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quinta-feira, 26 de abril de 2012

Into the Abyss, por Tiago Ramos



Título original: Into the Abyss (2011)
Realização: Werner Herzog

O alemão Werner Herzog regressa aqui aos temas que sempre e de forma consistente o preocuparam: a vida, a morte, a dor e a tragédia. Temas complexos, tratados com subtileza - mas que não se coíbe de mostrar claramente os factos - sempre ligados a um teor de certo modo filosófico e de debate que o cineasta gosta de imprimir aos seus trabalhos documentais. Já assim o era e de um modo muito mais factual no recente Cave of Forgotten Dreams e que estreou nas salas portuguesas no início do ano e em Into the Abyss continua esse seu questionamento da vida. Centrado no triplo homicídio que levou o norte-americano Michael Perry ao corredor da morte e posterior execução no Texas, o tom do documentário é sempre preciso, seco e simultaneamente comovente, mas sem nunca se aproveitar da dor e sofrimento alheios para pura exibição.

Onde ganha em sensibilidade, Into the Abyss perde em foco, já que inicialmente não percebemos bem qual a sua intenção, quando ainda no prológo questiona ao capelão da prisão «Porque Deus permite a pena capital?» ou quando expressa francamente a sua opinião contra a pena de morte por «respeito ao ser humano». Contudo, gradualmente vamos percebendo que apesar de manifestar a sua opinião acerca dos temas - como aliás costuma fazer - a amplitude de intenções é maior, quando subtilmente questiona todo um poder político que vai desde questões administrativas, passando por temas como educação e família. O formato documental de perguntas e respostas resulta aqui porque mesmo quando aparentemente questiona temas corriqueiros, Werner Herzog é subtil e certeiro na captação da tragédia da situação e ao mesmo tempo no humor involuntário e sinistro, que apenas denuncia um sistema cheio de falhas. Não se trata aqui de justificar um horrendo e violento homicídio triplo ou, de forma panfletária, opôr-se à pena de morte, trata-se sim de questionar o sentido da vida e expor lado a lado e de modo imparcial a mesma questão: o homícidio cometido pelo criminoso e o cometido pelo Estado ao condená-lo à morte. É o mal estar de uma sociedade injusta e desigual vista pela lente de um cineasta que procura também ele o sentido da vida.


Classificação:

terça-feira, 13 de julho de 2010

Meu Filho, Olha o Que Fizeste!, por Carlos Antunes




Título original: My Son, My Son, What Have Ye Done
Realização: Werner Herzog
Argumento:
Werner Herzog e Herbert Golder

My Son, My Son, What Have Ye Done é um filme com uma estranheza verdadeira mas parece que será errado classificá-la à luz da obra do seu produtor David Lynch.
My Son, My Son, What Have Ye Done não é feito da mesma abstracção, até um grande ponto metalinguística, dos filmes mais extravagantes de Lynch.
O que não quer dizer que My Son, My Son, What Have Ye Done não seja um filme a espaços auto-consciente do olhar externo que lhe é lançado.
Há uma teatralidade - ou não houvesse também uma tragédia grega a decorrer filme dentro - que encara o espectador, exigindo que este faça a sua quota-parte no engendrar deste filme.


Mas o filme é um relato - e não uma explicação, firme-se a diferença - de um homem a caminho da transformação e da loucura que o leva a matar a mãe com uma espada da Guerra Civil e a fechar-se em casa e enfrentar a polícia.
A estranheza não vem da forma como a narrativa é montada nem de uma escolha de episódios por vezes quase antagónicos. Isso são consequências da personalidade e das acções da personagem central.
A estranheza nasce da interpretação dessa personagem por Michael Shannon, abstraído da realidade, como se interpretar não fosse senão abdicar de si mesmo.
A sua interpretação não é, no entanto, absoluta - como, em certa medida, era a de Nicolas Cage em Polícia Sem Lei - mas tem o suporte de um conjunto de actores de culto que com muito pouco fazem tanto (inclusivé ou sobretudo pela personagem central)!


E, ainda assim, a My Son, My Son, What Have Ye Done, que tem pequenas histórias interessantíssimas, que tem planos de câmara inteligentes e arrojados e que não se rende à conformidade narrativa, falta-lhe ainda algo.
Falta-lhe uma centelha mais forte, um arrojo súbito que não seja apenas o da estranha fixação por flamingos e galinhas.
Há uma certa indulgência pelo efeito que o filme vai criando em torno de si mesmo que não o permite ser o que mais se esperaria que fosse.
O espectador está no filme sem ser conduzido nem sujeito a expectativas banalizadas pela indústria cinematográfica, mas desta vez também não se galvaniza.



domingo, 6 de junho de 2010

Polícia Sem Lei, por Carlos Antunes


Título original: The Bad Lieutenant: Port of Call - New Orleans
Realização: Werner Herzog
Argumento: William M. Finkelstein e Victor Argo
Elenco: Nicolas Cage, Eva Mendes e Val Kilmer

Chamem-lhe remake, recriação, reinterpretação ou qualquer outro nome que queiram, mas Herzog criou uma obra de valor próprio a partir dos traços gerais da personagem do filme de Abel Ferrara.
Uma obra diferente, com uma força própria e cujas maiores semelhanças com a obra "original" está na entrega e sintonia dos seus actor principal e realizador.


Este Polícia Sem Lei não é uma viagem até à alucinação, é uma viagem alucinada desde o início, com a mais intensa energia a libertar-se do seu interior desde o início.
Uma viagem repleta de répteis de todos os géneros, de almas dançantes e de efeitos de luz. Uns reais, outros obviamente que não.
Num cenário desolado e repleto de situações inesperadas tudo pode acontecer, ainda para mais se a percepção de quem encara tal cenário se encontrada alterada. Um cenário precisamente escolhido, um cenário que parece estar de acordo com o estado alucinado do protagonista.


A diferença para o filme de Ferrar está, depois, no final da viagem, onde uma estranha porção de luminosidade parece poder incidir sobre o protagonista e sobre o seu cenário.
A viagem dele iniciou-se com a ruína do que o envolvia, talvez possa terminar com a sua regeneração.
Mas durante o tempo que as permeia, aquilo que acompanhamos é de uma loucura e de uma brutalidade total, fantástica, enérgica.
A culpa é, como já dissera, de Herzog e de Cage.


A interpretação de Nicolas Cage extravasa-o. Ele consegue uma mutação física que nasce do seu interior e que o torna num gigante disforme completamente inadaptado ao mundo à sua volta.
O seu estado narcótico e alucinado parece absolutamente real ao longo de todo o filme. Ele não deixa uma impressão no público, ele obriga-nos a um estado de absorção do que faz no ecrã.
Herzog dá-lhe espaço, dá-lhe ângulo, dá-lhe disposição e dá-lhe luz para que ele seja aquilo que precisa de ser para concretizar esta personagem.
A sintonia deles é um filme grandioso, radical e inesperado. Não vemos tudo isto no cinema muitas vezes em tempos recentes.