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quinta-feira, 3 de maio de 2012

Alps, por Tiago Ramos



Título original: Alpeis (2011)
Realização: Giorgos Lanthimos
Argumento: Giorgos Lanthimos e Efthymis Filippou
Elenco: Aris Servetalis, Johnny Vekris, Ariane Labed, Aggeliki Papoulia e Stavros Psyllakis

Depois de Dogtooth (2009), Giorgos Lanthimos carrega em si o peso da referência à chamada "estranha onda grega", quase um novo género de um cinema carregado de surrealismo a abstracção que aparentemente se viu continuado pelo recente Attenberg (2010). Em Alps, tenta-se recuperar esse peso narrativo de Dogtooth ao assumir-se um tom bizarramente cómico, com planos de câmara enviesados e um absurdo que remete para o cinema de Luis Buñuel. Embora não consiga atingir a genialidade do trabalho anterior, há aqui muito mais para além da tentativa de superar esta expectativa. Desde logo o magnífico jogo de reencenações de vidas alheias que permite uma imediata associação (propositada ou não) a uma alegoria referente aos problemas de identidade de uma sociedade que lida com uma dramática crise económica. Em Alps, as personagens condenam-se voluntariamente às almas dos outros, entregam-se e reencenam as suas vidas para alívio das suas famílias que os viram partir. Enquanto assumem falsas identidades, lidam com a sua própria crise emocional e de identidade, num jogo obsessivo e viciante, marcado pelas habituais e próprias obsessões do seu realizador com a cultura pop e pelo alienismo. Joga-se com a imagética para equilibrar esse trabalho, especialmente com recurso à fotografia descentrada e oblíqua de Christos Voudouris. Essa exploração da identidade é muito bem trabalhada pelos actores, especialmente por Aggeliki Papoulia que comprova mais uma a fantástica qualidade do seu trabalho como actriz.

O maior e único problema em Alps é o facto de não marca um passo em frente na carreira do realizador grego e de um quase pastiche de Dogtooth. Nada de grave se pensarmos em outros realizadores que mantêm desde há muito tempo a sua fórmula segura com resultados competentes, mas preocupante pelo fácil nível de saturação da temática (?) do absurdo. Contudo, temos em Alps um dos mais interessantes filmes do ano e isso não devemos menosprezar.


Classificação:

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Canino, por Tiago Ramos



Título original: Kynodontas (2009)
Realização: Giorgos Lanthimos
Argumento: Giorgos Lanthimos e Efthymis Filippou

Este exemplo de cinema grego que se nos apresenta esta semana, pelas mãos de Giorgos Lanthimos, é recheado de referências e influências. Não que isso lhe tire o primor conseguido, muito pelo contrário. Em Canino encontramos referências ao cinema violento e genuíno de Michael Haneke (Funny Games é um bom exemplo), a A Vila, de M. Night Shyamalan (uma sociedade repressiva excessivamente protectora) ou até uma versão de Dogville, de Lars von Trier. Vencedor do prémio Un Certain Regard no Festival de Cannes 2009 e do Grande Prémio do Estoril Film Festival 2009, o filme é provocação e sadismo puro e simples.



Canino é uma versão cinematográfica contemporânea da eterna Alegoria da Caverna, do filósofo Platão. Num país com crises gravíssimas a nível social e económico, não deixa de ser possível notar semelhanças a uma crítica ao totalitarismo. Tal como na caverna descrita pelo filósofo, onde os homens vivem presos no fundo de uma caverna e consideram como realidade aquilo que lhes é projectado na parede, tomam como reais as sombras projectadas na parede, também em Canino, aquilo que a família que nos é apresentada toma como realidade e facto, acaba por não ser bem assim.

Para o líder desta família o ser humano precisa de ser domesticado. Nem que para isso tenha que ser educado com doutrinas absurdas ou que tornar o seu pensamento mais infantil e menos proactivo. Mesmo que para isso se crie um indivíduo que naturalmente não questione o mundo à sua roda e que tome como absoluto e dogmático tudo o que existe. Os vídeos em família, qual propaganda totalitarista, as histórias reescritas à maneira pessoal, a efabulação da vida. Sem contacto com o mundo exterior, veja-se a ironia de aceitar como verdade determinadas noções comuns. Não deixa de ser irónico, mas ao mesmo tempo chocante, que um zombie seja uma pequena flor amarela ou um telefone seja um saleiro. Aqui, Giorgos Lanthimos inspira-se na teoria de Rousseau acerca do bom selvagem e do conceito de tábua rasa. Para ele o Homem, no estado natural, deseja somente aquilo que o rodeia, porque ele não pensa, sendo então desprovido da imaginação necessária para desenvolver um desejo que ele não percebe. Para ele, o Homem é bom por natureza, mas está submetido à influência corrompedora da sociedade.



A realidade é filmada aqui sem grandes artifícios, sem banda sonora, de uma forma muito cruel e dura. Canino é uma provocação surrealista sobre a corrupção e educação. Tem referências actuais, conforme as já referidas do totalitarismo, mas também ao 11 de Setembro – veja-se as cenas em que os filhos aguardam que os aviões caiam. E em nenhuma altura, o filme evolui dessa faceta provocatória, apenas continua a reafirmar a sua ideia, através de mensagens subliminares – veja-se também a cena com o treinador de cães. E daí partimos para a forma como devemos encarar esta singular obra cinematográfica: um estudo sociológico e psicológico. Uma crítica aos media e não deixa de ser irónico que o realizador utilize o cinema – através de uma cassete VHS – para representar a anarquia e o momento a partir do ponto em que a família entra em colapso e em que nos apercebemos que talvez a curiosidade seja inata.



Em Canino o espectador é uma cobaia numa experiência voyeurista sobre violência e submissão, sobre cultura e educação. E o espectador – que garanto que não conseguirá nunca reagir com indiferença – é levado a participar activamente no filme. Porque o objectivo e a questão levantada no filme é tão oportuna e tão interessante, mas também tão questionável do ponto de vista ético, que provocará discussões individuais e colectivas, que poderiam dar pano para mangas em várias áreas.

Canino é um dos objectos mais singulares que terão oportunidade de estrear este ano. Entre o bizarro e o surreal, encontramos um filme interessantíssimo, bastante semelhante a uma tese, quase a roçar o experimentalismo e que não deve com certeza ser ignorado.



Classificação: