Mostrar mensagens com a etiqueta Fernando Meirelles. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Fernando Meirelles. Mostrar todas as mensagens

domingo, 26 de setembro de 2021

Os Dois Papas, por Eduardo Antunes


Título original: The Two Popes (2019)
RealizaçãoFernando Meirelles
ArgumentoAnthony McCarten
Elenco: Anthony Hopkins, Jonathan Pryce, Juan Minujín
 
Tentativa bem delineada de dar a conhecer de forma mais pessoal a relação entre duas pessoas que à partida não se permitem serem vistas como mais que marcos da instituição que representam, The Two Popes acaba por falhar na forma como pretende apontar os erros subjacentes ao surgimento da relação em causa.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

360 - A Vida é um Círculo Perfeito, por Tiago Ramos


Título original: 360 (2011)
Realização: Fernando Meirelles
Argumento: Peter Morgan
Elenco: Rachel Weisz, Jude Law, Anthony Hopkins, Lucia Siposová, Gabriela Marcinkova, Maria Flor, Ben Foster e Jamel Debbouze

Há na cena inicial de 360 talento e expectativa suficientes para introduzir o espectador com ansiedade na trama. É com um olhar desinspirado e cru aquele que o realizador brasileiro Fernando Meirelles num interessante microcosmos das relações humanas com potencial para criar um trabalho seco e frio. E de facto, havendo muitos defeitos no trabalho do cineasta à frente deste filme (e que os há muitos), não será de menosprezar a abordagem compete e funcionalmente visual que o realizador utiliza, bem equilibrada com uma delicada fotografia e o uso dos split screens através de uma montagem criativa, para transmitir o chamado efeito borboleta. Se o conceito sagazmente recriado com uma interessante e constante utilização de espelhos começa, logo de início, a dar um tom rico à narrativa, não permanece contudo senão uma enorme desilusão à medida que nos adensamos na história. Se bem que o problema é precisamente esse, a impossibilidade do espectador se conectar à história, devido ao tom superficial que esta é abordada. Se há defeitos no trabalho de Fernando Meirelles em 360, eles são largamente provocados pelo argumento de Peter Morgan, insonso e cheio de lugares-comuns que nos faz de imediato recordar outro trabalho seu igualmente semelhante (alguém se lembra de Hereafter?) e que repete exactamente os mesmos problemas. Na verdade, a construção narrativa é tão fragmentada que é impossível haver uma conexão às personagens ou tampouco assistirmos ao seu crescimento. Falta um toque homogéneo à narrativa que mais parece uma sucessão de pequenas histórias que são fracamente conectadas (algumas delas nem chegam a ter ligação) e que resultam numa sucessão de  clichés e num terrível subaproveitamento da capacidade dos actores.

Vemos por exemplo, o caso das personagens de Jude Law e Rachel Weisz (cuja história abre e encerra o filme), cujo talento é inegável, mas com as capacidades tão subvalorizadas pelo argumento, a favor de uma história tão banal e tão fraca, que se revela verdadeiramente inútil para compor o arco e o mosaico que se esperava. Veja-se por exemplo, a interessante história do aeroporto, envolvendo um Anthony Hopkins (com um riquíssimo monólogo a seu cargo) ou um talentoso Ben Foster, com uma personagem absolutamente rica e merecedora de grande destaque (que poderia permitir um trabalho digno de uma nomeação aos Óscares), mas que acaba renegada para uns míseros dez minutos. E isto é especialmente grave quando se poderiam abdicar de outras histórias menos ricas e absolutamente sem sentido para a narrativa, para permitir às restantes florescerem. O ponto positivo talvez seja a história protagonizada pelas checoslovacas Lucia Siposová e Gabriela Marcinkova, uma das mais ricas e interessantes do filme e cujo talento para a representação é inegável.

O que temos em mãos então? Uma história artificial, sem alma, provavelmente um dos argumentos mais pobres de Peter Morgan, que com algum esforço Fernando Meirelles tenta tomar as rédeas, sem porém conseguir. Há um excesso de ambição que torna um trabalho potencialmente excelente numa manta de retalhos, superficial e com pouca ligação entre si. Uma pena.


Classificação:

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Fantasporto: Ensaio sobre a Cegueira, por Tiago Ramos



Título original: Blindness
Após uma adesão fraca por parte do público, no passado dia 18 de Fevereiro, a obra do ano Blindness, foi exibida enquanto retrospectiva no Grande Auditório do Rivoli, em mais uma edição do Fantasporto.


De José Saramago pouco há a dizer, conheço alguns dos seus romances e a obra em questão, Ensaio sobre a Cegueira foi, curiosamente, das últimas que li. Em relação à adaptação da obra para o cinema, tenho a dizer que perante uma tarefa que se supunha impossível, Fernando Meirelles acabou por fazer jus ao romance, pelo menos até àquilo que é humanamente possível.

De facto, o que imediatamente salta à vista quando começamos a ver o filme é a realização. Não consigo imaginar outro nome senão o de Fernando Meirelles para este trabalho. Do seu currículo imediatamente saltam à vista dois trabalhos: Cidade de Deus (2002) e O Fiel Jardineiro (2005); mas é sobretudo com este Blindness que revelou mais a fundo o seu estilo de filmagem. Durante todo o filme, acabamos por nos sentir cegos e sufocados, tal e qual, como Saramago conseguiu que o seu espectador se sentisse durante a leitura do romance. Fernando Meirelles usa e abusa do experimentalismo, das cenas desfocadas e descoloradas, sempre com uma aura esbranquiçada, sempre com ligeiras ondulações e cenas tremidas. Afinal que melhor maneira de levar o espectador a sentir um filme em que todos os personagens são cegos? Não havia outra forma de transmitir o sentimento de uma obra que, por si só, já é megalómana e o possível temor de Fernando Meirelles não o deixou cair no facilitismo, para que o filme se tornasse mais comercial.



E é aqui que não compreendo as críticas que se levantaram em todo o mundo contra este filme. Serão os portugueses suspeitos, por ser a adaptação cinematográfica de uma obra de um dos nossos melhores escritores e o único, até agora, que nos trouxe o Nobel da Literatura? Ou isto tem a ver com a sensibilidade? É verdade que Ensaio sobre a Cegueira não é um filme fácil e precisa de contar com a disposição do espectador ou, caso contrário, não vale a pena, mas acima de tudo é um filme inteligente. E aí é que entra a crítica geral. Com o aparecimento massivo de blockbusters comerciais, o espectador geral acaba por se acomodar à leitura básica e superficial dos argumentos e isso não é o que Saramago, Meirelles e Don McKellar pretendiam.

Tal como o romance, o filme aborda a temática de uma cegueira colectiva, de uma forma metafórica, conseguindo ao mesmo tempo traduzir os sentimentos das personagens de uma forma muito nua e cruel. As cenas e os cenários conseguem ser tão cruéis e reais que chegam até a ser agonizantes. A meu ver, o trabalho de fotografia do filme é merecedor de um Óscar. Os cenários são estrondosamente reais e, conseguem contrabalançar o facto de serem abrangentes, mas ao mesmo tempo específicos de uma grande catástrofe. Os ambientes são antagónicos à cegueira: soturnos, negros, decadentes e tristes, enquanto que a cegueira descrita é branca, como se flutuassem em leite, como O Primeiro Cego descreveu.

Fernando Meirelles conseguiu chegar ao âmago do livro. É verdade que existem muitas cenas potencialmente interessantes e comprometedoras que não surgem no argumento do livro e existem talvez algumas emoções por explicar, mas Meirelles conseguiu transmitir o essencial. Tal como pediu Saramago, no filme não existe alusão a um país ou local específico e todo o elenco é de uma grande diversidade de raças, o que acaba por gerar no espectador um temor maior, uma real noção que a epidemia de mal-branco podia ocorrer a qualquer momento e em qualquer lugar. Também as personagens não têm nome tal como no romance: mais uma vez Meirelles não caiu na ideia de tentar tornar o filme comercial. E faz todo o sentido: num mundo de cegos para que servem os nomes?

Mesmo sem nomes, o elenco do filme parece ter sido escolhido a dedo e acaba por dar nas vistas. Sobretudo a interpretação fantástica de Julianne Moore, como a Mulher do Médico, digna de um Óscar, não fosse este filme visto como experimental, pela crítica mundial. Julianne Moore demonstra mais uma vez que o seu talento não é uma mera obra do acaso e que, mesmo com uma personagem tão difícil, ela não se amedronta. Afinal, a Mulher do Médico, por uma razão absolutamente inexplicável e da qual também não se quer explicação, não cegou e acaba por se tornar uma guia de todo o grupo: física e moral. Julianne Moore vê aquilo que os outros não vêem e encontra-se num dilema: estará abençoada ou amaldiçoada pela visão?



Mark Ruffalo, o Médico, mantém o nível de interpretação a que já nos habituou, mas obviamente que não consegue atingir a grandiosidade de Julianne Moore; ao contrário de Gael García Bernal que consegue, como O Rei da Camarata Três, transmitir todo o sentimento ganancioso da humanidade, tão bem descrito por Saramago no romance. Uma das grandes surpresas a nível de interpretação é a da jovem Alice Braga, tão bonita e espontânea como tinha imaginado a Rapariga dos Óculos Escuros, quando li o livro. A actriz revela neste filme a sua evolução, acabando por tornar a sua personagem mais periférica, como uma das mais interessante do filme. Danny Glover, o Velho da Venda Preta, é, a par de Julianne Moore, aquele que detém uma das mais importantes personagens e por conseguinte, de maior importância. Naquele que parece ser um alter-ego de Saramago, o velho acaba por se tornar num elo entre a clausura e o mundo lá fora, durante o filme (facto que é ainda mais explanado no romance original). Curiosamente, a sua personagem é aquela que antes de ser cego já o era parcialmente; no entanto, é ele que abre os olhos do leitor para a realidade da sociedade humana, levando-nos a questionar tudo o que conhecemos como aceitável; assumindo no filme também o papel de narração nos momentos finais.

Das cenas mais marcantes do filme e que me emocionou foi sobretudo aquela em que as mulheres percorrem o corredor do manicómio, prestes a serem violadas, reveladores de uma enorme coragem. Também pela subtileza das emoções, é extremamente bonita a cena em que as mulheres carregam a que morreu durante as violações e num bonito gesto de altruísmo a limpam, antes de a enterrarem. Também, a cena do cão das lágrimas (apesar de não tão profunda e emotiva como no livro), acaba por nos conduzir à emoção imediata.



É incrível, como a fotografia do filme e a realização de Meirelles levam o espectador a aperceber-se como , em caso de cegueira colectiva, todas as estruturas sociais que conhecemos actualmente, deixariam de existir e/ou de fazer sentido, como o pânico e o temor se instalariam e como os instintos mais escondidos dos humanos seriam revelados, levando-os a agir quase como animais. Ao mesmo tempo acaba por revelar uma bonita história familiar e de como, sete pessoas, anteriormente desconhecidas, se tornam uma família. Uma nota: o final do filme é tão ou mais bonito do que imaginei quando li o livro.

Todo o filme é repleto de pormenores deliciosos, alguns deles apenas perceptíveis a quem leu o livro e isso acaba por se tornar um bónus para o leitor/espectador, que permite também que o filme não se torne uma desilusão para o mesmo. A banda sonora, a cargo dos brasileiros Uakti, é também digna de um Óscar. Meirelles conseguiu conjugar sons aparentemente desconcertantes e antagónicos do argumento, num belo complemento às cenas mais dramáticas e chocantes e mesmo às mais emotivas. Um rol de sons orgânicos e até primitivos, que se tornam numa das melhores bandas sonoras dos últimos anos, dignas de grandes compositores contemporâneos.

Repito, Ensaio sobre a Cegueira é sobretudo um filme inteligente e alegórico e, parafraseando Saramago, lamentavelmente a estupidez não escolhe entre cegos e não cegos. É claramente um filme chocante e violento, mas uma violência claramente justificada e diferente daquela gratuita que abunda por Hollywood, logo custa-me perceber as críticas que daquele lado surgem. Blindness é um grande filme, que faz jus ao romance e possuidor de um excelente trabalho de realização de Fernando Meirelles, num argumento que acima de tudo tenta consciencializar. Ensaio sobre a Cegueira trata sobre o egoísmo humano e sobre aqueles que mesmo vendo, não vêem.
Classificações: