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quinta-feira, 13 de maio de 2010

Um Lugar Para Viver, por Carlos Antunes


Título original: Away We Go
Realização: Sam Mendes
Argumento:
Dave Eggers e Vendela Vida
Elenco: John Krasinski, Maya Rudolph, Catherine O'Hara, Jeff Daniels e Maggie Gyllenhaal

É mentira que aqui se procure um lugar para viver. Aqui procura-se na verdade um lar, um local onde um casal surpreendido por um filho prestes a nascer possa ter o apoio e a inspiração para dar a resposta conveniente ao que lhes está a suceder.


Eles percorrem as cidades da América do Norte em busca de um lugar que seja, até certo ponto, familiar pela presença de um casal amigo. Casal esse já com a experiência da paternidade.
Enquanto percorrem as cidades, percorrem igualmente os modelos familiares mais díspares.
A sua busca é uma visão transversal da realidade, dos problemas que assombram todas as estruturas familiares e das felicidades que, ainda assim, estas proporcionam.


O que lhes custa a perceber, mas a que eventualmente chegam, é que o lar não é um local onde possam contar com alguém que já conhecem.
O lar é o local que lhes fala particularmente e onde podem e têm de estar sozinhos, com a sua aprendizagem pela frente - com tantos erros e felicidades como os restantes modelos familiares que viram - e sem soluções que não construam eles próprios por tentativa e erro.
O lar é o espaço onde são eles próprios, não aquele onde um outro imaginário lhes rege o comportamento como pais.


O filme está filmado em capítulos, segmentos de busca, que ficam como segmentos de ensinamento individualizados, mas que se somam num retrato mais abrangente.
A leve gargalhada - dita indie embora seja apenas uma apropriação inteligente - com que o filme é feito atenua o sentimento de confusão e medo que todos os que já foram pais reconhecerão melhor, mas que será evidente para qualquer espectador.
A sensibilidade do tema, bem como o cuidado que Sam Mendes lhe dedica não ficam senão deliciosamente envoltos nesta descontração que ajuda a ganhar um filme de dimensão pessoal.
Um daqueles pequenos achados com imensas riquezas dentro.



quinta-feira, 1 de abril de 2010

Um Lugar Para Viver, por Tiago Ramos



Título original: Away We Go (2009)
Realização: Sam Mendes
Argumento:
Dave Eggers e Vendela Vida

Por Sam Mendes não conseguimos sentir menos que uma profunda admiração. No mesmo ano em que se aventura num drama suburbano dos anos 50 (Revolutionary Road), rapidamente realiza uma comédia indie tipicamente americana. É esta versatilidade que o faz o cineasta interessante que é, além do seu óbvio talento e génio.



Away We Go assenta na fórmula típica do cinema de género indie, como é imediatamente visível pelo poster e todo o trabalho gráfico, que rapidamente nos remete para filmes como Juno (2007). É um road movie recheado de acontecimentos peculiares e personagens-tipo indicadoras de disfunções sociais, bem como da visão do marginal à sociedade, com a única diferença que em Away We Go, o marginal é precisamente aquele que se integra perfeitamente na sociedade. Aqui um casal à espera do primeiro filho procura assentar. Viver uma vida dita normal, comum e em sociedade. Inicia-se assim o tal road movie em meio a casais desconcertantes, em cidades distintas, afastando-se do histerismo patológico e procurando uma visão idílica e romântica do matrimónio e do lar.

Sam Mendes
distancia-se assim da sua visão pessimista da sociedade americana e ocupa-se de uma opinião mais esperançosa acerca das famílias americanas. O problema nesta nova visão prende-se com o distanciamento daquilo que conhecíamos como do autor Sam Mendes. Abandonada a sua estética formal habitual, a sua temática, resulta uma obra singular e única, mas simultaneamente tão comum que poderia ter sido realizada por qualquer outro cineasta. É isso mau? Dificilmente o será. Mas para quem se habituou a uma carga dramática constante, o quotidiano de Away We Go sabe a incompleto. Por outro lado, o rumo que o filme toma - mais sensível - permite observar que Sam Mendes amadureceu a sua forma de ver o mundo e tomou novos caminhos. Tal como as personagens do filme.



Precisamente tais personagens são inteligentemente bem representadas. A escolha do elenco menos óbvia contribui para se sentir a competência do filme. Encontramos actores habitualmente considerados cómicos como protagonistas dramáticos, enquanto que os papéis cómicos secundários ficam para actores que costumam trabalhar com drama. De tal elenco destaca-se Maya Rudolph e John Krasinski, não inexperientes na área, mas desconhecidos. Uma boa surpresa na forma despudorada de abordar o sexo, mas também na química do par improvável, que oscilam entre representações mais dramáticas como tiradas cómicas mais subtis, críticas da forma comodista de viver a vida.

A equipa técnica é diferente da habitual, mas garante uma nova frescura à filmografia do cineasta. Alexi Murdoch com uma banda sonora folk indie, Ellen Kuras (Eternal Sunshine of the Spotless Mind) como director de uma fotografia simples e colorida e Sarah Flack (Dan in Real Life) com uma montagem inteligente, mas despreocupada.



Away We Go é o filme mais singular da filmografia do multifacetado Sam Mendes, deixando-nos na dúvida sobre o rumo que pretende tomar nas próximas obras. Na verdade, este tom despreocupado e sensível acaba por fazer o espectador sentir-se bem, mas se não nos dissessem nunca o saberíamos realizado por Sam Mendes.

Classificação:

Crítica originalmente publicada a 03 de Janeiro de 2010.

domingo, 3 de janeiro de 2010

Dezembro & Sam Mendes: O quadro-síntese

Dezembro foi rico em Cinema. Uma viagem ao universo de um dos mais multifacetados realizadores do momento: Sam Mendes. Dos dramas suburbanos à comédia indie, o resultado final que perdura na nossa memória é o talento e competência do cineasta. Na iniciativa Dezembro & Sam Mendes, além da habitual colaboração do Split Screen, CINEROAD, Flavio's World e seeSAWseen, contou-se também com uma ajuda do outro lado do Atlântico, através do blogger Pedro Tavares do Cinema O Rama. Desde já agradecemos a participação curta, mas de grande qualidade.

Segue o quadro das classificações da filmografia de Sam Mendes:



No final, todas as cinco longas-metragens do realizador foram criticadas, num total de 20 críticas ao longo de toda a iniciativa.

Também na resposta à questão «Para si, qual é o melhor filme de Sam Mendes?» os nosso leitores tiveram oportunidade de indicar os seus favoritos. Numa participação recorde de 114 pessoas, o resultado foi renhido para os dois primeiros classificados.

O primeiro trabalho cinematográfico do realizador, American Beauty, reuniu 47% das preferências dos nossos visitantes, num total de 54 votos. O filme recebeu oito nomeações para os Óscares, dos quais acabou por arrecadar cinco.

Em segundo lugar, o drama suburbano dos anos 50, Revolutionary Road, acabou por ser o preferido de 42% do total dos inquiridos. O filme que recebeu 48 votos, quase foi esquecido na última cerimónia dos Óscares (conseguiu apesar de tudo, três nomeações), mas permitiu a Kate Winslet o Globo de Ouro por Melhor Actriz.

Em terceiro lugar, mas com apenas 6 votos, reunindo 5% da preferência dos votantes, surge o drama de guerra Jarhead. O filme é um dos que menos gera consenso dentro da filmografia de Sam Mendes.

Agradecemos mais uma vez a participação de todos. Continue connosco, continue com bom Cinema!

sábado, 2 de janeiro de 2010

Caminho para Perdição, por Tiago Ramos



Título original: Road to Perdition (2002)
Realização: Sam Mendes
Argumento:
David Self, Richard Piers Rayner e Max Allan Collins
Elenco: Tom Hanks, Tyler Hoechlin, Paul Newman, Liam Aiken, Jude Law, Jennifer Jason Leigh e Daniel Craig

O maior defeito que podemos aplicar a Road to Perdition é o facto de Sam Mendes ter conseguido realizar o filme de forma elegante, como se espera de um filme do género. Mas não conseguiu superar essa elegância padronizada. Reproduz correctamente os filmes de gangsters, mas não vai além disso.



Porém, pelo oposto, na componente estética, Sam Mendes nunca faz as escolhas comuns. Impressiona pela forma apurada com que constrói as imagens, não tem medo de filmar no escuro (a grande maioria das cenas são filmadas em lugares ou ocasiões escuras) ou do grão na imagem. É uma atmosfera muito fidedigna à novela gráfica em que se baseou, indo obviamente buscar inspiração aos desenhos à mão da banda desenhada. É uma moldura virtuosa e impecável que acaba por distrair o espectador do argumento recheado de lugares comuns e citações do género.

De facto, em Road to Perdition temos um início bastante bem conseguido fazendo relembrar The Godfather (1972) ou Once Upon a Time in America (1984). Porém rapidamente nos apercebemos que Sam Mendes não é Francis Ford Copolla ou Sergio Leone. De facto, aqui as personagens perdem o seu lado mais emocional e interessante em termos argumentativos, porque a moldura visual que os rodeia, retira-lhes o protagonismo. Peca pela elegância. É academismo puro e se em outras ocasiões resulta, aqui entra em conflito com o próprio filme e com o espectador.



Sam Mendes
rodeia-se daquela que viria a ser a sua mais habitual equipa: Thomas Newman a cargo da banda sonora dramática e violenta (excelsa, como de costume) e Conrad L. Hall na fotografia soberba. Uma estética de elegância, uma fruição artística do cinema, a distinção na forma como observa o que o rodeia.

Contudo, a composição de Tom Hanks e a sua relação-devoção com o seu chefe (excelente trabalho de Paul Newman), bem como a relação pai-filho, assume contornos demasiado moralistas, por vezes até plásticos. Uma ligação definida, mas muito aquém do desejado. O trabalho do actor não traz nada de novo ao género, repercutindo-se numa prestação demasiado sonolenta. Por seu lado, temos o desempenho de Jude Law como um regalo para os cinéfilos. Um assassino, que no fim é um iconoclasta, amante de uma estética clínica assumida, que fotografa as cenas dos seus crimes, para as vender aos jornais sensacionalistas. Uma personagem bizarra, mas interessante, num dos melhores trabalhos do actor.



No seu todo, nem Sam Mendes nem Road to Perdition desiludem. O filme é um conjunto de belos quadros, sequências estonteantemente frias, mas quando soma com o desequilíbrio narrativo (as lições de moral e o déjà vu argumentativo) não traz um resultado particularmente interessante. Falta-lhe mais calor humano.

Classificação:



sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Máquina Zero, por Tiago Ramos



Título original: Jarhead (2005)
Realização: Sam Mendes
Argumento:
William Broyles Jr. e Anthony Swofford
Elenco: Jake Gyllenhaal, Scott MacDonald, Peter Sarsgaard e Jamie Foxx

Jarhead - Máquina Zero é a história de uma guerra real que demora a chegar. É a história de um jovem que vive a vida na espera dessa mesma guerra, sem perceber muito bem os motivos que levam a tal guerra acontecer. É sobretudo um filme de guerra, sem tal acção, é a inactividade da guerra. Eles não vão à procura da guerra, esperam que ela lhes chegue.



No seu meio caminho encontramos a bizarra e irónica experiência de vida de Swofford, que se alistou no exército quase que por engano. É a sua experiência como recruta e o seu crescimento nesse campo que faz o filme. Jarhead não é mais nada que não ele, não tivesse o filme sido adaptado da autobiografia do fuzileiro Anthony Swofford. O filme é o seu retrato, a sua visão da guerra e do inimigo que por um pouco quase não tinha chegado a conhecer. É a sua experiência de passar pela máquina da guerra americana, o retrato da humilhação inicial, o tédio contínuo e a ansiedade crescente, os treinos duros e despersonalizados, o medo que sentia da guera que nunca tinha visto.

Jarhead é precisamente a experiência mais artística de Sam Mendes. O cineasta prescinde totalmente da acção para nos trazer uma visão original da guerra, surrealista, trágica e irónica. Um humor negro já habitual na sua filmografia, mas simultaneamente comprovativo da sua polivalência na indústria cinematográfica. É precisamente uma obra imparcial e realista, sem lados políticos e morais. Jarhead é Swofford e as suas expectativas. Nada mais.



As referências do género lá estão: desde Full Metal Jacket (1987) a Apocalypse Now (1979). A primeira mais óbvia, a segunda mais subtil. Mas é sobretudo na componente técnica - e não na argumentativa - que o filme ganha um novo fôlego. A fotografia de Roger Deakins é sublime e claramente o melhor de todo o filme. As suas oito nomeações para os Óscares confirmam o inegável talento deste excelente director de fotografia, já com duas colaborações com Sam Mendes. A segunda foi em Revolutionary Road.

Depois temos a banda sonora de Thomas Newman, que já trabalhou em quatro dos cinco filmes do cineasta e que nos traz uma íntima ligação da personagem à paisagem circundante. De resto a direcção artística é excelente, bem como o elenco de onde se destacam as boas interpretações de Jake Gyllenhaal, Peter Sarsgaard e Jamie Foxx.



Jarhead não é o melhor filme de Sam Mendes, mas é inegavalmente o que apresenta uma visão mais invulgar do cineasta. Um filme de guerra sem acção, suficiente para dizermos que nunca tínhamos visto nada assim.


Classificação:


sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Beleza Americana, por Tiago Ramos



Título original: American Beauty (1999)
Realização: Sam Mendes
Argumento: Alan Ball
Elenco: Kevin Spacey, Annette Bening, Thora Birch, Wes Bentley, Mena Suvari e Chris Cooper

Da sua ironia trágica e cómica nasce precisamente o ponto alto de Beleza Americana. Primeira obra de Sam Mendes, consagrou-lhe o estatuto de cineasta de culto, apenas porque revelou uma verdade que todos conheciam e nunca ninguém tinha tido coragem de retratá-la de forma tão crua no Cinema: vivemos num mundo cínico. Estamos num mundo onde não existe inocência, onde nenhum de nós está imune a tal efeito, onde participamos e assistimos a escândalos programados.



Tudo vive de padrões, de estatutos, de fachada, de estrutura. Mas por detrás dessas paredes impecáveis vive o cinismo. Sam Mendes não poderia encontrar melhor lugar que os subúrbios norte-americanos para ironizar e satirizar de forma simbólica toda a estrutura da sociedade em que vivemos. Da sua beleza externa, da sua simetria impecável, do seu padrão geométrico não se vislumbra o seu interior corrompido, as suas famílias desfeitas, os seus escândalos pessoais. O cineasta britânico, de câmara em riste, invade essa privacidade de uma forma tão subtil como encantadora, mas simultaneamente reveladora de uma sociedade pervertida e corrompida. O que aconteceria se dentro dessa sociedade americana, ditadora de costumes e influência mundial, se todos começassem a dizer a verdade e como se sentiam?

Beleza Americana é paradoxal nesse sentido. Da sua estética arrumada e limpa, dos seus planos igualmente belos, descobre também no seu argumento a corrupção da mente humana. É um olhar mais profundo e desprovido de filtros que revela a hipocrisia dos subúrbios. Usando a estética americana, o filme acaba por utilizar os métodos que pretende denunciar no seu todo. É uma pretensão intelectual e anárquica, perfeitamente simulada por Jimi Hendrix e o seu All along the watchtower. É a forma pretensamente rebelde de Sam Mendes denunciar a sociedade politicamente incorrecta, mas simultaneamente acaba usar os padrões que denuncia de uma forma, precisamente ela, cliché e padronizada. Um modo industrial de criticar.



Muito dessa culpa resulta do argumento de Alan Ball, figura incontornável da dramaturgia norte-americana e escritor de uma das obras mais críticas e irónicas da sociedade actual: a série Six Feet Under (2001-2005). O seu argumento resulta numa estética pop americana e consequentemente mundial. Uma crítica sarcástica e cómica de quem vive sob aparências e uma capa de estatutos.

Cada um dos actores é precisamente a personificação desses vícios de personalidade, dessa estética suburbana, dessa corrupção da mente. Kevin Spacey e Annette Bening, num dos melhores desempenhos da década: o marido infeliz e a esposa insatisfeita. Ambos vítimas de uma sociedade politizada, vítimas das rotinas diárias e do politicamente correcto. Thora Birch é a adolescente impopular, enquanto que Mena Suvari é a adolescente popular, mas profundamente calculista e fraudulenta. Chris Cooper como o vizinho estranho e moralista. E Wes Bentley como o marginal, o rebelde anarquista, que procura a estética no bizarro e pouco usual. Actores que fazem o filme, filme feito para estes actores. Personagens clichés e padronizadas, como aquilo que denunciam. O eterno paradoxo de Beleza Americana.



O filme é esteticamente impecável, dotado de um rigor académico na sua realização e direcção artística, na fotografia de Conrad L. Hall (Road to Perdition) ou na banda sonora de Thomas Newman (Revolutionary Road). Coerência estética e verdadeira beleza artística.
Beleza Americana é o retrato do que denuncia. É uma forma de de crítica que, repito, usa os métodos que critica de forma a que a própria sociedade que a produziu possa sentir que se auto-analisou. É uma crítica sarcástica e irónica, original e marcante na década, mas que não é ela mesma isenta de erros e imperfeições. É contudo dessas falhas que o filme atinge o estatuto que tem e não deixa de ser uma boa obra cinematográfica.

Classificação:




Dezembro & Sam Mendes: O multi-facetado

Nascido em Inglaterra, o apelido de Sam Mendes advém da ascendência de madeirenses protestantes, com origens nas Ilhas Trinidad e Tobago, expulsos no tempo da perseguição a Robert Reid Kalley, uma das figuras históricas do protestantismo em Portugal.

Estudante na Universidade de Cambridge, acabou por ter também formação na área de Teatro e Cinema. Foi precisamente no Teatro que o cineasta começou a dar cartas e a tornar-se conhecido. Em 2003, casa-se com a actriz britânica Kate Winslet, com quem tem um filho. Já em 2008, foi considerado pelo Daily Telegraph como uma das mais poderosas personalidades na cultura britânica, figurando em 15.º lugar.

Em 1999, tem a oportunidade de realizar a sua primeira longa-metragem que se torna de imediato num dos filmes mais populares de sempre, lançando Sam Mendes na ribalta. American Beauty (1999) figura no 37.º lugar do Top 250 do IMDb e figura em listas dos melhores filmes de sempre, tendo ganho 5 Óscares: Kevin Spacey (Melhor Actor), Conrad L. Hall (Melhor Fotografia), Alan Ball (Melhor Argumento Original), Melhor Realizador e Melhor Filme. Foi ainda nomeado com outros três Óscares: Melhor Actriz (Annette Bening), Melhor Montagem e Melhor Banda Sonora (Thomas Newman).

Aliás, Sam Mendes dirigiu quatro actores nomeados para os Óscares pelas suas interpretações: Kevin Spacey, Annette Bening (ambos por American Beauty), Paul Newman (Road to Perdition) e Michael Shannon (Revolutionary Road). A título de curiosidade, todos os seus filmes, exceptuando Away We Go (2009), têm bandas sonoras compostas por Thomas Newman.

Sam Mendes é um dos realizadores mais versáteis e multifacetados de Hollywood. Embora a sua filmografia seja curta (apenas cinco filmes), não houve nenhum deles que tivesse sido arrasado pela crítica, embora todos sejam considerados menores que American Beauty. Curiosamente nenhum deles foi sucesso de bilheteiras. Em apenas cinco longas-metragens, o cineasta já se aventurou pelo drama-cómico suburbano (American Beauty), pelo filme de gangsters (Road to Perdition), pelo filme de guerra (Jarhead), pelo drama suburbano histórico (Revolutionary Road) e pela comédia indie (Away We Go). O seu próximo trabalho já anunciado será um western.

Aproveite e diga-nos qual o seu filme preferido de Sam Mendes? As votações decorrem, como habitualmente, na lateral direita deste blogue.


sábado, 5 de dezembro de 2009

Dezembro & Sam Mendes



Dezembro marca a sexta edição das iniciativas comemorativas da carreira de um realizador. E como até agora a escolha dos realizadores tem sido diversa, porque não dedicar o mês de Dezembro a um dos realizadores mais versáteis e multifacetados da actualidade? É isso mesmo: durante este mês, Sam Mendes será homenageado com recurso a críticas, artigos e imagens.

Não obstante a sua (ainda) curta filmografia, o realizador já detém um Óscar de Melhor Realizador e cinco filmes todos eles distintos entre si, com diferentes registos. Em Dezembro e depois de um interregno, o blogue seeSAWseen voltar-se-á a juntar ao Split Screen, CINEROAD e Flavio's World. Seguindo ainda o modelo usado na iniciativa de Novembro, teremos também um autor convidado.

Este mês e porque achamos que estas iniciativas devem fomentar os laços entre os blogues de cinema de Língua Portuguesa, decidimos convidar o Pedro Tavares, do blogue Cinema O Rama, que se junta do outro lado do Atlântico, no Brasil.

De momento, já se encontram publicadas as seguintes críticas:

CINEROAD - A Estrada do Cinema

Flavio's World

seeSAWseen

Split Screen

Cinema O Rama
Em Dezembro, fique com grande e diverso Cinema! Fique connosco e com Sam Mendes!


segunda-feira, 2 de março de 2009

Revolutionary Road, por Tiago Ramos


Título original: Revolutionary Road (2008)
Realização: Sam Mendes
Argumento: Justin Haythe e Richard Yates
Elenco: Leonardo DiCaprio, Kate Winslet, Michael Shannon e Kathy Bates

Foi provavelmente a maior das surpresas na nomeação para os Óscares deste ano. Revolutionary Road, contra todas as expectativas, apenas recebeu três nomeações, duas delas em categorias técnicas, mesmo depois de quatro nomeações importantes tanto nos Globos de Ouro como nos BAFTA, tendo ganho o Globo de Ouro para Melhor Actriz, pela interpretação de Kate Winslet.


Baseado no romance homónimo de Richard Yates, Revolutionary Road, realizado por Sam Mendes (Beleza Americana) revela uma intensa carga dramática como há muitos anos não se via no grande ecrã. Um jovem casal atingido pelo conformismo dos subúrbios de Connecticut, durante os anos 50, tenta superar os seus problemas familiares, enquanto tentam criar os filhos de uma forma digna, ao mesmo tempo que tentam fugir das convenções típicas da sociedade da época.

Revolutionary Road será dos argumentos mais sombrios escritos acerca do casamento e juntar o eterno par romântico Leonardo DiCaprio e Kate Winslet no mesmo filme, aparentemente provocaria um suicídio cinematográfico. Surpreendentemente não foi isso que aconteceu. O filme é capaz, simultaneamente, de nos fazer sorrir, como de nos revoltar as partes interiores. Balança entre o inconformismo e a fantasia, passando pelo adultério e pelo o aborto, com tal componente dramática bastante activa.



A realização, os planos estáticos de algumas cenas, tudo isso contribui para transmitir respeito pelo filme. Sam Mendes, depois do grande sucesso de Beleza Americana e Road to Perdition, arrisca-se a criar um novo fenómeno de culto, desta vez das mentes mais literatas. O argumento não é claramente inovador, mas tratando-se de uma adaptação fiel ao original, era impossível que isso acontecesse, portanto coube aos protagonistas dar um grande impulso ao mesmo.

É impossível dizer qual dos dois esteve melhor: se Kate Winslet, se Leonardo DiCaprio. Kate Winslet tem aqui uma das suas melhores interpretações de sempre, demonstrando um tremendo à-vontade em grande maioria das cenas. Desculpem-me os anti-tabagistas, mas as cenas em que a protagonista fuma um cigarro são de extrema sensualidade. O dramatismo que consegue imprimir a April Wheeler confirma Kate Winslet como uma das mais versáteis actrizes da actualidade.



Por sua vez, Leonardo DiCaprio consegue, a dada altura, roubar o protagonismo de Kate, revelando a sua maturidade e crescimento a nível profissional. A sua personagem Frank Wheeler é burocrática, complexa, rodeada entre o inconformismo e o conformismo e merecia mais a nomeação que Brad Pitt. Ao mesmo tempo, a grande surpresa surge do lado de Michael Shannon, com uma personagem alienada da sociedade, vítima de aparente insanidade, mas que revela uma sabedoria incomum, tornando-se uma figura emblemática do filme e que lhe valeu a nomeação para o Óscar de Melhor Actor Secundário.

A banda sonora de Thomas Newman, foi infelizmente afastada dos Óscares, mas consegue despoletar o intenso desconforto que é assistir ao filme. Não de uma forma negativa, mas conforme já mencionado, o filme consegue a proeza de nos revolver as entranhas e isso é de elogiar numa longa-metragem.

Revolutionary Road não é um filme que se veja todos os dias, é necessário reunir uma enorme quantidade de pré-condições visuais para se conseguir avaliar todo o conjunto. Vê-se uma vez, deixa-nos revoltados com tremendo dramatismo e deixa-nos a admirá-lo ao longo dos anos.

Classificação: