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domingo, 23 de dezembro de 2012

Pela Estrada Fora, por Tiago Ramos


Título original: On the Road (2012)
Realização: Walter Salles
Argumento: Jose Rivera
Elenco: Garrett Hedlund, Sam Riley, Kristen Stewart, Amy Adams, Viggo Mortensen, Steve Buscemi, Terrence Howard, Elisabeth Moss, Tom Sturridge e Alice Braga

Especialmente depois de um road movie tão interessante como Diarios de motocicleta (2004), a reunião do brasileiro Walter Salles e do porto-riquenho Jose Rivera para a adaptação cinematográfica do clássico de Jack Kerouac, aparentava ter tudo para dar certo. Mas a prova não comprovou a teoria por completo e não só por ineficiência do trabalho do realizador e argumentista. A bem da verdade, a própria obra original seria por si só difícil de executar: apesar do extremo valor para  a literatura e da sua visão geracional interessante, a ambiguidade existencial e o carácter filosófico de grande parte da escrita alertam de imediato para uma falta de potencial visual. Mas é precisamente no carácter visual que Pela Estrada Fora tenta ganhar pontos (conseguindo-o até): destaque para a tendência poética e lírica da câmara, com uma fotografia saturada de Eric Gautier (Into the Wild) e uma banda sonora atmosférica de Gustavo Santaolalla (Babel). São esses elementos evocativos da estrutura de road movie, junto com a capacidade de, em dadas alturas, captar a essência do movimento Beat e das influências por si desenvolvidas que salvam grande parte do filme.

Porém, o problema figura na própria adaptação (dificilmente transponível, admitimos) que, ao recuperar o carácter episódico e tentar permanecer fiel à obra (não a ofendendo), perde a consistência narrativa em filme, deambulando entre cenas, sem transmitir a ligação emocional às personagens e à própria história. O próprio trabalho de montagem não beneficia em nada, não permitindo ao espectador conectar-se à narrativa, falhando na emoção que deveria transmitir. E mesmo quando tenta revelar-se espontâneo, o filme acaba por evidenciar um carácter demasiado estudado e académico que se torna falho na sua intenção. Vale-lhe especialmente o talento dos seus actores: com destaque para Sam Riley e Garrett Hedlund, bem como até Kristen Stewart a demonstrar-se capaz de uma prestação competente e madura.

Pela Estrada Fora teria potencial para ser cinematograficamente mais cativante se tivesse sido libertado dos grilhões do trabalho original de Kerouac. O argumento nunca consegue ir além da fidelidade ao livro, podendo ser corajoso e espontâneo onde opta por ser meramente respeitoso. Falha em captar a essência das personagens e as ambições filosóficas e existências da história, apesar de ser visualmente capaz de criar um discurso poético e etéreo, bem vindo neste trabalho. Mas dentro dessa competência falta-lhe a rebeldia tão característica da geração que o influenciou. Era essa que fazia falta.


Classificação:

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Linha de Passe, por Tiago Ramos



Título original: Linha de Passe (2008)
Realização: Walter Salles e Daniela Thomas
Argumento: George Moura e Daniela Thomas
Elenco: Sandra Corveloni, João Baldasserini, Vinícius de Oliveira e José Geraldo Rodrigues

Walter Salles cai no erro de recriar o mesmo modelo que ressuscitou o Cinema brasileiro. E se em dada altura o realismo puro e cru da pobreza vivida no Brasil era tido como inovador e despertou um interesse reforçado do outro lado do Atlântico, necessitam-se agora (e urgentemente) novos argumentos. O problema não é a qualidade, mas sim o "mais do mesmo" que acaba por se tornar fatigante.

Em Linha de Passe explora-se a pobreza e o futebol, o Brasil tal como ele é. Os dilemas morais, a sobrevivência, o crime são bem retratados no filme, mas é sobretudo na emoção com que transmite os momentos de futebol que se torna mais genuíno. Depois reduz-se ao modelo mosaico com que retrata a vida de uma mãe solteira e dos seus quatro filhos (um quinto a caminho) cada um deles com um pai diferente. E a ausência da figura paterna faz-se notar na vida das personagens, que lutam diariamente para enfrentar as dificuldades que uma aparente cidade cosmopolita lhes traz.



A verdade é que se a tagline do filme (que se evidencia no poster) nos afirma que "A vida é o que você faz dela", não é isso que Walter Salles nos mostra. No final de contas é o retrato de uma família condicionada pelo suposto destino de não conseguirem obter sucesso na vida. Mesmo que no início a personagem Dinho, interpretada por José Geraldo Rodrigues, tente fugir a esse destino procurando outro estilo de vida, no final de contas parece resignado àquilo que o destino lhe reservou. Sandra Corveloni é, de facto, quem faz o filme avançar. Ganhou a Palma de Ouro em Cannes pelo seu desempenho realista, pelo elo de ligação que tem para com as outras personagens, mas não é ela que torna o filme melhor.

O que tem de melhor em Linha de Passe é simplesmente esse realismo genuíno, que roça o espírito documental, mas que se esgota rapidamente. E por fim os múltiplos cliffhangers das personagens não o melhoram também, cedendo ao espírito exclusivo da estética e nada mais. Um olhar curioso, mas que nada adianta.

Classificação:

terça-feira, 16 de junho de 2009

Cada um o seu cinema, por Carlos Antunes


Título original: Chacun son cinéma ou Ce petit coup au coeur quand la lumière s'éteint et que le film commence
Realização: Theodoros Angelopoulos, Olivier Assayas, Bille August, Jane Campion, Youssef Chahine, Kaige Chen, Michael Cimino, Ethan Coen, Joel Coen, David Cronenberg, Jean-Pierre Dardenne, Luc Dardenne, Manoel de Oliveira, Raymond Depardon, David Lynch, Gus Van Sant, Lars von Trier, Walter Salles, Roman Polanski, Nanni Moretti, Wim Wenders e Yimou Zhang
Argumento: vários

Cada um o seu cinema é, exactamente, uma relação com a sala de cinema, como pretende.
A sua conjugação de episódios estabelece uma variância de qualidade e atenção que proporciona uma alternância de sentimentos - se não mesmo de comportamentos - durante o seu visionamento.


Há momentos em que nos apetece levantar e sair para fumar um cigarro.
Outros em que ganhamos uma dolorosa consciência da sala que nos rodeia e de tudo o que lá acontece.
Outros ainda em que não percebemos que já entrámos na magia desta arte da hipnose senão quando nos volta a libertar.


Os episódios vão do documentário (ou, se preferirem, da observação particular) à piada, da reflexão à imersão na imaginação, da biografia à confissão.
Cada um poderá - e certamente assim o fará - encontrar os que mais lhe tocam, embora seja inegável que haverá sempre evidências dos que entre eles sobressaiem, para o bem e para o mal.


Polanski a filmar uma velha piada é desapontante, mais pelo que deixou por fazer do que pelo falhanço do riso.
Jane Campion a tentar ser inventiva e poética sem conseguir mais do que irritar o espectador com o seu insecto é um falhanço monumental.
Amos Gitai e o seu oco experimentalismo de simbólicas ressonâncias temporais destoa do resto do que se vê.


Mas a forma como os irmãos Dardenne e Gus Van Sant traduzem em imagens a pura magia do feitiço do cinema, a forma como Cronenberg ironiza com as modernas considerações sobre o cinema contra outros meios visuais ou a simples demanda pelo olhar feminino que é a de Abbas Kiarostami compensam tudo isso.
E entre o muito bom e o muito mau há ainda tanto a descobrir.
Para quem gosta de cinema e para quem gosta de salas de cinema, este é um filme a ver.





domingo, 3 de maio de 2009

Linha de Passe, por Carlos Antunes


Título original: Linha de Passe
Realização: Walter Salles e Daniela Thomas
Argumento: George Moura e Daniela Thomas
Elenco: Sandra Corveloni, João Baldasserini, Vinícius de Oliveira e José Geraldo Rodrigues

O cinema brasileiro que ganha alguma notoriedade e chega ao nosso mercado está, há muito, preso por convenções que parecem reduzir a margem de manobra deste cinema.
A primeira e mais duradoura é a da narrativa telenovelesca que o próprio Walter Salles tratou de legitimar com o seu Central do Brasil, perpetuando-se até ao presente.
A segunda deu-se com a reinvenção visual e com a reinterpretação enérgica dessa mesma narrativa telenovelesca com Cidade de Deus, que cruzando histórias e filmando-as com acrescida agilidade acabou por tentar disfarçar a fragilidade da sua falta de ideias.


Agora com Linha de Passe, o modelo mostra-se esgotado.
Walter Salles volta a tomar nas suas mãos destinos predeterminados - contrariamente ao que a frase promocional do filme quer fazer crer - das suas personagens.
Neste caso, uma mão cheia delas, uma mãe e os seus quatro filhos, todos eles vivendo vidas incompletas mas ainda esperançosos, cujo dramatismo se reduz a um simplismo previsível.


Todas estas vidas correm paralelas e intersectam-se num espaço comum, do perturbado núcleo familiar, afectando-se mutuamente apenas o suficiente para justificar que se tratam de vidas com esse tal espaço comum, mas que na prática poderiam existir ao largo umas das outras que o efeito seria o mesmo.
Só que esse distanciamento não se fica a dever a uma alienação social do sentido de família - causado, por exemplo, pela falta da figura paterna ou dos ressentimentos entre os irmãos - mas antes pela simples necessidade de mostrar a multiplicidade de condições do indivíduo brasileiro.
Como se esta família fosse o resumo breve e explícito do que é o Brasil.


Walter Salles e Daniela Thomas filmam tudo isto com a inspiração que Cidade de Deus imputou ao cinema brasileiro mas guardando a mesma melancolia que já se sentia nas outras obras brasileiras de Salles.
Isso resulta num ritmo intermitente, sempre prestes a arrancar mas sempre em queda.
Pior, resulta num final que, em aberto, sugere a possibilidade de mudança, de concretização do destino feito à força da própria determinação. Sugere sem dizer realmente nada.
Confunde-se a narrativa aberta com a simples não revelação do resultado eminente (e evidente, lá está) daquelas pequenas narrativas, que seguiram sempre em frente, deterministicamente.


O modelo esgota-se em si mesmo, aqui deixando-se seguir sem promover verdadeiramente nada, excepto ocorrências permanentes de vidas condicionadas.
Ora excitantes, ora melancólicas, são vidas sem espaços de dúvida.
Uma novela em formato de filme, mais uma vez.