Título original: My Own Private Idaho (1991)
Realização: Gus Van SantArgumento: Gus Van Sant e
William ShakespeareElenco: River Phoenix,
Keanu Reeves,
James Russo,
William Richert e
Rodney Harvey"
Wherever. Whatever. Have a nice day" é o mote de
Gus Van Sant na sua terceira longa-metragem. Essa mesma epígrafe do filme é também a das personagens de Mike e Scott, que deambulam por entre paragens incertas, com encontros inesperados, pairando sempre na inconstância do dia-a-dia, com um rumo de certa forma indefinido.
Abordando a sua temática comum da figura do marginalizado e inadaptado, em
A Caminho de Idaho acompanhamos a jornada de dois jovens assente no tema da prostituição masculina. Longe de ter uma visão marcadamente dramática,
Gus Van Sant entrega-nos um argumento levemente irónico até, subjacente no facto de a personagem principal sofrer de narcolepsia, simples acessos de sono profundo, independentemente do sítio onde se esteja ou tarefa que se desempenhe.
O argumento deixa-se conduzir mais uma vez pelas personagens. São elas que fazem o filme, que o criam e ajudam a desenrolar-se. É Mike, pelas mãos de
River Phoenix, que marca toda a película com a sua memória familiar e a busca do seu eu interior, a sua amizade/amor com Scott (
Keanu Reeves), numa melancolia constante que embala todo o filme.
Essa história de amizade/amor entre os dois protagonistas do filme é catalisadora do sentimento da opção e das escolhas que resultam numa contínua vida sem regras ou no regresso à formalidade e ao socialmente aceitável. É isso que marca das melhores cenas do filme e de toda a filmografia de
Gus Van Sant.
River Phoenix tem um desempenho fantástico em todo o filme, numa coesão singular com a personagem, que nos faz ter saudades da sua pequena, mas excelente carreira no mundo do cinema.
Keanu Reeves, no seu melhor, a fazer-nos olhar para a sua filmografia recente, sendo impossível não fazer comparações.
A nível técnico,
Gus Van Sant potencia todo o filme com recursos a belíssimos e longos planos, contemplativos do céu e do campo, evocando as pinturas de
Van Gogh, numa apreensão única daquilo que é a paisagem, tornando
A Caminho de Idaho uma espécie de
road movie. Depois, as imagens tremidas e os planos fugidios remetem para o plano das memórias, numa inevitável comparação com as nuvens em movimento: uma constante em todo o filme. Também as cenas estáticas do filme, semelhante a fotos garantem dos melhores momentos de todo o filme e um recurso estílistico incrível.
A Caminho de Idaho conclui-se da mesma forma que se inicia: com dualidades, decisões e opções. Um eterno contraste entre a escolha de ser para sempre marginal à sociedade ou rumar à normalidade. Um belíssimo filme, poético com toda a certeza.
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