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sexta-feira, 27 de novembro de 2015

The Hunger Games: A Revolta - Parte 2, por Tiago Ramos


Título original: The Hunger Games: Mockingjay - Part 2 (2015)
Realização: Francis Lawrence

Não é difícil dizer que Katniss Everdeen tornou-se uma das melhores e mais influentes heroínas da ficção moderna desta última década. Não só pela interpretação da actriz, mas sobretudo pelo que a personagem simboliza, não só para a Mulher no particular, mas também para a Humanidade no geral. A figura heróica que vem do povo, que evolui na adversidade extrema e que apesar de todos os seus defeitos e impulsividade, consegue ser líder de uma revolução que acaba por desconstruir a sociedade de Panem como a fomos conhecendo. Isso é permitido também por toda a simbologia e mitologia que os romances de Suzanne Collins trouxeram. Vejamos toda a mitologia: um voyeurismo institucional, no formato de uma ditadura autoritária e totalitária, onde apenas uma elite beneficia do esforço e sacrifício físico, mental e emocional de uma larga população. Um colapso total das instituições e valores morais, um jogo sádico e brutal exibido a toda a sociedade e a opressão física e moral do povo. Uma metáfora perfeita e actual ao sistema político facilmente identificável pela audiência que, juntamente com a protagonista, vai evoluindo com a narrativa que aponta para várias referências, desde a reality TV, às guerras, passando pelos gladiadores da Antiga Roma, até aos mitos de Teseu e o Minotauro.  Ora ao longo da saga, que chega agora ao fim, o espectador vai crescendo com Katniss. Desde o momento que era uma pobre e impetuosa adolescente que prefere sacrificar a sua vida em favor da irmã e que, inadvertidamente, e devido aos seus dotes (sobretudo morais), torna-se o símbolo e o rastilho para uma revolução anunciada. O povo precisa de um símbolo. E apesar da figura inconstante que é, Katniss tem uma energia e um rasgo, que acabou por evoluir de algo impensado para uma consciência e determinação política e que foge às habituais dicotomias entre o feminino e o masculino.

Depois dos primeiros filmes terem mostrado o sadismo dos Jogos da Fome e a inesperada ascensão de uma heroína, a primeira parte da conclusão da saga revela um olhar maduro e consciente para a problemática inicial. Se a grande arma de uma sociedade totalitária é a propaganda, não será errado também dizer que a revolução também vive do mesmo. A sociedade exige-o. A notoriedade de uma campanha política planeada ao mínimo detalhe, assim como a construção de uma narrativa, é o leitmotiv dos dois lados de uma guerra. Essa opção que a história introduz permite denunciar a ambiguidade moral entre o Poder instaurado e a Revolução que se planeia insurgir. Isto porque se os meios não são assim tão distintos, é verdade que as intenções também poderão não o ser. E se era no poder da propaganda política que A Revolta - Parte 1 se inspirava, a Parte 2 acaba por explorar o perigo da confiança cega quando um Messias se prontifica a salvar um povo da escravidão.

The Hunger Games: A Revolta - Parte 2 beneficia do facto de ser o culminar de uma saga e de uma história tão poderosa como esta. É o clímax de todo um crescendo e uma antecipação que se criou desde o primeiro filme, e daí notar-se o evoluir das sequências de acção (note-se a cena na praça com uma das armadilhas do Capitólio ou uma especial cena quase final aos portões do palácio) como conclusão da epopeia. Katniss assume um protagonismo notável: representa uma sociedade de espectáculo, filmando também vídeos de propaganda e tentando forçar a rendição do Capitólio e Snow. É um jogo cínico e político, que ganha tempo para respirar, mas que também se assume redundante, especialmente se considerarmos a divisão do último romance em dois filmes, com um mero motivo capitalista. Até porque Francis Lawrence, não desfazendo o que conseguiu fazer com os três últimos filmes da saga (em grande parte, devido à força do material e dos actores), nunca conseguiu imprimir o seu cunho pessoal, como Gary Ross conseguiu no primeiro capítulo. Percebe-se a sua competência, mas sente-se a sua posição de tarefeiro sob o domínio de um grande estúdio que tenta não polarizar a audiência, com uma cinematografia arrojada ou com uma posição mais, ou menos, divergente.

O filme versa sobre o poder da união, o sistema político e a sociedade contemporânea criada à base de propaganda (reality television, redes sociais), mas também imprime um cunho agridoce sobre a ilusão da salvação ou da insistência do ser humano em persistir nos mesmos actos, apesar das lições, supostamente, previamente aprendidas. É ainda assim um grito de revolta e liberação, uma representação de uma sociedade, a nossa talvez, que parece também ela condenada e que carece de um símbolo de força e luta.


sábado, 6 de junho de 2009

DVD: Eu Sou a Lenda, por Tiago Ramos



Título original: I Am Legend (2007)
Realização: Francis Lawrence
Argumento: Mark Protosevich e Akiva Goldsman
Elenco: Will Smith e Alice Braga

É um blockbuster. Mas um blockbuster invulgar. E sente-se o risco tomado por Francis Lawrence quando sustenta todo o argumento num único actor: Will Smith. E se de início nos poderíamos sentir agarrados ao ecrã, à medida que se vai desenvolvendo o misto de heroísmo com insanidade quebra-se a intereressante complexidade da história original num inverosímel projecto que tenta a todo o custo assemelhar-se a um Série B, recheado de efeitos especiais.



A realização de Mark Lawrence inspira dúvidas. Em algumas cenas enquadra competentemente a suposta vida rotineira do protagonista, com uma boa banda sonora e com planos rígidos, mas não de todo desinteressantes. Mas especialmente nas cenas de acção de confronto, perde-se a qualidade na montagem e choca-se com uma fraca animação dos infectados com o vírus. E é este artificialismo que vai acabando por minar a qualidade de Eu Sou a Lenda.



Ao longo de todo o filme, tenta-se seguir uma espécie de catárse do herói, enquanto luta por manter a sua sanidade mental, à medida que enfrenta a solidão numa enorme cidade e a morte da família. Mas assiste-se à impotência de Mark Lawrence em conseguir fazer os espectadores esse sentimento de solidão angustiante, ao que o desempenho de Will Smith também não ajuda. O final por seu lado resulta num tentativa de fazer o protagonista um herói, como num último acto de redenção, que cria uma conclusão por demais prevísivel.

A presença de Alice Braga no elenco do filme revela-se interessante, com um desempenho credível, mesmo que o seu surgimento na cronologia do filme revela-se antecipado e acelerado. Lamentavelmente a nova temática introduzida pela personagem de Alice Braga, cria uma tremenda manipulação ao argumento, numa tentativa desesperada de criar controvérsia por parte do realizador, mas que conduz o filme à previsibilidade.



Contudo, I Am Legend vale pela temática e efeitos especiais, complementada com alguma versatilidade de Will Smith.

Classificação:

Extras:





Bandas-Desenhadas Animadas:
  • Morte Como Oferta
  • Isolamento
  • O Sacrifício de Poucos por Muitos
  • Abrigo



Classificação dos Extras: