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terça-feira, 6 de abril de 2010

As Cinzas do Tempo, por Tiago Ramos



Título original: Dung che sai duk (1994)
Realização: Wong Kar-Wai
Argumento: Wong Kar-Wai e Louis Cha

Dependendo da forma como efectivamente o olhamos, As Cinzas do Tempo pode ser encarado como um projecto atípico na temática de Wong Kar-Wai. Um épico wuxia de artes marciais, pode não ser o esperado do cineasta, mas na verdade ele transcende esse conceito e aplica a sua marca de autor no plano estético.



Na verdade e não obstante os maus resultados alcançados na bilheteira mundial (compensados pelo sucesso de Chungking Express), o cineasta reveste aquele que poderia ser mais um filme de artes marciais num manto de poesia e romance, como só Wong Kar-Wai sabe recriar. O que temos em Ashes of Time é uma história poderosa sobre as artes marciais, o tempo e a memória centrada na temática do guerreiro, que tal como na temática wuxia, supera as suas habilidades de forma quase transcendental. Contudo o que acabou por afastar o público desta obra, foi precisamente por não respeitar o tradicionalismo do género.

Wong Kar-Wai mais que utilizar as cenas de acção como objecto de entretenimento, utiliza-as para exteriorizar os sentimentos das personagens. O resultado? Esteticamente belo, é verdade. Mas dificulta o espectador a compreender a narrativa, porque o recurso a uma câmara que se arrasta velozmente tem como consequência a não percepção das personagens e o que está efectivamente a acontecer. O que o cineasta pretende é a revelação das forças mais profundas e arrasadoras das personagens. É um belo bailado que se nos apresenta, mas torna a obra ainda mais densa e complexa.



Esteticamente, utiliza os seus habituais recursos estilísticos. As luzes, os filtros cromáticos de tons fortes, os enquadramentos atípicos que “empurram” muitas as vezes as personagens para fora do ecrã, mudanças de velocidade repentinas. Esse trabalho é idilicamente construído através da lente de Christopher Doyle, habitual colaborador de Wong Kar-Wai. Nas mãos da imaginação e criatividade do cineasta chinês, o fotógrafo encanta com o seu olhar, tornando-o num dos mais encantadores artistas contemporâneos. O seu trabalho neste As Cinzas do Tempo é dos mais belos de sempre. Aqui temos também uma relação muito próxima entre a realidade e o tempo, onde é feito o uso de de elementos estéticos para tal fim, como também o uso de diferentes espaços diegéticos, auxiliado pelo trabalho de montagem de Kit-Wai Kai, com recurso a flashbacks e descontinuidades. As sensações e memórias são muitas vezes recortadas com esses recursos.

O elenco é de luxo, como já habitual. Grandes artistas do cinema chinês que permitiram que o filme recebesse um orçamento milionário, mas que relegou algumas delas para um nível secundário como o caso de Maggie e Leslie Cheung.



Ashes of Time é competente e belo, até na forma como aborda a forma como fazemos as nossas escolhas e o que isso implica. O que deixamos de fazer, o que fazemos. São estradas bifurcadas, com vários resultados possíveis, onde qualquer decisão afecta o nosso futuro. Tudo muda. O tempo, o ambiente, as pessoas. Mas a consequência das nossas acções permanecem. Uma temática excelente, mas que se perde demasiado nos devaneios artísticos de Wong Kar-Wai e por isso resulta num estranho caso de atracção-repulsa.

Cada um de nós saberá e sentirá As Cinzas do Tempo de uma forma diferente, mais ou menos intensa. Cabe a cada um de nós a sua visualização e apreciação.

Classificação:


segunda-feira, 5 de abril de 2010

Chungking Express, por Tiago Ramos



Título original: Chung Hing sam lam (1994)
Realização: Wong Kar-Wai
Argumento: Wong Kar-Wai
Elenco: Brigitte Lin, Faye Wong, Takeshi Kaneshiro, Valerie Chow e Tony Leung Chiu Wai

Wong Kar-Wai precisou de descansar. Ashes of Time foi filmado no mesmo ano e o cineasta chinês estava de rastos pela construção desse épico de artes marciais e daí nasceu este Chungking Express, produzido em tempo recorde: 23 dias. E de facto, os prazos de validade dão o mote à história. Se o amor tem um prazo de validade, então que dure dez mil anos.



Wong Kar-Wai é o cineasta mais lírico e romântico de sempre. Tal como em suas outras obras, aqui o que vemos é poesia no seu estado puro, é a poesia fílmica, um sentido estético perfeito e sublime, mas que não subverte sequer a mensagem que tem para transmitir. É o poeta do amor focado nas relações interpessoais, um excelente contador de histórias, um perpetuador da história de amor de qualquer uma das suas personagens. O que ele quer é precisamente o que nós também queremos e sentimos: que a história seja nossa, que ali estejamos nós, que nos identifiquemos.

Mas curiosamente e não obstante obras belíssimas como In the Mood for Love (ler crítica) ou 2046 (ler crítica) que são autênticas odes ao amor, Chungking Express é precisamente o filme mais despretensioso, sintetizado e despojado e que revelou ao mundo aquilo que o cineasta é hoje em dia. Porém, nunca mais conseguiu trazer um romance tão fresco e simples como este. Isto porque se em obras posteriores, o sentido estético acabava por camuflar a história do filme, neste Chungking Express temos um balanço perfeito entre a estética e o argumento.



As personagens do filme não são o mais importante, todas elas contam uma história, mas são apenas metáforas da poesia filmada por Wong Kar-Wai. Mas são também elas bastante completas. Neste caso, temos duas histórias paralelas sobre o amor e a dor da separação. Um relacionamento com data de validade como as latas de ananás que a personagem insiste em ingerir, mas que ao mesmo tempo é uma história de um novo amor, uma paixão por uma personagem enigmática, qual Greta Garbo, numa clara referência ao cinema de Hollywood. Ou ainda a história de um amor gradual, feito de olhares despercebidos, ao som de California Dreaming.

Histórias distintas sobre o amor, filmadas não linearmente, como é usual no cinema de Wong Kar-Wai. A sua narrativa é fragmentada - tal como o poster que ilustra esta crítica - feita de pequenos momentos e gestos, quotidianos de vida. E depois temos um magnífico e electrizante retrato de Hong Kong: brilhante, frenético, globalizada, bares 24 hours open e multicultural. E o Amor confunde-se nessa cidade, também ele frenético, intenso e colorido.



Tecnicamente, não há ninguém igual a Wong Kar-Wai que se rodeou desde cedo de uma equipa de grande qualidade, mas que sem ele nunca se teriam tornado o que são hoje. Um dos casos mais flagrantes é o director de fotografia Christopher Doyle, cuja tarefa de colocar em cena a visão do cineasta chinês resulta num dos melhores trabalhos fotográficos de sempre e Chungking Express não é excepção. Ou ainda a frenética montagem de William Chang, Kit-Wai Kai e Chi-Leung Kwong.

Chungking Express é uma obra de culto eterna e uma das melhores de Wong Kar-Wai. É moderna, vanguardista, mas romântica e terna. É poesia, é amor, é pureza.



Classificação:


domingo, 21 de março de 2010

2046, por Tiago Ramos



Título original: 2046 (2004)
Realização: Wong Kar-Wai
Argumento: Wong Kar-Wai
Elenco: Maggie Cheung, Li Gong, Faye Wong, Takuya Kimura, Ziyi Zhang, Carina Lau e Tony Leung Chiu Wai

«Todos os que vão a 2046 têm o mesmo objectivo. Recuperar as suas memórias perdidas. Porque em 2046 nada muda. Ninguém pode ter a certeza de que isto é verdade. Porque de todos os que para lá foram... ninguém regressou. Excepto eu. Porque eu preciso de mudar.»



A metáfora do pássaro sem pernas é a metáfora ideal para explicar 2046. O pássaro sem pernas tem de voar continuamente, sem nunca poder fixar-se. É neste caso, a história de um homem preso às recordações passadas que regressou a 2046 - curiosamente o quarto de In the Mood for Love (2000) - mas que voltou. «Talvez eu não seja um tipo assim tão decente». E na verdade o que encontramos é um Mr. Chow entre um desfilar de mulheres da sua vida, na ânsia de as tornar a mulher que perdeu.

São diversos os tipos de amor que Wong Kar-Wai nos quis mostrar: o amor-romântico, o amor-paixão e o amor-cerebral. Em 2046 temos um comportamento errático do protagonista que sofre com a ausência, a solidão, a recordação. Porque de nada serve encontrar a pessoa certa se ela surge antes ou depois do tempo certo. De uma continuação (não assumida directamente) de In the Mood for Love, temos com certeza uma estrutura narrativa muito semelhante à de Days of Being Wild (1990). E estes factores de facto tem como consequência fazer com que este filme do cineasta chinês se torne um simples pastiche de obras anteriores, mantendo a mesma estética.



Por oposição a obras anteriores, é verdade que o cineasta abandona o conceito de amor platónico para se dedicar agora ao plano físico e erótico das relações humanas. Mas novamente sentimos, mas numa maior escala, que 2046 se refugia no conceito de exercício de estilo e se abstém de desenvolver algo com uma estrutura narrativa mais evoluída. É uma sensação de déjà vu indesejada, que faz com que o arrastamento e contemplação das suas obras acabem por se tornar demasiado monótonas.

Tecnicamente, o cineasta continua a destacar-se. Temos os magníficos cenários - temos agora a novidade de um cenário futurista digital -, os objectos, as cores, as pessoas. Cada frame é uma belíssima e única obra de arte, poética. São os reflexos, os espelhos, os vidros, as cores fortes e contrastantes, os vermelhos e os laranjas e o sentimento de paixão tão ao rubro, como nunca nenhum realizador conseguiu transmitir tão bem. Temos um elenco fantástico, da melhor geração chinesa. Temos o assombroso trabalho fotográfico de Christopher Doyle, com pormenores que rondam a perfeição. E a música de Shigeru Umebayashi que emoldura este quadro, mas que perde com a perfeita simbiose que tinha em In the Mood for Love. Ou o design de produção e o guarda-roupa de William Chang. Pormenores técnicos maravilhosos que o distinguem de qualquer outra obra cinematográfica.


Contudo e especialmente devido à sua auto-repetição e a um argumento mais limitado - embora altamente complexo - 2046 fica aquém do seu antecessor. Dá a impressão que Wong Kar-Wai, tal como o seu protagonista, também regressou à história por não conseguir esquecer o passado. Regressou a In the Mood for Love e voltou, para depois o abandonar. Isto para evitar o marasmo e fazer-se valer das recordações. Também o protagonista opta por ficar sozinho, para preservar a memória do Amor que viveu.

Classificação:


sábado, 20 de março de 2010

Disponível Para Amar, por Tiago Ramos



Título original: Fa yeung nin wa (2000)
Realização: Wong Kar-Wai
Argumento: Wong Kar-Wai
Elenco: Maggie Cheung e Tony Leung Chiu Wai

Poucas vezes no Cinema vimos um Amor assim tão casto. Disponível Para Amar é precisamente o Cinema feito poesia pelas mãos de um dos mais talentosos e sensíveis realizadores contemporâneos, o chinês Wong Kar-Wai. Por vezes as palavras não são suficientes e o silêncio das personagens de Mrs. Chan e Mr. Chow são suficientes para criar um dos mais sedutores quadros da mais bela história de amor centrada na melancolia e no desejo. É um amor proibido, casto, único. Singular.



Wong Kar-Wai repete-se ao longo do filme. É uma poesia rítmica, assente em repetições, movimentos lentos, extremamente erotizados, sem sequer existir um único beijo que confirme esse Amor. Lá fora chove. A chuva persiste, cai ritmada, a um compasso sensual, tal como a personagem feminina que sai do ambiente (pouco) familiar para comprar arroz. E a monotonia dessa rotina quase diária é suficiente para manter o espectro de sensualidade e romantismo sob o qual o filme vive. O Amor é um jogo de sedução e este vive de rodeios eternos, como se a sua consumação fosse impossível. E é impossível. «Achava que não seríamos como eles». E por isso repetem um ensaio contínuo, frequente, sobre como tudo começou, como se gerou aquela intimidade que tanto afectou a sua vida pessoal, mas que os uniu. «Só tinha curiosidade em saber como tinha começado».



Maggie Cheung e Tony Leung Chiu Wai são dois actores talentosos. É por meio deles que esta história vai avançando lentamente, ao ritmo de um belo poema, com uma enorme química entre os dois, ao som de velhos êxitos de Nat King Cole e no meio do vazio das ruas. As mãos, os olhos presos no marginal, os gestos e diálogos quotidianos insinuam-se no amor negado pelos dois. «Sabemos que não é verdade, para quê preocuparmo-nos?». A comida, as paredes do quarto, a solidão dos corredores, a melancolia num compasso sedutor e lento.

O conceito do Amor proibido é desde o início mantido pela estética do realizador. E aí Wong Kar-Wai faz uso da luz intensa, dos jogos de sombra, da montagem invulgar (que aumenta o poder da sugestão), das cores e da banda sonora tão subtil e tão sensual. Música essa da autoria de Michael Galasso (Séraphine) e Shigeru Umebayashi (A Single Man), com o violoncelo como factor predominante para a cadência da sensualidade em cada frame do filme. Christopher Doyle (Donwloading Nancy) traz-nos mais uma vez um belíssimo trabalho fotográfico, ou não fosse ele um dos melhores directores de fotografia contemporâneos, com auxílio de Pung-Leung Kwan (My Blueberry Nights) e Pin Bing Lee (Air Doll).



A abordagem artística de Wong Kar-Wai é única. Disponível Para Amar é sobretudo um belíssimo exercício de estilo que lhe falta uma maior profundidade argumentativa para agradar a outro género de público. Não é este um ponto negativo, é apenas um impedimento para que agrade um público mais diverso. E de certo modo ainda bem, porque o cinema do realizador chinês é dos mais belos e inocentes de sempre. É díficil não ceder ao encanto das imagens que vemos em Disponível Para Amar, tanto que as palavras são insuficientes e limitadas para descrever a sensação de assistir à castidade deste Amor proibido.

Classificação: