Da sua ironia trágica e cómica nasce precisamente o ponto alto de
Beleza Americana. Primeira obra de
Sam Mendes, consagrou-lhe o estatuto de cineasta de culto, apenas porque revelou uma verdade que todos conheciam e nunca ninguém tinha tido coragem de retratá-la de forma tão crua no Cinema: vivemos num mundo cínico. Estamos num mundo onde não existe inocência, onde nenhum de nós está imune a tal efeito, onde participamos e assistimos a escândalos programados.
Tudo vive de padrões, de estatutos, de fachada, de estrutura. Mas por detrás dessas paredes impecáveis vive o cinismo.
Sam Mendes não poderia encontrar melhor lugar que os subúrbios norte-americanos para ironizar e satirizar de forma simbólica toda a estrutura da sociedade em que vivemos. Da sua beleza externa, da sua simetria impecável, do seu padrão geométrico não se vislumbra o seu interior corrompido, as suas famílias desfeitas, os seus escândalos pessoais. O cineasta britânico, de câmara em riste, invade essa privacidade de uma forma tão subtil como encantadora, mas simultaneamente reveladora de uma sociedade pervertida e corrompida. O que aconteceria se dentro dessa sociedade americana, ditadora de costumes e influência mundial, se todos começassem a dizer a verdade e como se sentiam?
Beleza Americana é paradoxal nesse sentido. Da sua estética arrumada e limpa, dos seus planos igualmente belos, descobre também no seu argumento a corrupção da mente humana. É um olhar mais profundo e desprovido de filtros que revela a hipocrisia dos subúrbios. Usando a estética americana, o filme acaba por utilizar os métodos que pretende denunciar no seu todo. É uma pretensão intelectual e anárquica, perfeitamente simulada por
Jimi Hendrix e o seu
All along the watchtower. É a forma pretensamente rebelde de
Sam Mendes denunciar a sociedade politicamente incorrecta, mas simultaneamente acaba usar os padrões que denuncia de uma forma, precisamente ela, cliché e padronizada. Um modo industrial de criticar.
Muito dessa culpa resulta do argumento de
Alan Ball, figura incontornável da dramaturgia norte-americana e escritor de uma das obras mais críticas e irónicas da sociedade actual: a série
Six Feet Under (2001-2005). O seu argumento resulta numa estética
pop americana e consequentemente mundial. Uma crítica sarcástica e cómica de quem vive sob aparências e uma capa de estatutos.
Cada um dos actores é precisamente a personificação desses vícios de personalidade, dessa estética suburbana, dessa corrupção da mente.
Kevin Spacey e
Annette Bening, num dos melhores desempenhos da década: o marido infeliz e a esposa insatisfeita. Ambos vítimas de uma sociedade politizada, vítimas das rotinas diárias e do politicamente correcto.
Thora Birch é a adolescente impopular, enquanto que
Mena Suvari é a adolescente popular, mas profundamente calculista e fraudulenta.
Chris Cooper como o vizinho estranho e moralista. E
Wes Bentley como o marginal, o rebelde anarquista, que procura a estética no bizarro e pouco usual. Actores que fazem o filme, filme feito para estes actores. Personagens clichés e padronizadas, como aquilo que denunciam. O eterno paradoxo de
Beleza Americana.
O filme é esteticamente impecável, dotado de um rigor académico na sua realização e direcção artística, na fotografia de
Conrad L. Hall (
Road to Perdition) ou na banda sonora de
Thomas Newman (
Revolutionary Road). Coerência estética e verdadeira beleza artística.
Beleza Americana é o retrato do que denuncia. É uma forma de de crítica que, repito, usa os métodos que critica de forma a que a própria sociedade que a produziu possa sentir que se auto-analisou. É uma crítica sarcástica e irónica, original e marcante na década, mas que não é ela mesma isenta de erros e imperfeições. É contudo dessas falhas que o filme atinge o estatuto que tem e não deixa de ser uma boa obra cinematográfica.
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