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domingo, 2 de outubro de 2011

A Árvore da Vida, por Tiago Ramos


Título original: The Tree of Life (2011) 
Realização: Terrence Malick
Argumento: Terrence Malick
Elenco: Brad Pitt, Sean Penn, Jessica Chastain, Hunter McCracken, Laramie Eppler, Tye Sheridan e Fiona Shaw

«Eu sou o Alfa e o Ómega. O princípio e o fim» versa a Bíblia no livro de Revelação (ou Apocalipse), capítulo um e versículo oito. Embora este versículo amiúde tenha como significado provável a indicação de Deus como o único capaz de prover vida eterna aos seus seguidores (isto depois de, em termos bíblicos, Deus ter vedado a Adão e Eva o acesso à Árvore da Vida, guardada por querubins), a verdade é que a amplitude de tal afirmação acaba por ilustrar A Árvore da Vida, na visão do quase mítico cineasta norte-americano Terrence Malick. Aquilo que observamos no filme é também ele uma tentativa megalómana de descrever o Alfa e o Ómega (primeira e última letra do alfabeto grego) como o princípio e o fim da vida. Nesse sentido, o cineasta parte do geral para o particular e do particular para o geral, através dos olhos uma família do Texas nos anos 50, transportando essa visão a criação e expansão do Universo e surgimento da vida na Terra.

Não obstante as críticas sofridas, dado o excessivo uso de imagens que dramatizam a criação do Universo, a verdade é que a estrutura do filme é bastante tradicional, servindo apenas estas imagens para transmitir outro ponto de vista da existência biológica, através da visão mais infinitesimal possível. Versado em filosofia, o projecto que Terrence Malick aqui nos apresenta é dos mais ambiciosos de sempre da história do cinema e, ao contrário do apregoado por muitos, é bastante humilde dentro da sua intenção. Com um olhar por vezes místico e até religioso, somos deslumbrados pelo ponto de vista estético e de montagem tão megalómanos como raros. É o trabalho de um cineasta original sempre enriquecido com o trabalho do director de fotografia Emmanuel Lubezki (The New World).

É verdade que A Árvore da Vida é o ponto de vista de um crente. Mas de que é feito o cinema senão por pontos de vista? De que é feita a vida senão de perspectivas? O que interessa aqui é a reflexão que este nos obriga, a do princípio e do fim. Do Universo, da vida, de nós. São dois pontos de vista de dois protagonistas: a do pai austero e da mãe carinhosa. A vida familiar tão divina quanto Deus. Tão preponderante quanto os caminhos que levaram ao surgimento da vida. Mas mesmo para os não-crentes (onde eu me incluo), há o deslumbre da imensidão da vida. Seja ela Deus ou a Natureza. Seja ela o quer que seja. É no fundo uma tentativa de dar lógica àquilo que por vezes nos parece o caos. E que na verdade o é: um caos organizado. Porque também em A Árvore da Vida - assumindo o ponto de vista da crença - há igualmente a transmissão do pensamento da descrença. O filme inicia-se com o ponto de vista divino, versado no livro bíblico de Jó, capítulo trinta e oito, versículo quatro: «Onde estavas tu, quando eu fundava a terra?». As mesmas palavras usadas por uma mãe para manifestar o desgosto da perda de um filho perante Deus: «Onde estavas tu?». As mesmas palavras que crentes e descrentes transmitem perante a existência ou confirmação da não-existência de Deus: onde estava Deus? Onde está Deus, perante a injustiça, perante o sofrimento?.

Tão bonito, quanto inspirador, tão profundo, quanto metafísico e, no limite, tão devastador quanto é a própria vida. Talvez A Árvore da Vida não passe de uma questão de sensibilidade e cada um o verá com os seus próprios olhos e de forma diferente: no limite ou ama ou odeia. Mas dificilmente ficará indiferente.



Classificação:

segunda-feira, 13 de junho de 2011

A Árvore da Vida, por Carlos Antunes


Título original: The Tree of Life


Não se diga que a A Árvore da Vida não é para todos ou que os seus espectadores se dividem entre os que compreendem e os que desdenham. O filme tem no seu interior o cinema narrativo que todos podem reconhecer. Apenas está balizado pelo próprio universo, pelo início e pelo fim de tudo.
Os espectadores estarão entre os que aceitam ou não aceitam a ligação que Malick estabelece entre o infinito e o infinitesimal. Assim mesmo se quer o cinema, longe da unanimidade. Mesmo que os que aceitam a ligação sejam, possivelmente, mais afortunados que os restantes.
O filme olha o palpável a partir do imaterial e o compreensível a partir do extraordinário.
O seu olhar interrogador sobre a espiritualidade e a existência não empareda a vida humana entre a grandiosidade da existência (e da execução) divina. Equipara-as!
O início e o fim do universo são como o início e o fim de toda e qualquer vida. Por isso, a existência de uma família é um relato essencial de um universo que o entendimento nunca explicará totalmente.
Se somos partículas aos olhos do divino, também nós somos divinos aos olhos do que nos é infinitamente menor ou dependente.
Olhe-se os pais que aqui existem como figuras em que se projecta uma ideia religiosa de Deus.
O pais austero e exigente. A mãe carinhoso e deslumbrada. São as duas faces do Deus à conta com os seus filhos.
Se há uma religião que lhes chama "filhos de Deus", naturalmente os filhos que têm os encararão como os seus próprios deuses.
O filho mais velho cumpre, através da sua vida, o percurso que cabe a todos os que confrontam a sua própria espiritualidade interna.
Primeiro vive feliz perante os seus criadores, num paraíso de inconsciência. Perde a inocência num primeiro acto de descoberta física. Depois rebela-se e luta de volta, crendo-se equiparado a quem está acima dele. Finalmente apazigua-se e faz as pazes com o seu "deus".
O que não impede que até ao fim dos seus dias continue a interrogar-se e a imaginar o seu próprio lugar no espaço do divino onde todos poderão ainda existir e onde todas as possibilidades poderão ainda recriar-se.
Isto é a sensação de tudo o que abarca um filme que, ainda para mais, existe em estado permanente de deslumbre visual.
O deslumbre visual é o sinal de que Malick é corajoso e que tem um olho extraordinário para as cenas de grande impacto.
Tal estado de imagética é a comprovação de um realizador visionário, mas não é a realização em si que importa sublinhar. As decisões de Malick foram de encontro à sua visão de um realismo superlativo, que ele continua a cultivar pedindo aos operadores de câmara que filmem subjectivamente e escolhendo com Emmanuel Lubezki (que continua a ser exímio no seu trabalho) uma luz sempre natural.
Mas ainda mais radical do que essa ousadia é a sua montagem, essa sim um trabalho de génio.
A sua montagem conta uma história através de detalhes que seriam esquecidos por muitos. É sempre a imagem que traduz a percepção da realidade das relações do melodrama (ou não estivéssemos nos anos 1950) familiar.
A mesma imagem que se descola desse ponto de ligação ao comum como se não lhe pertencesse.
A visão, como a voz narrativa, é etérea mas sentimo-la como superior a qualquer plano terreno. Os olhos planam entre a realidade e o mistério longínquo, não fugindo em direcção ao infinito apenas porque há vidas a serem seguidas.
Se uma família significa o mesmo que o próprio divino, não se tem a certeza a quem pertence aquela voz, muito menos aquele olhar.
Pois a montagem desses elementos, não só a que liga o Universo e a família, mas toda aquela que escreve as passagens da vida terrena, não estabelece um discurso nem define as afirmações de uma tese.
A montagem cria uma interrogação permanente, como se Malick desse corpo ao filósofo que todos deveríamos continuar a ser pela vida fora.
Haverá um sentido para a pergunta que é este filme, um sentido que talvez não descubramos antes de termos a idade com que Malick assinou este seu quinto filme.
Até lá saberemos apreciar o filme por via dos sentidos, pois não é só a fotografia mas também a banda sonora que nos fala da composição abismal que estamos a ver. Um filme para crermos que a luz do sol nos toca a pele em plena sala de cinema.
A experiência viva (e vivificante) do filme é extraordinária por si só, mas não é a única. Está perto de ser exemplar para a tão ambicionada demonstração de que o cinema é a moderna gesamtkunstwerk (mesmo que não diga que é perfeito, mas de que vale o perfeito se o imperfeito nos toca muito mais).
Já que é quase certo que todos os cinéfilos viram a intervenção de João Botelho no Canal Q, aproveito uma das suas frases - que poderá ter ficado submersa entre todas as outras afirmações - para concluir.
O Cinema, como as outras artes, foi feito para desassossegar as almas. Então, nada é mais Cinema em 2011 do que A Árvore da Vida. Ame-se ou odeie-se, não é filme que se cale depois de o interiorizarmos.