurado - que possa acrescentar à estrutura viva que é a história.
Uma história comandada pela J-Pop de um grupo musical de crianças de 12 anos que parecem ter uma capacidade de sedução a que nenhuma pessoa parece resistir, em parte devido a uma visão imberbe mas, mesmo assim, mais profunda da vida do que aquela que quem ouve a sua música deveria já ter. Nem aqui a crítica se apaga da visão do realizador que, como já tinha escrito, não é falha de lógica global apenas não se rende às regras habituais.
A elegância extravagante com que o realizador compõem muitos dos elementos japoneses que são comuns (e, nesta visão crítica, comuns na revelação que nos é dada da sociedade nipónica) adensa o mistério do significado dos eventos que se agregam numa narrativa permanentemente intrigante e, à conta disso, muito sedutora.
Como com Lynch, há um plano da narrativa que poderemos sentir entender em plenitude, mas muitos outros pairarão no nosso subconsciente à espera de respostas que poderão nunca chegar. E com isso estamos obrigados e satisfeitos por ter de voltar a ver este filme.