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domingo, 12 de junho de 2011

Piratas das Caraíbas por Estranhas Marés, por Carlos Antunes


Título original: Pirates of the Caribbean: On Stranger Tides

A diferença entre o quarto filme dos Piratas das Caraíbas e os seus predecessores está assinalada logo pelo início do filme.
Nos anteriores a entrada em cena de Jack Sparrow era uma surpresa memorável mas neste é evidente como tal vai acontecer, vindo apenas encoberto para que não seja tão evidente a conclusão.
Depois a sua presença prolonga-se por um encontro caricato e uma cena passada no topo de coches que é longa demais e na qual não parece fazer sentido colocar a personagem de Johnny Depp.
Essa breve sucessão de cenas ineficazes e descaracterizadas é o resumo do que será o resto do filme, mesmo que se queira recusar ver esse mau augúrio.
Afinal, a realização não tem personalidade, mas havia no filme actores suficientes para contrariarem até os planos mais soporíferos. Isso não acontece porque o foco geral do filme não está apontado para eles.
O filme está mais interessado em acumular elementos supérfulos e mal urdidos, senão mesmo injustificáveis uns perante os outros.
A que servem os zombies se o Barba Negra tem um controlo total sobre o seu navio? A que servem as sereias além de deixar uma linha aberta para a sequela?
Isso não acontece apenas com elementos de pormenor, acontece igualmente com os que seriam essenciais.
A que serve o Barba Negra - sobretudo quando para ele escolheram um actor como Ian McShane - se o tempo que não passa no camarote mal dá para ele ser um secundário? A que serve o confronto entre ingleses e espanhóis a não ser para produzirem aquela cena "fulcral" da troca dos cálices que é tão mal gerida quanto é vazia de emoção?
On Stranger Tides é uma sucessão de acontecimentos e detalhes que se unem mal e que não deixam memória.
Não é tudo olvidável, mas por pouco. Há um pouco de screwball na relação entre Depp e Cruz, mas a personagem dele está perto de (oficialmente) esgotada enquanto a dela ainda não está pronta para assumir os seus 50% de protagonismo.
Concluindo a comparação com que comecei a crítica, no fim do filme aquilo em que ele foi o oposto completo dos outros três não está no novo realizador - menos talentoso e menos original - ou na perda de alguns actores; está na história que é venturosa e cómica, sim, mas que tem uma falsa complexidade, nada mais do que enchimento excessivo.
Se eu fizer um esforço consigo lembrar-me do que se passava nos restantes filmes, mas em geral só retenho vividamente as personagens de Depp e Rush e mais umas quantas aparições menores (apenas em tempo e não em qualidade).
Neste sei perfeitamente qual era o objectivo da demanda e não vi porque razão teriam de ser estas personagens e não outras quaisquer a vivê-la.
Os outros filmes eram uma história para as personagens, este é uma história apesar das personagens.



terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Nove, por Carlos Antunes

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Título original:
Nine
Realização: Rob Marshall
Argumento:
Michael Tolkin e Anthony Minghella
Elenco: Daniel Day-Lewis, Marion Cotillard, Penélope Cruz, Nicole Kidman, Judi Dench, Kate Hudson, Sophia Loren e Stacy Ferguson

Dez minutos adentro do filme e o fantasma da mãe de Guido Contini diz-lhe que o mundo vê Roma como ele a inventou.
De certa forma é uma frase premonitória, pois Rob Marshall apenas vê, também, a Roma e a obra de Fellini como uma imagem que não é sentida, apenas um olhar reproduzido a partir de outro muito mais honesto e pungente.
Pior que isso, pega nesse olhar e logo o copia como um cenário de papelão.

http://images.rottentomatoes.com/images/movie/gallery/1200643/photo_12_hires.jpg

Aqueles que apreciam a obra de Fellini ficarão chocados pela forma como o seu imaginário foi reduzido a referências apressadas, chavões imagéticos e ideias feitas.
Os restantes encontrarão uma história confusa na sua pressa de tocar tudo e tudo apressar em direcção ao final e um desenxabido filme musical.

http://images.rottentomatoes.com/images/movie/gallery/1200643/photo_11_hires.jpg

A suposta história de um realizador em crise de identidade artística por extensão da sua crise "de mulheres", cada uma delas a demonstração de uma forma de descobrir e falhar no amor, parece apenas a crise de meia-idade de um marialva fugidio que nada afirma para em nada dar de si.
Não se percebe o que o tão selecto Daniel Day-Lewis anda a fazer aqui, talvez tenha sentido a vontade de se rodear de mulheres bonitas, algumas delas a escaparem ao meramente decorativo - Penélope Cruz e Marion Cotillard, sobretudo - mas sem nada de especial a contribuir.

http://images.rottentomatoes.com/images/movie/gallery/1200643/photo_10_hires.jpg

Para elas Rob Marshall guardou uma série de números musicais sem garra, sem explosão, sem diferença.
Rob Marshall não sabe o que fazer com a sua versão do cenário grandioso com que Fellini não sabia o que fazer e do qual retirou uma obra-prima pessoalíssima. Por isso usa-o como palco sistemático e restritivo de uma composição dos números, o cenário de fundo de um espaço restrito, como se ao cinema musical bastasse olhar estaticamente para aquilo que um grupo coreografado faz num pequeno palco.

http://images.rottentomatoes.com/images/movie/gallery/1200643/photo_06_hires.jpg

O pop orelhudo das cançonetas não tem mais graça do que aquele que foi estabelecendo a lista de milhentas músicas que passaram na rádio nas últimas duas décadas e, por isso mesmo, não disfarça a insalubre realidade dos números musicais que estamos a ver.
Impingem-nos luxo ou sensualidade como extravagâncias a agitar internamente as coreografias que têm pouco de distinto mas dariam alguns videoclips fáceis para aqueles que apenas querem ver algumas imagens ao som da música.

http://ugc.dhingana.com/uploads/photos/small_650/penelope-cruz-on-movie-musical-nine-photos-picture-10882047304afaed936d6f31.15546492.jpg

Trata-se, afinal, do mesmo sentimento que nos atravessava em Chicago, de um Musical que é apenas aquilo que já podia ser em palco, sem mais nada que o leve a ser Cinema.
Porque esta nova vida do Musical não tem vida própria nenhuma, é apenas a reprodução em película do que passa no palco e, para isso, ficamos melhor servidos com os DVDs onde encontramos o elenco original, normalmente mais talentoso do que aquele depois escolhido para os substituir.

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Concluindo, se a pretensão for apenas de ver divas em números musicais, certamente que este é o filme certo.
Mas se se quiser algo com mais substância, algo que tenha algo de novo a dizer, a escolha terá sempre de ser para com outro filme que não Nove.



http://cinematicpassions.files.wordpress.com/2009/11/nine20movie20image20nicole20kidman20marion20cotillard20penelope20cruz20sophia20loren20judi20dench20kate20hudson1.jpg

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Nove, por Tiago Ramos



Título original: Nine (2009)
Realização: Rob Marshall
Argumento: Michael Tolkin e Anthony Minghella
Elenco: Daniel Day-Lewis, Marion Cotillard, Penélope Cruz, Nicole Kidman, Judi Dench, Kate Hudson, Sophia Loren e Stacy Ferguson

O musical está de volta desde que o audacioso Baz Luhrmann decidiu colocar na ribalta o género adormecido com Moulin Rouge! (2001). Contudo e apesar de ser um sucesso de crítica, das 8 nomeações para os Óscares, apenas levou para casa dois Óscares técnicos: Melhor Direcção Artística e Melhor Guarda-Roupa. É sobretudo Rob Marshall que, em 2003, recolhe os créditos dessa coragem. Chicago (embora curiosamente dividindo a crítica) conseguiu vencer 6 dos 12 Óscares, inclusive Melhor Filme.



Nine é a nova incursão de Rob Marshall no género musical. De produção e elenco portentoso, o filme é adaptado de uma produção musical da Broadway, essa sim inspirada em , de Federico Fellini. Aqui entramos no universo do Cinema. Não o lado glamouroso, não a pós-montagem, não a obra. O que vemos aqui é a pré-produção, o processo criativo daquela que se pretendia a confirmação do cineasta Guido Contini como grande artista, após dois flops (termo usado pelo próprio) de crítica. Onde estamos é precisamente na mente do cineasta num conturbado processo criativo, uma crise de inspiração, um sofrimento por ideias que não fluem, mediante a pressão extrema dos produtores, da imprensa, dos actores e dos fãs. Todos esperam uma obra-prima, esperam uma obra que revolucione o mundo do Cinema. Mediante isso, Guido Contini vive num frenesim contínuo, enquanto enfrenta uma crise inspiracional e de idade (fisicamente velho, mas com uma mente infantil).

Rob Marshall efectivamente sabe o que faz, especialmente no que diz respeito à introdução das sequências musicais no meio do filme, muito bem coreografadas e estilizadas, que respira um certo classicismo e uma noção de espectáculo por vezes avassaladora. Contudo, os erros cometidos em Chicago pelo realizador ocorrem igualmente em Nine. A narrativa linear, embora simples de acompanhar e por isso serve objectivamente à função de entretenimento, acaba por fazer perder a carga espectacular (tanto dramática como mais cómica) como poderíamos esperar. A velocidade da própria história diminui a importância ao argumento e às personagens, fazendo com que percam carga emocional. Um subaproveitamento do elenco de luxo.



Nine é um filme de actores como se pode ver pelo elenco de luxo. Mas é sobretudo Daniel Day-Lewis quem o carrega às costas, num desempenho excelente, neurótico e desconcertante. Uma personagem complexa e madura emocionalmente e narrativamente com uma interessante atracção pela figura da mulher, que denota um Complexo de Édipo mal resolvido na infância. O actor respira o musical como poucos e revela-se uma das melhores escolhas de casting do filme. Na vertente feminina, o maior destaque vai para a brilhante prestação de Marion Cotillard, uma mulher destroçada, mas doce, cheia de momentos emocionais principalmente o seu desempenho musical em My Husband Makes Movies. Sequencialmente, as personagens de Kate Hudson e Fergie (surpreendentes escolhas de qualidade) têm a seu cargo as melhores canções do filme: Cinema Italiano e Be Italian. Por seu lado, Penélope Cruz confirma a sua versatilidade numa divertida personagem, Nicole Kidman mantém a sua pose aristocrática de musa, Sophia Loren basta-lhe a mística e Judi Dench, enquanto confidente, mantém o seu habitual talento. Lamentável, contudo, o subaproveitamento destas actrizes, cuja importância e aparecimento na tela é tão diminuta.


Tecnicamente a montagem de Claire Simpson (O Leitor) e Wyatt Smith é dos pontos mais fracos do filme. O ritmo acelerado e a montagem demasiado abrupta contribuem para não mais que um sentimento de tolerância em relação a um filme que poderia ser muito melhor. Musicalmente, as canções de Nine são fracas. Não existe dramatismo nem espectacularidade suficientemente, à excepção de Cinema Italiano e Be Italian. Por vezes o ritmo arrasta até ao cansaço e isso prejudica notavelmente aquilo que se espera de um filme musical. Esse potencial poderia ter sido muito melhor explorado.

Contudo, Nine não deixa de ser um filme agradável, com um grande sentido de entretenimento. É divertido e razoável, um excelente caso de amor ou ódio e uma fotografia primorosa da autoria de Dion Beebe (Chicago) Não deixa contudo de ser uma respeitosa homenagem aos filmes italianos de 60 e 70 e especialmente a de Federico Fellini na sequência de créditos final. Contudo, não deixamos de sentir um ligeiro desagrado e a certeza que Rob Marshall podia ter feito melhor.



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