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quarta-feira, 2 de março de 2011

Um Ano Mais, por Carlos Antunes


Título original: Another Year
Realização: Mike Leigh
Argumento: Mike Leigh
Elenco: Jim Broadbent, Ruth Sheen e Lesley Manville

Mike Leigh é um dos mais revolucionários autores a fazer cinema por estes dias, apenas por filmar o que os outros rejeitam, pessoas felizes.
Era assim em Happy-Go-Lucky e assim é aqui. No filme anterior a sua protagonista era estuporadamente feliz e aqui os seus protagonistas são serenamente felizes.
Seja de que maneira for, há muito que não encontramos personagens assim no cinema, personagens que se afirmam sem ser pela angústia extremada.
Personagens plausíveis e de bem com a vida. Personagens que ninguém diria serem interessantes para sustentar um filme e que, no entanto, são das mais inesquecíveis a que temos acesso.


Tom e Gerri são duas personagens admiráveis, mesmo adoráveis (até por serem as primeiras a fazerem a piada com os seus nomes), e no entanto não são unidimensionais.
A sua aceitação da vida como ela surge, em vez da sua submissão a ela, não os torna ingénuos perante a realidade.
O acolhimento que estendem aos infelizes que orbitam em torno deles não está despojado de sentido crítico.
Eles são capazes de entregar aos outros o exemplo sereno das suas próprias vidas, mas não permitem que se aproveitem dele para os prejudicar.
Para se abraçar a felicidade não há que ser tolo nem humilhado. Não se trata de uma lição do filme, apenas uma forma simples de mostrar aquilo que o nosso sombrio cinismo tende a encobrir.


Esse sentido crítico forma-se porque nas suas vida pesam personagens que não conseguem serenar, que não conseguem encontrar satisfação em nada do que tiveram, deitando tudo a perder uma e outra vez.
A inesquecível Mary, sobretudo, por ser mais recorrente revela-se uma presença que excede o grau de disponibilidade que têm para lhe dar. Que deixa de merecer simpatia para exigir pena.
Para reconhecermos a felicidade precisamos de ver que em torno dela orbita muita tristeza.
Se bem que, por outro lado, há que reconhecer que a tristeza vem das expectativas sempre colocadas no ponto do impossível.
aceitação não é falta de sonhos ou desejos, mas a noção do ponto onde os colocar. Logo, a a felicidade pode parecer iludida, mas é a tristeza que nasce da desilusão.
São os sempre tristes que se destacam por excesso e não as personagens felizes, púdicas na sua interioridade pacificada.


Na verdade é difícil dizer quem são as personagens principais do filme. Mesmo quem tem menos tempo de ecrã tem uma presença inesquecível.
São todos actores servidos por personagens traçadas de forma cuidada e inteligente. E, por outro lado, são todos actores a servirem as personagens com o melhor da sua arte.
Jim Broadbent e Ruth Sheen são presenças majestosas, mestres que não deixam transparecer como é que definem tão bem as personagens que encarnam mesmo quando parecem não fazer nada.
No sentido oposto, Lesley Manville e Peter Wight têm de viver personagens mais convulsas e, por acréscimo, inoportunas. Mas dão-lhes dignidade e atraem-nos para um reconhecimento de pura empatia humana. A sobriedade externa do frenesi interno é o seu triunfo.


Se disse de A Rede Social que é exemplar como escrita para cinema, tenho de dizer de Um Ano Mais que é exemplar como escrita.
Dividido em quatro Estações/actos/capítulos, poderia perfeitamente ser uma peça de teatro ou um livro.
É o filme mais bem escrito de 2010, um texto que seria igualmente eficaz se estivesse nas mãos de um leitor e não na presença destes actores.
Felizmente, tanto pela vida que os actores ainda acrescentam ao texto, como pela dimensão que Mike Leigh lhe como realizador ao material que escreveu, é preferível ver este argumento assim, num ecrã.


Depois de ter recentemente (e finalmente) visto Segredos e Mentiras, apetece-me dizer que Mike Leigh regressa aos filmes que sabe criar melhor. Filmes que se apoiam no realismo para elevar personagens e situações, sempre descritas da forma mais inteligente e contundente. Regressa e sempre de forma melhorada.
Para mim não restam dúvidas, Um Ano Mais é um dos filmes que mais foi ignorado, entre público e crítica, mas um que mais retornará como citação influente do Cinema futuro.
Se havia um filme Britânico que Hollywood devia consagrar como prova daquilo que deseja mas não sabe fazer, era este.



sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Um Ano Mais, por Tiago Ramos



Título original: Another Year (2009)
Realização: Mike Leigh
Argumento:
Mike Leigh
É bastante provável que, depois de uma vasta carreira de sucessos, Mike Leigh esteja a entregar agora um dos seus melhores e mais interessantes filmes. Recebido com aclamação no Festival de Cannes – era um dos principais candidatos à Palma de OuroUm Ano Mais é um curioso objecto cinematográfico que poderá ser um catalisador de reacções em espectros bastante distantes entre si.



Mike Leigh sempre apostou numa espécie de realismo social, muito comum no cinema britânico, que desde cedo deu frutos. Começou especialmente desde High Hopes (1988), que apanhou o balanço do espírito do cinema independente (foi nomeado aos Independent Spirit Awards; veio a receber ainda mais quatro por outros filmes), mas foi com Secrets & Lies (1996) e Vera Drake (2004) que o cineasta adquiriu o seu estatuto actual. Estes dois últimos filmes valeram-lhe desde nomeações ao Óscar de Melhor Argumento Original e Melhor Realizador, bem como aos prémios BAFTA, César, Goya, Festival de Veneza e até acabar por vencer a Palma de Ouro no Festival de Cannes.

Um Ano Mais é garantidamente um dos seus mais belos filmes, pois faz do realismo o seu apanágio. Uma espécie de ode ao quotidiano, à banalidade da vida de um casal, ao passar do tempo, à vida. Tanto que durante grande parte da história não encontremos um único conflito, a não ser uma sucessão de acontecimentos banais, com maior ou menor grau de caricato, mas sempre na base da neutralidade, acabando por tomar aquela família normal como um microcosmos de todas as famílias. É praticamente inevitável que a dada altura o espectador se identifique com alguma das situações ocorridas durante o filme, porque flui de forma tão natural que é como se estivéssemos a assistir a algo real.


O casal protagonista é também ele curioso. Na verdade, estas personagens são anfitriões literais – os convidados em sua casa, ao longo de um ano, sucedem-se – mas também metafóricos, ao servirem de alpondra para que as verdadeiras questões levantadas pelo filme surjam. O casal é puramente retórico durante toda a trama, quando confrontados pelos problemas e excessos dos seus convidados são analíticos na resposta, uma espécie de apoio moral sem nunca opinar verdadeiramente – Gerri é psicóloga/assistente social, daí se pode depreender a atitude. Não quer com isto dizer que as interpretações e o papel de Ruth Sheen e Jim Broadbent na trama, não seja de louvar. Ambos já colaboraram com o realizador em filmes anteriores e o seu carisma e profissionalismo são suficientes para engrandecer todo o filme. Ambos são vistos como “santos”, embora não seja realmente assim – perto do fim encontramos o principal conflito da história – mas funcionam sempre como catalisadores das histórias secundárias. Secundárias, mas não menos importantes.

Encontramos ainda em Um Ano Mais um das mais seguras e consistentes interpretações do ano – desprezada pela Academia – que se junta ao rol de grandes actrizes e personagens do cinema de Mike Leigh. Lesley Manville, também habitual colaboradora do realizador, consegue aqui um desempenho notável – histérico e contrastante, perfeita composição de alguém em depressão, que oscila entre estados de euforia e momentos mais depressivos, culminando num clímax (ou anti-clímax?) brilhante.



Construído de uma forma simples, dividido entre estações do ano – Primavera, Verão, Outono, Inverno – um ciclo interminável, que se inicia com um nascimento e termina com uma morte como que a metaforizar o verdadeiro sentido da vida, Um Ano Mais prima pela fina barreira entre ficção e realidade a que Mike Leigh sempre nos habituou. Sensível, comovente, tocante, natural e simples. Como a vida. A família, a amizade, a alegria, a pena, o amor, o conforto, a solidão, o tempo. É um poema sobre a vida.

Classificação:

sábado, 1 de janeiro de 2011

Segredos e Mentiras, por Carlos Antunes


Título original: Secrets & Lies
Realização: Mike Leigh
Argumento: Mike Leigh
Elenco: Timothy Spall, Brenda Blethyn e Phyllis Logan
Editora: Castello Lopes Multimedia

Segredos e Mentiras é um filme construído através dos seus actores, sustentado na criação permanente em vez de numa linha condutora pré-estabelecida.
Um método comum a Mike Leigh e que exige uma capacidade elevada de quem trabalha com o realizador.
Este é um filme de grupo e, por isso mesmo, não tem um elenco mas um verdadeiro ensemble em que todos os papeís têm, mais do que a mesma importância, a mesma qualidade.
Qualidade muito elevada, que dá vida mais do que verdadeira às personagens e ao argumento muito bem escrito.
E digo vida mais do que verdadeira pois esta é moldada pelo genuíno talento dos actores, com um ritmo de desenlace mais sedutor e mais surpreendente do que a vida costuma ter.
Os actores fazem o filme que não tem um argumento que se possa resumir pois a sua importância está na consciência e nos sentimentos que se geram na dinâmica falhada da profundamente disfuncional família.
Família que tanto gera risos como gera choros. A violência dos seus silêncios - muitos deles internos, tentando convencer-se a si próprios - chega a ser caricata, mas é realmente dura.
Há, provavelmente, uma lição social - a questão da raça, se nada mais - inserida no filme, mas inserida como se ninguém lhe ligasse nada.
Isso ajuda a que o que fica por revelar, motivo de muitos choros e dos silêncios que permanecem quando chega a cena final, verdadeira catárse de grupo, tenha um impacto sobre o espectador que permanece longamente, que sugere crimes e ódios mais medonhos do que aqueles que se perpetuavam entre aqueles elementos.
Toda a envolvência destas pessoas deixa-nos um pouco como coscuvilheiros convidados para uma existência demasiado convidativa para os nossos prazeres.
Somos falsamente convencidos que pertencemos à vida de uma família que não é nossa. Isso é o resultado mais extraordinário que um filme assim "esculpido".



Extras

Sem extras

quarta-feira, 15 de abril de 2009

DVD: Vera Drake, por Tiago Ramos



Título original: Vera Drake (2004)
Realização: Mike Leigh
Argumento: Mike Leigh
Elenco: Imelda Staunton, Richard Graham, Eddie Marsan, Anna Keaveney, Daniel Mays e Sally Hawkins

Existe uma noção muito ambígua de Bem e de Mal. E a linha imaginária que os divide é mais frágil do que poderíamos calcular. Vera Drake sabe-o e como tal, a cada passo dado, a cada expressão proferida ou olhar materno com que ajuda alguém pretende dividir o espectador nessa mesma noção de Bem e Mal.



Mike Leigh tem em Vera Drake uma realização e um argumento feitos para impressionar académicos. O tema polémico do aborto é abordado de uma forma reflexiva, sem nos impor nada directamente, mas com uma mensagem subliminar de tolerância muito importante. A forma como o realizador nos coloca perante o quotidiano de Vera Drake é feita de forma a manobrar o espectador, num estilo britânico bastante realista.

A fotografia e ambientes cénicos são todos eles bastante sombrios, com algumas noções metafóricas. O mesmo se passa com a banda sonora composta por Andrew Dickson, que acaba por se revelar algo soturna.

O problema em Vera Drake é o facto de Imelda Staunton carregar todo o filme às suas costas. A sua interpretação é fantásticas, com algumas cenas onde atinge todo o expoente dramático. Não foi por acaso que ficou nomeada para o Óscar de Melhor Actriz. Não sendo isso por si só um problema, sente-se a falta de uma exploração maior das personagens do também talento elenco secundário, que não tem tanta margem de manobra como se gostaria.

A nível argumentativo, Vera Drake torna-se absolutamente prevísivel e resta ao espectador confirmar as suas expectativas, facto que se nota mais a meio do filme. Salva-se a interpretação da protagonista, que compensa esse factor.



O filme é interpretativo do cinema de Mike Leigh e confirma-o como um consistente realizador europeu, mas peca por um certo maquinismo repetitivo. Está longe de ser uma obra-prima, mas problematiza astutamente a definição do Certo e do Errado, manipulando de certa forma o espectador, sem ser uma peça de propaganda.

Classificação:

Extras:



  • Menus Interactivos
  • Índice de Cenas
  • Trailers
  • Entrevista com o Elenco e a Equipa



Classificação:

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Um Dia de Cada Vez, por Tiago Ramos




Título original: Happy-Go-Lucky (2008)
Realização: Mike Leigh
Argumento: Mike Leigh


Um modo optimista de ver o Mundo, num argumento e interpretações sobrevalorizados.

O título do novo filme de Mike Leigh, Happy-Go-Lucky, é uma expressão inglesa que define o género de pessoas que passam pela vida sem grande preocupações e genuinamente felizes. Assim se retrata Poppy, uma jovem professora da primária, para quem os lados menos bons da vida não lhe causam grandes preocupações, de espírito colorido e visão optimista. Este é o mote para o argumento de Mike Leigh, que surpreendentemente tem vindo a arrecadar vários prémios nos últimos meses e com direito a uma nomeação para os Óscares da Academia.

A película representa uma nova abordagem do trabalho do realizador que já recebeu seis nomeações para o Óscar e que nos trouxe filmes como o aclamado Vera Drake. Apesar dos holofotes a que tem sido submetido é, para mim, mais uma obra sobrevalorizada, devido ao nome sonante do realizador que carrega. Happy-Go-Lucky é uma comédia despreocupada, incoerente e irracional. O filme é um ensaio sobre a educação e a aprendizagem e de como o mesmo ensino, pode libertar ou prender uma pessoa. Por outro lado, contraria a miséria e a depressão presente em outros filmes do realizador, num retrato colorido dos despreocupados e livres. E se o argumento apresenta algo de bom é unicamente essa noção que podemos passar por uma vida de stress, mas com uma perspectiva optimista e divertida do futuro.

Um Dia de Cada Vez cansa logo de imediato. Tenta fazer valer-se do conhecido humor non-sense britânico, mas ridiculariza-se demasiado a si próprio, com diálogos repentinos que perturbam o espectador devido à sua noção ilógica e de pouco interesse narrativo. Aliás, o filme não apresenta um encadeamento narrativo de evolução, aparentando formar-se apenas de gags descontraídos e irracionais.

A personagem de Sally Hawkins apresenta um vazio ingénuo, que se degladia constantemente com a sua competência e profissionalismo. O seu desempenho já lhe valeu inúmeros prémios mundiais, incluindo o Globo de Ouro para Melhor Actriz de Comédia, o Leão de Prata em Berlim e dezenas de outros prémios. A actriz encarna bem a tarefa que tem à sua frente, pena que a sua personagem não mereça sinceramente o esforço. A personagem leva o espectador à exasperação constante e se era isto que o realizador pretendia, conseguiu. Por outro lado, o actor que a meu ver merece algum destaque será Eddie Marsan, que ganhou os British Independent Film Awards para Melhor Actor Secundário em 2004, por Vera Drake e agora por Happy-Go-Lucky. Os únicos momentos em que o filme finalmente me conseguiu arrancar algum sorriso (ou esgar, pelo menos) foram aqueles em assistimos ao seu caótico método de ensino En-Ra-Ha e às suas disputas com Poppy; pena que facilmente nos conduzam à exaustão.

Happy-Go-Lucky é, a meu ver, constantemente sobrevalorizado. Não pretendiamos uma comédia americana e comercial, mas também não é agradável o seu contínuo despropósito desconcertante. Vale pela sua moral de aprendizagem. Porque ser feliz e encarar o mundo de forma optimista pode ser aprendido.