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terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

The Master - O Mentor, por Tiago Ramos


Título original: The Master (2012)
Realização: 
Elenco:  e Laura Dern

Quando o filme começa com aquele plano sobre a água agitada e partimos depois para conhecer uma personagem tão bizarra quanto o Freddie, facilmente nos apercebemos que The Master - O Mentor parte dos mesmos princípios de agitação. Aquela música, desconcertante e perturbadora, um som constante, um batuque cortado com o som do violoncelo, uma espécie de desafinação sonora que incomoda tanto quanto as imagens que se nos apresentam. E o espectador começa a perceber que o caminho de Paul Thomas Anderson é também ele uma agitação, uma espécie de percurso sem rumo, numa América pós-Guerra, numa desorientação social e pessoal. E a nós resta reagir de uma de duas formas: ou negarmos essa perturbação ou aproveitarmos essa desorientação incómoda para nos deixarmos levar por uma narrativa que não sabe onde nos leva, especialmente porque também não é isso que almeja. Aqui temos um trabalho obsessivo e desorientado que deambula por um caminho perturbador para o espectador que esperava uma estrutura de narrativa clássica (e que aqui é completamente oposta ao seu anterior e maravilhoso trabalho, There Will Be Blood). E isso pode ser tão incómodo quanto refrescante, num filme que é tão pouco são quanto o protagonista e quanto a história que revela. The Master não é tanto sobre um culto religioso (a que não faltam comparações com a Cientologia), como é sobre personagens desorientadas, em busca de uma definição e sobre o controlo e dependência do Homem sobre outros.

Paul Thomas Anderson continua obsessivo no nível de detalhe, na forma irrepreensível com que a sua câmara aproveita o contexto de uma época (tecnicamente perfeito, desde a montagem, à fotografia de Mihai Malaimare Jr., passando pelo design de produção, até à banda sonora de Jonny Greenwood), mas dando espaço e foco aos seus actores e personagens. The Master é sobre elas, o seu percurso ou falta dele, a busca pela orientação. O filme é aquele conjunto de actores que brilha mais que qualquer outro este ano. Sobre aquela dinâmica dependente e tempestuosa entre as personagens de Joaquin Phoenix e Philip Seymour Hoffman (provavelmente os seus melhores trabalhos) que se ofuscam continuamente, mas que também trabalham harmoniosamente em conjunto (maravilhosa cena aquela do questionário), num misto de tensão, solidão, criatividade e loucura. É através deles que a câmara do cineasta norte-americano deambula por um dos seus mais divergentes e incertos trabalhos, incrivelmente contraditório e perturbador, incómodo e marcante. Amy Adams incrível na sua subtileza controlada, com uma Laura Dern a marcar ainda a narrativa com uns meros dez minutos de presença, mas a definir tão bem o rumo que a história toma e a merecer certamente mais crédito por aí.

The Master é por isso também o caminho de um dos grandes cineastas vivos, sem medo de dar ao cinema mais do que entretenimento. Sem dar espaço a concessões e por isso também que menos se importa em desorientar o espectador. É afinal isso que quer, porque também ele vive assim, uma angústia e solidão, com temas familiares tão marcantes, uma divergência de pensamento. E é por isso que, a acompanhar a narrativa, temos aquela música perturbadora e constante. Irritante, às vezes. Que nos deixa indispostos. Porque a sua intenção é não ter caminho e objectivo visível, mas sim a de vislumbrar uma sociedade ansiosa, desgastada e perturbada. Talvez tão louca quanto Freddie Quell, aquela loucura controlada que todos nós temos, mas ansiamos esconder. E talvez vivamos todos assim tão à beira do precipício.


Classificação:

quarta-feira, 10 de junho de 2009

DVD: Magnólia, por Tiago Ramos



Título original: Magnolia (1999)
Realização: Paul Thomas Anderson
Argumento: Paul Thomas Anderson

Paul Thomas Anderson surgiu como um realizador emergente no final dos anos 90, com Boogie Nights (1997). Apesar de ter sido muito bem recebido pela crítica e ter obtido três nomeações para os Óscares, foi dois anos mais tarde que o seu nome entrou na lista dos realizadores e argumentistas mais criativos de sempre.


Falamos claro de Magnólia, que deixou a sua marca no mundo do cinema, com um dos argumentos e realização mais espectaculares de sempre, difícil de digerir e cuja fama aumentou gradualmente com o tempo, atingindo a posição de filme de culto. Na época, Paul Thomas Anderson demonstrou estar longe do pensamento mainstream, o que deu origem a uma película à parte dos padrões sociais e culturais, numa história bastante crua, com inúmeras referências bíblicas e sobretudo que divide os cinéfilos.

Magnólia divide-se em múltiplas histórias e personagens, num único dia de acção, com uma grande constelação de estrelas do cinema. Apesar da trama intrincada, existe uma preocupação inicial em contextualizar as personagens relativamente ao argumento, numa espécie de apresentação. Posteriormente existe uma câmara que se passeia pela vida das personagens, numa espécie de trama episódica, numa aparente desconexão e aleatoriedade. A curiosidade é que nenhuma das personagens é secundária, tendo sido dado tempo necessário para que cada um assuma a importância necessária para a história num retrato realista da sociedade norte-americana de classe média alta. Em face desta aparente desconexão e narrativa complexa, o realizador tenta de certa forma aligeirar com recurso a movimentos bruscos de câmara, zooms e uma boa banda sonora, como Supertramp e Aimee Mann.



Aliado a todo este trabalho de realização junta-se uma excelente direcção de actores e alguns dos melhores desempenhos da história do Cinema. Tom Cruise tem aquela que foi apontada como a sua melhor prestação, uma espécie de guru do sexo e da conquista das mulheres, numa pose de certa forma excêntrica e neurótica, mas que esconde alguma consternação no que diz respeito ao seu passado. Julianne Moore apesar de ter uma das histórias substancialmente mais fracas do argumento, acaba por dar cartas consagrando-se como uma das actrizes mais completas da sua geração.

Magnólia é claramente um filme sobre a culpa, mas também sobre o poder da redenção e o arrependimento. O argumento é complexo tratado da corrosão da alma e a extrema necessidade de perdão, onde por vezes a morte é a única oportunidade de alívio. Tanto que a sobejamente comentada cena final - a chuva de sapos - sendo uma referência bíblica ao livro de Êxodo, torna-se uma espécie de catárse, como limpeza dos pecados e uma redenção final de todas as personagens.



Magnólia é um filme de culto, altamente simbólico, com uma moral fortemente enraigada, que aborda a temática da interligação entre vidas e como as alterações afectam várias vidas, num bonito tratado sobre a fragilidade.

Classificação:


Extras:
Disco 1
Filme
Selecção por Capítulos

Disco 2
Cenas Inéditas
Seminário de Frank TJ Makey
Anúncio de Mackey
Teaser
Trailer
Spots TV
Vídeo Clip: "Save Me" Aimee Mann
Documentário "Diário de Magnólia"

Classificação: