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quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Barbara, por Tiago Ramos


Título original: Barbara (2012)
Realização: Christian Petzold
Argumento: Christian Petzold e Harun Farocki
Elenco: Nina Hoss, Ronald Zehrfeld, Rainer Bock e Jasna Fritzi Bauer

Barbara é um filme sobre transformações. O alemão Christian Petzold filma indirectamente uma Alemanha dividida, em plena Guerra Fria, com todos os seus dilemas morais e políticos, sob o ponto de vista da sua protagonista feminina. E essa Alemanha gélida é filmada também numa perspectiva também ela rígida e clínica, como é habitual no trabalho do cineasta e como pudemos comprovar no final de 2012 nas nossas salas de cinema, com a estreia de Jerichow (2009). Mas onde este último primava pela rigidez de uma história repleta de personagens-arquétipo e por isso de um lado emocional quase inexistente, em Barbara parte-se de um caminho inicial semelhante, para afinal revelar uma complexa evolução de uma personagem. A Barbara que dá nome ao filme é vivida por Nina Hoss num retrato convincente de uma personagem que se deixa mudar pela sociedade onde é forçosamente inserida. Daí que não seja de estranhar que a postura inicial da actriz seja a mesma do cineasta: uma atitude gélida e fria, de quem vive num constante estado de alerta, sufocada no meio de um ambiente rural bem distante da azáfama de uma cidade como Berlim, onde todos a olham com a desconfiança típica da altura complicada em que se vivia. Essa distância inicial entre as personagens e por consequência também do espectador é a forma que Christian Petzold tem de provocar a sensação de alienação tão desejada, de quem procura não estabelecer laços emocionais, nem levantar suspeitas, enquanto planeia uma fuga para a Alemanha Ocidental.

É aí que o argumento contrabalança essa postura, introduzindo gradualmente uma aproximação da protagonista às personagens que a rodeiam. Fá-lo criando uma delicada metáfora entre a prisão em que vive - bem recriada pelas visitas tensas, bruscas e irregulares do agente da Stasi - ali naquela zona rural, afastada de tudo, mas com uma papel preponderante naquela sociedade, e a prisão em que vive uma sua paciente, uma jovem adolescente, sem quaisquer perspectivas de futuro, ao não ser que Barbara cuide dela. O cineasta alemão retrata tudo isso com um cuidado formal e clássico, com a subtileza do trabalho fotográfico de Hans Fromm, expondo o regime, mas sem nunca ser excessivamente didáctico ou panfletário. As problemáticas de época são retratadas nas entrelinhas da protagonista, na subtileza do meio que a rodeia e no olhar frio de Petzold. Mas dentro dessa frieza, é capaz de criar um olhar humano, através da evolução da personagem, da qual terminamos com uma opinião final completamente oposta à que nos havia sido inicialmente mostrada. No final, a esperança de uma contrasta com aspereza da moral de sacrifício  mas também com um lado humano, numa Alemanha fria e severa.


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segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Jerichow, por Tiago Ramos


Título original: Jerichow (2008)
Realização: Christian Petzold
Argumento: Christian Petzold
Elenco: Benno Fürmann, Nina Hoss e Hilmi Sözer

Curioso como um filme de há quatro anos atrás se aplica tão bem no contexto sócio-económico em que estamos inseridos. Sejam essas as razões ou não para que tenha agora obtido uma distribuição (limitada) no nosso país, a verdade é que uma oportunidade única de conhecer o cinema do alemão Christian Petzold, numa nova versão menos romantizada e menos íntima, mais mais pessoal, de O Carteiro Toca Sempre Duas Vezes de James M. Cain, já por várias vezes adaptada ao cinema. Um cinema realista, social, com o desemprego e a crise económica como pano de fundo, onde até a protagonista afirma não se poder amar sem dinheiro. A ideia do realizador parece ser aproximar a imagem da dependência económica à luz não só da comunidade em geral, mas também das pessoas individualmente e como isso afecta também os seus sentimentos. É essa afectação que provoca a alienação das personagens entre si e entre o espectador: não há aqui sedução neste triângulo amoroso, não há intensidade, não há emoção. Há antes a busca desesperada pelo dinheiro, como factor de liberdade.

É em torno das personagens e da sua construção narrativa que o cineasta constrói uma atmosfera fria e ríspida que trespassa todo o filme. É uma estética rígida a que Christian Petzold nos traz, num local quase inóspito da Alemanha contemporânea, com figuras mais alegóricas que humanas, numa estrutura propositadamente linear. Não que com isto dizer que as personagens sejam básicas, já que da construção linear das mesmas criam-se arquétipos complexos cheias de subtilezas políticas, geográficas e emocionais, num olhar sobre o capitalismo pós-reunificação. A dualidade do dinheiro tanto como opressor como libertador é o que mais custa neste olhar desinspirado do amor e nesta conclusão de um futuro incerto, tão assombroso como desesperante.


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