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segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Trabalho de Actriz, Trabalho de Actor, por Tiago Ramos



Título original: Trabalho de Actriz, Trabalho de Actor (2011)
Realização: João Canijo
Distribuidora: Midas Filmes


É difícil avaliar Trabalho de Actriz, Trabalho de Actor como um documentário normal. Até porque se a estrutura de entrevistas de carácter quase televisivo existe (tal como num formato padronizado daquilo que o senso comum diz ser um documentário), a verdade é que a crueza do seu material bem como a sua intenção toldam a sua avaliação. É difícil avaliar o filme, sem estar a avaliar o seu conteúdo e propósito.

O que dizer então de Trabalho de Actriz, Trabalho de Actor? Como documentário isolado e tendo em conta a sua estrutura pouco há a dizer. Este limita-se a ser um aproveitamento de material relacionado com Sangue do meu Sangue. Mas na verdade e dentro do seu contexto, o material é altamente rico e interessante. Especialmente porque João Canijo - à semelhança do britânico Mike Leigh - parte do conceito que a escrita de um argumento não tem de ser um acto solitário, mas sim partilhado. À parte de um esboço inicial, todo o argumento do filme foi construído em conjunto com os actores do filme, que durante um ano se reuniram para falar sobre aquilo que queriam fazer com as suas personagens, alinhando ideias sobre os diálogos e cenas, com sessões de discussão e posteriores improvisações que culminavam na cena final.

O interessante em Trabalho de Actriz, Trabalho de Actor depende obviamente do interessante do espectador em saber mais, em conhecer o trabalho por detrás da escrita do argumento para um filme ou do trabalho de actores. Mas permite-nos também perceber a qualidade dos actores que temos e que tantas vezes menosprezamos. Caso particular de Rita Blanco, Rafael Morais, Nuno Lopes, Anabela Moreira, Beatriz Batarda, Cleia Almeida, Marcello Urgeghe e Vera Barreto. Cada um com o seu método de trabalho - por exemplo, para Rita Blanco a improvisação é um acto primário - imprimindo a sua própria visão à construção das personagens. Anabela Moreira, por exemplo, foi viver para a casa onde vivia a sua personagem. Várias personagens estagiaram inclusive no local onde as suas personagens trabalhavam. Um trabalho longo e exaustivo que permitiu fazer de Sangue do meu Sangue um dos melhores filmes do ano, com um argumento brilhante, especialmente nas nuances de cada uma das histórias da trama.

Trabalho de Actriz, Trabalho de Actor divide-se em diversos capítulos, todos eles completos e ricos, que podem servir de ponto de partida para uma aprendizagem interessante tanto para cinéfilos, como também para profissionais da área, entre os quais actores, realizadores e argumentistas. Um material sem qualquer polimento, mas bom demais para ser desperdiçado e que a Midas Filmes soube aproveitar.



Classificação:

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Sangue do meu Sangue, por Tiago Ramos


Título original: Sangue do meu Sangue (2011)
Realização: João Canijo
Argumento: João Canijo

Escusamos de perder tempo desde já com palavras desnecessárias e ir directamente ao que interessa: Sangue do meu Sangue é o evento cinematográfico português do ano e um dos melhores a estrear desde há muitos anos. João Canijo sempre trabalhou como poucos neste país, mas parece que há aqui algo de muito especial e diferente que se traduz num hype raras vezes visto no cinema português. Hype esse perfeitamente justificado e superado facilmente pela obra que se nos apresenta.

João Canijo sempre foi um digno cineasta adepto do realismo social, dedicando-se sobretudo à tragédia grega no interior rural do país (Ganhar a Vida (2001), Noite Escura (2004) e Mal Nascida (2007) mas aqui o que vemos é mesmo a realidade e sobretudo, apesar da miséria que encaramos, não é uma tragédia. Dentro de uma inevitável falta de esperança, este é o filme mais positivo do autor. Não quer com isto dizer que abdique do drama social, do realismo, mas também nunca cai no melodrama novelístico (muitas vezes encaramos um ponto de vista quase clínico) e sobretudo, dentro da iminente tragédia, ela nunca chega na realidade a acontecer, porque finalizamos Sangue do meu Sangue com um senso de redenção. E sobretudo com uma mensagem positiva de amor incondicional.

Em Sangue do meu Sangue encontramos uma forma diferente de trabalhar, um método longe do sentido plano que habitualmente encontramos no cinema e televisão portugueses. Aqui vemos texturas, enquadramentos fabulosos e narrativas simultâneas, com diálogos simultâneos, a obrigar o espectador a escolher qual seguir, enquanto lá fora (ainda numa terceira acção) numa casa paralela se ouve um casal (real e não ficcionado) a discutir. Isto é a vida. É a realidade, a vida com mais que um acontecimento em simultâneo, não escolhe, não selecciona, não reparte. João Canijo também não. Porque ele sabe, sobretudo, retratar a vida e o país em que vivemos, com múltiplas referências à nossa identidade nacional, seja ela através das profissões, da comida ou da música.

O espaço familiar comum ao cinema do cineasta é aqui ainda mais rico que o habitual, especialmente porque o argumento foi construído não só através de João Canijo mas também pelos próprios actores, que criaram e desenvolveram as personagens. Um Mike Leigh português. Um excelente trabalho de direcção de actores, embora o cineasta não goste desse título. Um dos elencos mais soberbos dos últimos anos, com interpretações fabulosas, especialmente as femininas. Rita Blanco, a quem qualquer papel lhe assenta como uma luva, a interiorizar uma mãe capaz de tudo para salvar a filha (Cleia Almeida) de uma tragédia e uma tia – interpretada por Anabela Moreira - (personagem riquíssima, cabelereira, de vida desinspirada e que se sente inútil para todos) capaz de se sacrificar perante um dealer (Nuno Lopes) para salvar o seu sobrinho (Rafael Morais). História nua e crua, mas que não permite ao espectador desviar o olhar um único segundo – veja-se a estarrecedora cena final entre Anabela Moreira e Nuno Lopes. E pensar que tudo isto se passa no Portugal real, no nosso país, porta ocidental da Europa, na capital do país, na Europa. O Bairro do Padre Cruz é um microcosmos assustador, de onde sairá o futuro do nosso país (há futuro ali?), onde se vive encurralado entre paredes meias a mais desgraça e desalento. Mas nem por isso se vive uma tragédia inevitável ali, há sempre um sentido de esperança, há sempre amor e também humor, perante estes retratos únicos da vida.

E muito haveria para dizer sobre Sangue do meu Sangue mas nada seria suficiente. Daí que este é um filme para ser visto, revisto e assimilado. Uma obra-prima, o melhor filme de João Canijo, um dos grandes filmes portugueses de sempre.


Classificação:

terça-feira, 18 de maio de 2010

Fantasia Lusitana, por Tiago Ramos



Título original:
Fantasia Lusitana (2010)
Realização: João Canijo

João Canijo sempre se mostrou como um dos realizadores portugueses que melhor retrata o país em que vivemos. E dentro desse espírito retratista, sempre primou pelo sentido crítico que imprime nas suas obras, algumas delas bastante trágicas como o caso de Noite Escura (2004) e Mal Nascida (2007). Saindo da ficção e centrando-se num documentário, inicialmente sugerido como sendo sobre os refugiados em Portugal nos anos 40, João Canijo imprime o seu cunho pessoal numa obra que só pelo seu título - Fantasia Lusitana - indica qual o seu objectivo.



João Braz, montador de Alice (2005), faz um trabalho virtuoso sob a direcção do realizador (juntamente com toda a equipa responsável pela pesquisa) em seleccionar e editar as imagens e testemunhos. E são precisamente essas imagens que fazem a ideia funcionar, elas falam por si, estabelecem o contraponto entre a sociedade salazarista do pós-Segunda Guerra Mundial e a sociedade contemporânea.

«Tudo pela nação», assim começa e de uma forma subtilmente irónica, o retrato de uma propaganda que vendia Portugal como um país de paz e neutralidade, numa altura em que era um ponto de passagem para inúmeros estrangeiros e refugiados. As imagens de um Portugal triunfante em contraponto aos testemunhos reais e à narração, criam um equilíbrio interessante entre aquilo que era dado a crer e a realidade da situação portuguesa. O Fado, o Futebol e Fátima. Os três efes que faziam de Portugal um país aparentemente melhor e que subitamente se havia tornado cosmopolita, uma espécie de circo mediático, com direito a exposições de cariz mundial, onde o engenho e a arte portugueses eram celebrados.



E num país onde todos eram fingidores, não deixa de ser irónico que sejam precisamente os estrangeiros a encontrar, neste local, um sentimento de irrealidade. Os testemunhos de nomes como Antoine de Saint-Exupéry e Alfred Döblin revelam que, na verdade, a imagem passada para fora era que, para além do calor, do património cultural, não havia nada. Havia apenas um país de pessoas excêntricas, quase primitivas, onde o ruído era insuportável e onde homens, mulheres e crianças cuspiam no chão. Um desfile, uma parada de suposições, de fantasias, de um povo por demais iludido.

Não deixa de ser também irónico - e sem querermos desenvolver quaisquer pretensões políticas - que o sentimento que se gera no espectador (mesmo o que não viveu na época relatada no docuemntário) é o de identificação com a época e com as imagens. É este contraponto à propaganda do Estado Novo e à situação portuguesa actual que faz de Fantasia Lusitana um retrato irónico, mas acutilante, do povo português. E daí que nos faça bem, por vezes, rirmo-nos de nos próprios e termos a partir de filmes como este, um ponto de reflexão para o futuro.

Classificação: