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quinta-feira, 25 de junho de 2009

Linha de Passe, por Tiago Ramos



Título original: Linha de Passe (2008)
Realização: Walter Salles e Daniela Thomas
Argumento: George Moura e Daniela Thomas
Elenco: Sandra Corveloni, João Baldasserini, Vinícius de Oliveira e José Geraldo Rodrigues

Walter Salles cai no erro de recriar o mesmo modelo que ressuscitou o Cinema brasileiro. E se em dada altura o realismo puro e cru da pobreza vivida no Brasil era tido como inovador e despertou um interesse reforçado do outro lado do Atlântico, necessitam-se agora (e urgentemente) novos argumentos. O problema não é a qualidade, mas sim o "mais do mesmo" que acaba por se tornar fatigante.

Em Linha de Passe explora-se a pobreza e o futebol, o Brasil tal como ele é. Os dilemas morais, a sobrevivência, o crime são bem retratados no filme, mas é sobretudo na emoção com que transmite os momentos de futebol que se torna mais genuíno. Depois reduz-se ao modelo mosaico com que retrata a vida de uma mãe solteira e dos seus quatro filhos (um quinto a caminho) cada um deles com um pai diferente. E a ausência da figura paterna faz-se notar na vida das personagens, que lutam diariamente para enfrentar as dificuldades que uma aparente cidade cosmopolita lhes traz.



A verdade é que se a tagline do filme (que se evidencia no poster) nos afirma que "A vida é o que você faz dela", não é isso que Walter Salles nos mostra. No final de contas é o retrato de uma família condicionada pelo suposto destino de não conseguirem obter sucesso na vida. Mesmo que no início a personagem Dinho, interpretada por José Geraldo Rodrigues, tente fugir a esse destino procurando outro estilo de vida, no final de contas parece resignado àquilo que o destino lhe reservou. Sandra Corveloni é, de facto, quem faz o filme avançar. Ganhou a Palma de Ouro em Cannes pelo seu desempenho realista, pelo elo de ligação que tem para com as outras personagens, mas não é ela que torna o filme melhor.

O que tem de melhor em Linha de Passe é simplesmente esse realismo genuíno, que roça o espírito documental, mas que se esgota rapidamente. E por fim os múltiplos cliffhangers das personagens não o melhoram também, cedendo ao espírito exclusivo da estética e nada mais. Um olhar curioso, mas que nada adianta.

Classificação:

domingo, 3 de maio de 2009

Linha de Passe, por Carlos Antunes


Título original: Linha de Passe
Realização: Walter Salles e Daniela Thomas
Argumento: George Moura e Daniela Thomas
Elenco: Sandra Corveloni, João Baldasserini, Vinícius de Oliveira e José Geraldo Rodrigues

O cinema brasileiro que ganha alguma notoriedade e chega ao nosso mercado está, há muito, preso por convenções que parecem reduzir a margem de manobra deste cinema.
A primeira e mais duradoura é a da narrativa telenovelesca que o próprio Walter Salles tratou de legitimar com o seu Central do Brasil, perpetuando-se até ao presente.
A segunda deu-se com a reinvenção visual e com a reinterpretação enérgica dessa mesma narrativa telenovelesca com Cidade de Deus, que cruzando histórias e filmando-as com acrescida agilidade acabou por tentar disfarçar a fragilidade da sua falta de ideias.


Agora com Linha de Passe, o modelo mostra-se esgotado.
Walter Salles volta a tomar nas suas mãos destinos predeterminados - contrariamente ao que a frase promocional do filme quer fazer crer - das suas personagens.
Neste caso, uma mão cheia delas, uma mãe e os seus quatro filhos, todos eles vivendo vidas incompletas mas ainda esperançosos, cujo dramatismo se reduz a um simplismo previsível.


Todas estas vidas correm paralelas e intersectam-se num espaço comum, do perturbado núcleo familiar, afectando-se mutuamente apenas o suficiente para justificar que se tratam de vidas com esse tal espaço comum, mas que na prática poderiam existir ao largo umas das outras que o efeito seria o mesmo.
Só que esse distanciamento não se fica a dever a uma alienação social do sentido de família - causado, por exemplo, pela falta da figura paterna ou dos ressentimentos entre os irmãos - mas antes pela simples necessidade de mostrar a multiplicidade de condições do indivíduo brasileiro.
Como se esta família fosse o resumo breve e explícito do que é o Brasil.


Walter Salles e Daniela Thomas filmam tudo isto com a inspiração que Cidade de Deus imputou ao cinema brasileiro mas guardando a mesma melancolia que já se sentia nas outras obras brasileiras de Salles.
Isso resulta num ritmo intermitente, sempre prestes a arrancar mas sempre em queda.
Pior, resulta num final que, em aberto, sugere a possibilidade de mudança, de concretização do destino feito à força da própria determinação. Sugere sem dizer realmente nada.
Confunde-se a narrativa aberta com a simples não revelação do resultado eminente (e evidente, lá está) daquelas pequenas narrativas, que seguiram sempre em frente, deterministicamente.


O modelo esgota-se em si mesmo, aqui deixando-se seguir sem promover verdadeiramente nada, excepto ocorrências permanentes de vidas condicionadas.
Ora excitantes, ora melancólicas, são vidas sem espaços de dúvida.
Uma novela em formato de filme, mais uma vez.