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domingo, 3 de fevereiro de 2013

Nomeados ao Óscar 2013 de Melhor Filme Estrangeiro, por Tiago Ramos


Produções de dois países escandinavos, de um país da Europa Central, de um da América do Sul e outro da América do Norte, perfazem o rol de cinco nomeados ao Óscar 2013 de Melhor Filme Estrangeiro. De todos os países, a Áustria já foi previamente nomeada três vezes e venceu uma; a Noruega foi nomeada por quatro vezes (sem qualquer vitória); o Canadá foi nomeado à categoria já por sete vezes (com uma vitória); a Dinamarca já foi nomeada oito vezes (vencendo por três ocasiões) e o Chile nunca tinha recebido qualquer nomeação na categoria até agora. Dentre os nomeados deste ano, qual o vosso preferido à vitória?

 Amour, de Michael Haneke Uma estrelaUma estrelaUma estrelaUma estrelaUma estrela


O que dizer de um filme que manipula o espectador do início ao fim? Michael Haneke fá-lo de uma forma clínica e cínica, mas também terna, com um retrato da intimidade de um casal, à medida que definham e sucumbem à crueldade da natureza da vida. Uma obra-prima, devastadora e austera, sobre o amor abnegado, com duas das melhores interpretações dos últimos anos. Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva trabalham de uma forma harmoniosamente naturalista, mesmo quando estão perante acções rotineiras, bastando-lhes para isso simples expressões faciais e corporais. São eles que conectam o processo de Haneke em nos manipular perante o simultâneo sofrimento e amor. [Crítica completa]

 Kon-Tiki, de Joachim Rønning e Espen Sandberg Uma estrelaUma estrelaUma estrela½


O que mais surpreende aqui são os elevados valores de produção para uma longa-metragem europeia. A dupla de noruegueses trabalha um filme de aventuras como em Hollywood, com o devido cuidado técnico, mas também com uma história coerente e cativante, mesmo que por vezes simplista. Histórias de explorações marítimas não são raras no cinema (a expedição do Kon-Tiki já foi também alvo de um documentário premiado nos Óscares) e esta não é excepção em seguir os habituais padrões do género. Não é também menos por isso que devamos ignorar o objecto de entretenimento que é este filme, incluindo momentos de tensão adequados e uma banda sonora que injecta a dose certa de sentido de aventura. É a antiga história de homem versus elementos da Natureza, num formato competente.

 No, de Pablo Larraín Uma estrelaUma estrelaUma estrelaUma estrelaUma estrela


Depois de duas críticas subtis ao regime de Pinochet (Tony Manero e Post Mortem), Pablo Larraín regressa ao mesmo tema, mas de uma forma bem mais evidente e através de um dos melhores filmes do ano. A câmara assume um tom documental (uma excelente fotografia saturada e em formato 4:3) ao seguir os eventos que conduziram ao referendo de 1988 no Chile, que decidiria se Augusto Pinochet continuaria no poder até 1997. O cineasta foca-se na campanha pelo "Não" e no formato revolucionário que esta assumiu, ignorando os habituais trâmites de campanha política (especialmente as dos regimes dictatoriais) e adoptando uma estrutura mais próxima do anúncio publicitário, num tom positivo e optimista em relação ao futuro no país. Um testemunho forte da ditadura e repressão política, ao mesmo tempo que segue de forma emocionante a história de René Saavedra (num excelente desempenho de Gael García Bernal), criador da campanha pelo "Não".

Drama de forte carácter político sobre a história das crianças violentamente afastadas da sua família para serem treinadas como soldados, na África subsariana. O olhar é feito sobre uma menina que é raptada aos 12 anos para servir num exército rebelde. Emotivo, mas chocante, o filme é liderado pela forte interpretação da jovem Rachel Mwanza (no seu primeiro trabalho) que conduz o espectador para a essência cruel da história. É a destruição completa da inocência de uma criança que tenta sobreviver perante um mundo brutal, sem qualquer moral ou ética. Destaque para o trabalho de fotografia e de mistura de som que só ajuda a inserir o espectador neste ambiente e história provocadores e cruéis.

Produção de época, tecnicamente magistral (magnífico design de produção e que envergonha muitas grandes produções de Hollywood), numa narrativa cativante e apaixonante. O trio de protagonistas (Alicia Vikander, Mads Mikkelsen e Mikkel Boe Følsgaard) são o tour de force desta história de manipulação, amor e revolução, que acabou por marcar a Dinamarca como uma sociedade pioneira e avançada a nível científico e cultural.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Amor, por Tiago Ramos


Título original: Amour (2012)
Realização: Michael Haneke
Argumento: Michael Haneke
Elenco: Jean-Louis Trintignant, Emmanuelle Riva e Isabelle Huppert

Há, ao início, uma sensação de libertação. Não sabemos ainda que tipo de libertação é, mas arrombam-se portas, abrem-se janelas, cortinas esvoaçam e o espectador sente-se subitamente livre. Mas pouco a pouco, o espectador apercebe-se que essa libertação não é a sua, porque o plano corta e, em breve, as portas daquela casa onde nos encontramos fechar-se-ão. A partir daí a câmara de Michael Haneke não nos deixa sair ficamos aprisionados naquela casa, com aquelas personagens e cada vez mais presos. Há personagens que entram, mas rapidamente saem ou são convidadas a sair. Há um pombo que entra, mas acaba por sair. E enquanto isso acontece, o espectador fica sempre ali. A câmara não o deixa sair. Talvez o deixe vislumbrar a rua pela janela. Brevemente, tal como a protagonista. E o espectador é tão íntimo daquelas personagens quanto elas mesmas. Haneke é manipulador e clínico, como sempre e nós deixamos. Mas ao mesmo em Amour está um dos seus trabalhos mais (cruelmente) ternos de sempre. Aquilo que o seu argumento faz é colocar-nos perante um dos mais abnegados exemplos de amor e convivência conjunta, à medida que ambos definham perante a velhice, doença e a dor. É cruel e ao mesmo tempo tão incrivelmente terno e afectuoso, porque a crueldade nunca é daquelas personagens, - há apenas um desejo de ser livre, de ambos os lados - a crueldade vem da inevitabilidade da nossa natureza. Essa natureza tão incrivelmente genuína nunca poderia ser possível sem duas das melhores interpretações dos últimos anos. Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva trabalham em conjunto de uma forma tão harmoniosa e absolutamente naturalista, evidente perante os seus gestos e expressões aparentemente tão rotineiros como assistir a um concerto, preparar uma refeição, vestir-se ou olhar-se. O olhar daquelas duas personagens é tão incrivelmente sentido, carinhoso e tão humanamente sensível que chega a ser impressionante a forma como transformam esses mecanismos ritmados em mais do que meras acções. São eles que conectam o processo de Haneke em nos manipular perante o sofrimento (e simultâneo amor) daquelas personagens. São eles que perante a óbvia rigidez formal do cineasta, ligam a essência da história.

Amour é um retrato da intimidade de um casal, um retrato clínico da verdadeira essência humana daquelas personagens, à medida que naturalmente definhem e sucumbem à crueldade da vida. Uma obra-prima humana e simplesmente devastadora que nos é revelada  pela visão habitualmente austera do cineasta austríaco. À medida que avançamos para o fim da narrativa, a sensação de libertação (a mesma com que nos confrontamos no início) começa a sentir-se. Há personagens que saem. Há quem se torne de facto livre. Há quem se liberte. Mas da mesma forma que aquela porta se abre e se sente a libertação, ao espectador não lhe é dada essa oportunidade. A porta tranca-se e com ela ficamos nós, fechados naquela salas (a câmara severa não nos deixa sair), naquelas paredes e a nós, voyeuristas forçados e intrometidos, não nos é dada oportunidade de libertação. E agradecemos, porque fomos expostos a um dos filmes mais cruelmente belos do Cinema.


Classificação:

segunda-feira, 15 de março de 2010

O Laço Branco, por Carlos Antunes


Título original: Das weisse Band
Realização:
Michael Haneke
Argumento:
Michael Haneke
Elenco: Christian Friedel, Ernst Jacobi, Leonie Benesch, Ulrich Tukur e Ursina Lardi

O laço branco que as crianças transportam serve de recordação à pureza que lhes é exigida.
Mas é também uma grilheta que eles têm de carregar, a grilheta dos velhos ensinamentos, das pressões que não levam em conta as características das crianças, a grilheta da rejeição da sua individualidade e das suas necessidades.
A educação que lhes dão não lhes proporciona aquilo por que anseiam e aprenderão a libertar-se das formas mais abjectas.


Daí que a fotografia a preto e branco de Michael Haneke seja também tão limpa, sem um pequeno grão, tornando o ambiente opressivo e não idílico como se poderia pensar.
A opressão que as crianças sentem - mas também, como veremos, todo o povo trabalhador da aldeia sempre ao serviço do barão - predispõe-nas para a vingança violenta, para o silêncio mentiroso e para a consciência (ou falta dela) colectiva.
Três factores dominantes para um servilismo acrítico de causas vazias.


Dizem, certamente com razão, que as crianças podem ser muito mais crúeis que os adultos, algo que vemos bem quando a vingança de um adulto se processa contra um campo de couves e a das crianças contra um deles próprio, ganhando contornos mais extremos quando se trata de uma criança deficiente que nada tem a ver com as exigências que lhes fazem.
Ou talvez tenha, pois ele, na sua ingénua existência, atinge tudo aquilo que lhes exigem sem esforço ou determinação. Vive a feliz ignorância de nada lhe exigirem.


Este pensamento de vingança contra um "bode expiatório" é resultado da opressão em que estas crianças crescem, desde logo predispondo-as a um futuro de violência que o filme anuncia no seu final, o do nazismo alemão.
Mas, contradição das contradições, eles que não queriam seguir as ordens que lhes davam, acabam por se organizar num grupo que segue a vontade geral e não tem espaço para a individualidade de escolha - caso contrário essa criança sofrerá as consequências - e preparam-se para o continuar a fazer.


A responsabilidade da educação é um tema tão presente no filme como a própria ideia de que a extremada pureza pode ser a maior fonte de maldade que se encontra.
Michael Haneke conseguiu, mais uma vez, reflectir ferozmente num filme seu sobre temas que não se podem ignorar, sem nunca desprezar a essência cinematográfica do meio onde se expressa.
Temas que, desta vez, falam tanto do passado, como do presente que o tende a repetir.



terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Brincadeiras Perigosas (1997), por Tiago Ramos



Título original: Funny Games (1997)
Realização: Michael Haneke
Argumento: Michael Haneke
Elenco: Susanne Lothar, Ulrich Mühe, Arno Frisch e Frank Giering

A violência é um dos assuntos por demais explorados na indústria cinematográfica. Mas em Brincadeiras Perigosas essa temática atinge proporções diferentes. Sim, aqui a violência é ela verdadeiramente gratuita. Justificada? Também. Mas não deixa de ser gratuita. Isto porque Michael Haneke – cineasta singular na forma visceral com que filme – entrega-nos um retrato da violência contemporânea, um ensaio visceral sobre as motivações humanas. Afinal precisaremos nós de motivação?



Afinal o motivo não é nada mais que entretenimento. Entretenimento violento a que somos submetidos, que nós próprios infligimos às vítimas, que nós próprios sofremos. Em Brincadeiras Perigosas não somos espectadores. Somos tanto os autores, como as vítimas. Fazemos sofrer e sofremos, como se vestíssemos duas peles simultaneamente, como se nos transfigurássemos perante o ecrã. Os responsáveis por tal violência nunca são claramente apontados – não interessa – porque o temos aqui é a visualização mais horrenda e crua de violência injustificada. Somos tão culpados quanto Paul e Peter. Todos reagimos às piscadelas no ecrã, todos correspondemos à aposta porque ficamos ali até ao fim para ver quem ganha. Quem sobrevive e quem morre. Porque no fim de contas todos gostamos de brincadeiras perigosas. Porque somos tão voyeurs quanto eles, porque nos sentimos culpados pela nossa passividade. Não há meias medidas: somos cúmplices!

Em Brincadeiras Perigosas a violência não é graficamente expressa. O pouco que vemos é prontamente ocultado. A violência a que assistimos é emocional, aguda e torturante. É manipulação das vítimas, é a nossa própria manipulação. Isto porque Michael Haneke permite às suas personagens o controlo da situação e corrigirem o desenrolar da narrativa à sua própria vontade, o que só contribui para a angústia do espectador. Sádico e humilhante.



Muita da culpa que carregamos às costas é-nos imputada pela câmara do cineasta. Fria, calculista, crua, reflexiva e irónica. Os planos são reais, estamos ali, a câmara empurra-nos para o centro da cena. Jürgen Jürges (Código Desconhecido) contribui por através do exercício da cinematografia, conseguir provocar no espectador uma sensação claustrofóbica e fria, tal como a estimulada pelo argumento. Susanne Lothar (O Laço Branco) é exemplar na construção do seu papel que demonstra bem a perda da sensação de segurança irredutível no seu lar. Bem como Ulrich Mühe (A Vida dos Outros) que confirmou o seu potencial enquanto actor, que poderia ter facilmente projecção internacional. Por fim, a dupla principal (Arno Frisch e Frank Giering) é magnífica na forma como opostos se complementam na falta de escrúpulos e no modo como brincam com os espectadores. Não são grandes exercícios de desempenho que enaltecem este filme, mas na verdade basta-nos a expressão escarnecedora com que encerram cada sua acção.



O final deixa-nos perturbados, incomodados. No fim de contas, tivemos tanta culpa quanto eles e ficámos até ao fim, fosse qual ele fosse. A reflexão exige-se e Brincadeiras Perigosas tinha muito por onde podíamos meditar.

Classificação:


domingo, 17 de janeiro de 2010

O Laço Branco, por Tiago Ramos



Título original: Das weisse Band-Eine Deutsche Kindergerschichte (2009)
Realização: Michael Haneke
Argumento: Michael Haneke
Elenco: Christian Friedel, Ernst Jacobi, Leonie Benesch, Ulrich Tukur e Ursina Lardi

Independentemente da época do filme, há uma coisa transversal a Michael Haneke: a crueldade com que filma. O poder da subversão, a maneira como filma a maldade, a forma intensa como escreve, a sensação de "murro no estômago", a crítica à sociedade em convulsão. Em O Laço Branco essa é muito evidente: nas vésperas de uma revolução social a nível global, como a I Guerra Mundial, o que Michael Haneke nos revela não é o cerne do movimento que lhe deu origem. O cineasta alemão leva-nos para uma aldeia insuspeita: tanto quando as searas de trigo a rodeiam como quando cheia de neve. Branca. Pura, inocente. Tal como o que o laço branco recorda.



Uma disciplina castradora, os dogmas religiosos autoritários, uma moral restrita. E as crianças que a sofrem e sentem - alguns sem a perceberem muito bem - amarrados fisicamente e moralmente a uma rigidez que lhes esculpirá a personalidade com o martelo e o escopro da violência e da condenação. A liberdade não existe nesta aldeia alemã, não existe esperança nem salvação. Todos sucumbirão a esta disciplina. Mesmo os mais novos, aparentemente ingénuos. Até porque o que aqui a câmara filma são as crianças. Crianças essas que, dizem, são o nosso futuro. Mas aqui o futuro é negro. Ou melhor: é branco. Um branco falso, mascarado.



Porque Michael Haneke filma as contradições humanas (como só ele sabe). O contraste. E por isso mesmo o preto e branco, porque evidencia mais o contraste humano. Uma fotografia sublime, gélida, realista e credível da autoria de Christian Berger (La Pianiste), habituado a filmar a violência visual do cineasta. Já o argumento de Michael Haneke será um dos mais completos que chegarão aos cinemas portugueses este ano, isto porque a forma como ele questiona a sociedade e as normas com que vivemos, a visão pouco esperançosa com que atinge o espectador e a pretensa moral dos adultos que tornam as crianças escravas de uma moral intransigente, é única e singular. Mas muito verdadeira.

O elenco, onde nenhum se destaca individualmente, mas todos se destacam enquanto totalidade, enquanto personagens-tipo daquilo que são as consequências do ensino. Uma direcção artística e um casting perfeitos garantem ao filme esse realismo que era pretendido.



A estas crianças é-lhes privada a pureza. Mesmo que - aparentemente - lhes seja exigida. A sua condição garantia-lhes liberdade, mas essa também lhes é privada. Estão condenados a esta espiral de ódio que os contamina, que lhes imprime maldade no corpo e na mente, que os molda, que toldará a sociedade que formarão de seguida. Michael Haneke não lhes garante nada mais que a condenação porque foi isso que lhes foi ensinado, porque a isso as obrigaram. Esta violência implícita como sempre soube retratar provoca em O Laço Branco, o efeito "murro no estômago" como poucos. Provoca a nossa própria condenação, deixa-nos quase sem esperança. Mas obriga-nos a uma reflexão sobre o nosso próprio futuro e sobre o poder da palavra.

Classificação: