Mostrar mensagens com a etiqueta J.J. Abrams. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta J.J. Abrams. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

Star Wars: Episódio IX - A Ascensão de Skywalker, por Eduardo Antunes


Realização: J.J. Abrams
Argumento: Chris Terrio, J.J. Abrams, Derek Connolly, Colin Trevorrow

Este filme é um produto da sociedade fanática em que surge e a qual serve, sendo o seu público na verdade o único culpado pelo resultado. O desapontamento generalizado e crescentemente verbalizado face as expectativas criadas para com o empreendimento anterior, levaram a máquina corporativa que infelizmente consumiu este outrora produto arriscado a procurar responder ao e com o previsível, proporcionando resultados ainda piores que o expectável.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Star Wars: Episódio VII - O Despertar da Força, por Walter Neto


Título original: Star Wars: The Force Awakens (2015)
Realização: J.J. Abrams
Argumento: Lawrence Kasdan, J.J. Abrams, Michael Arndt
“A psique humana é essencialmente a mesma, em todo o mundo. A psique é a experiência interior do corpo humano, que é essencialmente o mesmo para todos os seres humanos, com os mesmos órgãos, os mesmos instintos, os mesmos impulsos, os mesmos conflitos, os mesmos medos.”
Joseph Campbell em O Poder Do Mito

Pouco importa se você tenha nascido em uma vila europeia, ou em algum lugar dos trópicos, ainda que as diferenças culturais existam e sejam muitas, em todos os três casos sofremos as mesmas experiências comuns a condição humana: nascimento, aprendizagem, construção do “Eu”, descoberta sexual, dor, alegria e por fim, a morte. E é em cima dessas semelhanças que a narrativa do mito se constrói- ou seja, da análise de elementos comuns e que se repetem. E ainda, de como eles poderiam ser organizados. Este, talvez, seja o segredo, ou um deles, por trás do sucesso da saga Star Wars – Guerra nas Estrelas, agora em seu sétimo capítulo, o ótimo O Despertar da Força, de J.J. Abrams. A série se estrutura claramente em cima da ideia da jornada do herói/mito para narrar as histórias de um universo tão plural, seja em planetas ou formas de vida, e na dicotomia entre bem e mal, moral e imoral; representados pelo constante combate entre a Força e seu próprio lado negro. Dualidade comum a qualquer um de nós.

Ora, é exatamente isso que o antropólogo Joseph Campbell abordou em suas teorias: a dificuldade de se estabelecer um equilíbrio entre o nosso lado da luz e o lado sombrio, entre a capacidade de uma mesma pessoa fazer o bem e o mal. E a jornada que nos levaria a fazer tais escolhas. Este é o principal ponto positivo do novo elemento da franquia, entre meio a muitas homenagens ao material clássico, Abrams consegue desenvolver seus personagens e seus conflitos de uma forma que o criador daquele universo, George Lucas teve alguma dificuldade. Principalmente, na questionável trilogia que serve de prequela para a série clássica: A Ameaça Fantasma (1999), O Ataque dos Clones (2002) e A Vingança dos Sith (2005), na qual, os personagens escolhem entre um “bem” e um “mal” muito demarcados e nada na narrativa parece ser forte o suficiente para justificar a sua escolha.

Como o filme de Abrams usa e abusa de referências aos filmes anteriores é impossível não comparar O Despertar da Força com seus antecessores. O primeiro ato do filme se preocupa em homenagear e quase recriar planos do Uma Nova Esperança (1977). Se o filme de Lucas já começa com a Princesa Leia (Carrie Fisher), pedindo socorro através de uma mensagem enviada pelo robô R2D2 e ainda nos primeiros minutos de projeção, sendo capturada por Darth Vader, que surge ocupando todo o plano e já se apresentando, não apenas como o antagonista, mas mostrando toda sua obsessão por controle e poder; o filme de Abrams começa com o piloto Poe Dameron (Oscar Isaac) em uma missão para a resistência, procurando pistas sobre o paradeiro de Luke Skywalker (Mark Hemill) e após esconder a chave para encontra-lo em seu robô BB-8, durante uma tentativa de fuga, ele é capturado por Kylo Ren (um maravilhosos Adam Driver, que em poucas cenas sem sua máscara, constrói um personagem extremamente complexo e dividido, cuja vestimenta é uma clara referência a de Vader.). Por falar em referências, Abrams em determinado momento, surpreende ao construir uma clara rima visual com uma cena de Apocalypse Now (1979).   

Apocalypse Now, 1979 & The Force Awakens, 2015

Os paralelos entre o filme de Abrams e a trilogia original são muitos e talvez este seja o ponto negativo da franquia, não confiar apenas em sua narrativa para remeter ao material canónico, mas ter que criar constantes referências aos filmes clássicos constantemente.

A New Hope, 1977 & The Force Awakens, 2015

Basicamente, em O Despertar da Força, 30 anos após a destruição do Império Galáctico, uma nova força surge, a Primeira Ordem, que pretende continuar o trabalho iniciado e não concluído por Vader. Em meio ao fanatismo e obediência cega de seus seguidores que acreditam que tudo o que fazem é para um bem maior – outro paralelo com a realidade, neste caso com governos ditatoriais; conhecemos Finn (John Boyega) um stormtrooper que que recusa a obedecer a ordem de matar inocentes que estavam em uma vila atacada por Kylo e deserta. Boyega se mostra competente em construir um personagem que descobre para que recebera todo seu treinamento e ao ver os horrores da sua ordem, foge, mas não sabe ao certo o que fazer com sua vida. É ele também o responsável por muitos dos momentos cómicos do filme, que foram escritos com competência pelos roteiristas, o próprio Abrams e Lawrence Kasdan, que funcionam como um alívio para o público em uma trama claramente mais pesada e violenta que a dos filmes originais.

Para fechar o triângulo de protagonistas temos a jovem catadora de lixo Rey (Daisy Ridley) que não se lembra de seu próprio passado e descobre possuir em si a Força que até então, acreditava ser apenas histórias contadas pelos mais velhos. Toda a evolução da personagem lembra muito, novamente, o Uma Nova Esperança e a jornada de Luke. E é com seu novo trio de protagonistas, que em parte mais avançada da sua narrativa, O Despertar da Força consiga romper com a obrigação de ser apenas uma homenagem e se mostre como um filme que se sustenta sozinho.

Se Luke, na trilogia clássica, e Anakin, nas prequelas, são atraídos constantemente pelo lado negro da Força; não é um acaso que os dois personagens comecem sua respectiva narrativa num deserto – o mito cristão coloca a passagem de Jesus Cristo pelo deserto e a tentação feita a ele por um demónio como um dos momentos mais importantes de sua história. Mas Kyle já inicia sua narrativa completamente inserido no lado negro, ainda que seja atraído pelo lado da Luz da Força. É uma inversão e um acréscimo extremamente bem-vindo a franquia. E nesses momentos de apropriação e recriação que fazem o filme de Abrams ser tão bom e eficiente.

Basicamente vemos em Kylo e Rey, um novo Luke e Leia. Voltamos, então, ao ciclo do mito/herói criado por Campbell. Para ele, o herói passa por doze passos na sua jornada de descoberta e auto-conhecimento, senso a jornada dividida em três momentos principais: partida, iniciação e retorno.


Rey , por exemplo, não se lembra de seu passado, mas vive presa em seu planeta, esperando o retorno de uma família que ela não conhece ao certo. Graças ao seu encontro com BB-8 ela é chamada à aventura e ao seu destino, o que inicialmente é recusado e só após encontrar seu mentor, um velho Han Solo (Harrison Ford) ela rompe com seu mundo e embarca, ainda que relutante em sua missão. Durante sua jornada, encontra em Finn um parceiro e vê em seu confronto final com Kylo – uma sequência de luta com sabres de luz de deixar para trás qualquer filme clássico da série, um motivo para aceitar seu papel na Força e já transformada levar o público a resolução do mistério: onde está Luke Skywalker.

O saldo final não poderia ser mais positivo, para fãs antigos e para aqueles que ainda engatinham no universo criado por George Lucas, mantendo um ritmo constante e crescente até seu ato final, sua melhor parte por se distanciar mais do tom de homenagem e consegue funcionar como um filme independente do universo no qual está inserido, ele funciona além do cânone da franquia da qual faz parte. E o universo criado por Lucas agradece o fôlego novo recebido pelo seu sétimo episódio.


Classificação:

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Super 8, por Carlos Antunes


Título original: Super 8
Realização: J.J. Abrams
Argumento: J.J. Abrams

Voltar, toda uma geração passada, ao ambiente de aventura juvenil de The Goonies e E.T.: The Extra-Terrestrial (entre diversos outros filmes, mas fiquemos pelos mais conhecidos) é fonte de sonhos e receios para o público que cresceu com esses filmes, permaneceu com o Cinema todos estes anos e acabou por rever, com outra bagagem, esses marcos da década de 1980.
J.J. Abrams começa bem essa demanda, cimentando as memórias mais queridas de quem sonhou fazer cinema a partir dos filmes da sua juventude e traçando um forte universo juvenil de personagens ricas.
Contribuição enorme dos actores, com todos os miúdos a serem escolhidos com enorme acerto, mas com destaque óbvio para Joel Courtney e Riley Griffiths, duas estreias repletas de prazer e uma boa dose de honestidade (identificação, se preferirem) ao interpretarem os papéis.
Os miúdos traçam o cinema feito para todos, para um conjunto familiar de espectadores que procura relacionar-se com as personagens, surpreender-se com a história e deslumbrar-se com as imagens.
Um público que se terá afastado das salas de cinema à medida que os filmes se tornaram demasiado focados na imberbidade cognitiva do público-alvo que ainda paga pelo bilhete.
Outra década, outra forma de encarar o cinema. Penetrando no século XXI, já nada pode resistir com a inocência de outrora.
O filme tem de ceder a uma visão monstruosa do alienígena e o argumento tem de desembocar numa explicação cheia de referências e conspirações.
Indo buscar uma filmagem que começa a desvendar sem mais filtros tudo o que era misterioso até à entrada do último terço do filme, J.J. Abrams volta a carregar o filme com tardias camadas de construção explanatória e um ambiente mais chegado ao terror.
O filme mostra aquilo que qualquer outro filme é capaz de mostrar hoje em dia, traíndo o que veio antes e a ambientação do espectador.
Tal como não era preciso uma explosão de cinco minutos para os assustar perante um evento que pela sua mera ocorrência superava as suas capacidades, não era necessário que o final afundasse as vivências em tempo de crise e mistérios daqueles miúdos numa resolução tão séria, tão organizada e tão extravagante.
Uma resolução que também tem deselegância cheia de disparos de aspecto falso e destruição massiva que rouba plausabilidade à existência daqueles miúdos.
Os filmes que estavam citados por Super 8 são enormes aventuras à escala dos seus jovens protagonistas enquanto este parece transformar-se numa aventura de escala superlativa que acontece a uns miúdos.
J.J. Abrams, tendo quase perdido uma boa parte do público nesse último terço do filme, tem depois a iluminação de mostrar a curta-metragem que os miúdos estavam a filmar e, com isso, recuperar o essencial do filme, aquilo que nos fez ansiar por outros tempos cinematográficos.
O imaginário, a par da imaginação, daqueles miúdos voltou a ser o ponto fulcral do filme naqueles breves instantes em que os créditos finais até já estão a passar.
O sorriso nostálgico que desaparecera regressa ainda mais aberto e o resultado das intenções do criador é mais certeiro do que parecia prometer.


domingo, 14 de agosto de 2011

Super 8, por Tiago Ramos



Título original: Super 8 (2011)
Realização: J.J. Abrams
Argumento: J.J. Abrams
Elenco: Joel Courtney, Kyle Chandler, Elle Fanning, Riley Griffiths, Ryan Lee e Gabriel Basso

Em Super 8 fala-se muito de valor de produção. Não que para um filme desta envergadura - especialmente no que diz respeito ao orçamento - seja difícil atingir um alto valor de produção, mas há muito mais para além do valor financeiro que permite que o valor de produção seja alto. E isso existe em Super 8. Isto porque não é difícil olhar para o filme com bons olhos, dado o saudosismo que imediatamente nos afecta quando encontramos um tipo de cinema já raro nos nossos dias: a história familiar, de valores, de aventuras misteriosas, de amizade e amor. Cinema que se popularizou nos anos 80 e 90 e que Steven Spielberg trouxe a milhões de pessoas que cresceram com esse tipo de filmes e valores. O que explica certamente o carinho com que os espectadores abraçam o filme: há uma estrutura saudosista a que grande parte dos espectadores não são alheios, um reviver da infância, um certo regresso à idade da inocência que todos nós procuramos. Algo que nos recorda facilmente E.T.: The Extra-Terrestrial (1982) ou um The Goonies (1985).

J. J. Abrams demonstra desde logo um elevado amor a esse cinema. Não só a parceria na produção com o grande mentor do género (Steven Spielberg), mas todo o piscar de olhos ao espectador com referências cinematográficas (as crianças a tentarem rodar um filme de zombies, posters de Star Wars, Halloween, ...) ou ainda a estrutura inicial de um filme dentro de um filme a reflectir a realidade, mostram que da mente de J. J. Abrams não falta amor a um cinema nostálgico, de saudosismo e homenagem a algo que já se fez. É um filme simbólico, alegórico, uma história de superação pessoal e emocional, de reforço dos laços familiares e de amizade e sobretudo de redenção.

Daí que nos seja difícil tirar dos olhos essa nostalgia e busca pela inocência, olhando a sério para Super 8 não mais como um bom filme de entretenimento com valores, mas também uma narrativa costurada e monótona, com soluções decepcionantes (inclusive a nível visual, mas especialmente na lógica demasiado rebuscada do plano da criatura) e uma estrutura final que não acompanha a simplicidade inicial e que se deixa atropelar pelo tal valor de produção que se traduz em efeitos especiais excessivos para a história que se queria contar. É uma narrativa adaptada aos dias actuais? Talvez um reflexo do tipo de espectador que hoje surge nas salas de cinema e que não se contenta com pouco. É pena que também J. J. Abrams se esqueça da história das crianças que queriam realizar um filme de baixo custo - com alto valor de produção - uma história de zombies inspirada em George A. Romero. E que depois tenta remediar apresentando um dos melhores momentos do filme nos créditos finais do mesmo.

Super 8 não deixa de ter valor como entretenimento e não posso deixar de destacar Joel Courtney e Elle Fanning como dois grandes talentos. É uma história que cativa pela nostalgia e saudosismo, com a recuperação de um género adjectivado como spielbergiano, mas que não pode ser confundido com brilhantismo, porque não é mais que uma magia requentada.


Classificação:

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Undercovers – O que esperar da nova série de J.J. Abrams


Estreia este ano na NBC a série Undercovers, o novo projecto televisivo de J.J. Abrams que conta a história de um casal de ex-membros da CIA (Steven e Samantha Bloom), que serão reactivados como espiões. A série pretende misturar drama, acção e comédia ao estilo "Mr. and Mrs. Smith" e, segundo rumores que correm na internet, será filmada a um ritmo alucinante.

Desde que se afastaram da CIA, Steven (Boris Kodjoe) e Samantha (Gugu Mbatha-Raw) abriram uma agência de catering, mas não são bem sucedidos. Carlton Shaw (Gerald McRaney) é agente há 32 anos e conhece o perfil detalhado do casal, que irá convencer a regressar à CIA para uma missão chamada "Operation Black Swan", cujo responsável desapareceu. Resgatar o agente desaparecido, os discursos patrióticos de Shaw e a excitação gerada pela espionagem serão factores decisivos para o regresso do casal à actividade. Os Bloom têm ainda um cão adorável chamado Waldorf.

Segue-se uma pequena antevisão do episódio piloto:



À primeira vista, nada em Undercovers é particularmente interessante, e a expectativa em torno da série baseia-se mais propriamente no nome J.J. Abrams do que na sua premissa. Ainda assim, poderá ser uma boa série de entretenimento mais casual do que outros projectos lançados por Abrams como LOST ou Fringe – algo que só a estreia da série dirá.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Star Trek, por Carlos Antunes


Título original: Star Trek
Realização: J.J. Abrams
Argumento: Roberto Orci e Alex Kurtzman
Elenco: Chris Pine, Zachary Quinto, Leonard Nimoy, Eric Bana, Simon Pegg e Winona Ryder

Não sou um Trekker, embora durante anos a fio tenha acompanhado com um gosto mais do que vulgar as aventuras de Kirk, Picard, Sisko e Janeway.
Depois perdi o contacto com a série de Space Opera que sempre equilibrou bem a sua busca - científica e filosófica - no seio da última fronteira com o romance fechado no espaço daquela nave.


Agora, ao retomar contacto com o filme de Abrams, aquilo que primeiro senti foi um gosto honesto pela inteligência com que ele traiu a série sendo fiel ao seu espírito de inventividade.
Como foi piscando o olho a quem já conhecia as personagens mas criando espaço para relançar quase do zero um franchise que poderá agora render nos cinemas as quantias que sempre se esperaram.
Mas esse gosto não foi suficiente senão para trazer de volta um saudosismo pelas tardes passadas em casa da minha avó a ver a série original.


Afinal de contas, a série sempre se pautou por arrojos de imaginação e uma história envolvendo perturbações temporais geradas por buracos negros (um termo que quase foi cunhado pela série) levando a uma nova realidade e cruzando o novo com o velho Spock não cai longe disso mesmo.
Não é nunca fácil manter uma história sobre tal tema dentro de uma razoabilidade lógica e se tal parece acontecer aqui é porque lhe incutem uma refinada ironia cool que leva Spock, na sua aparição envelhecida que rouba o ecrã com o talento de Leonard Nimoy, a aldrabar Kirk enquanto ao mesmo tempo oferece a Scott a fórmula que lhe faz falta, desde que isso sirva para acelerar os efeitos necessários àquela linha temporal e aos seus objectivos.


Para lá disso, o que sobra verdadeiramente são breves apontamentos sobre os primeiros encontros de algumas figuras que, se não lhe forem já familiares, parecerão pouco mais que piadas.
Isto porque os personagens atravessam o filme em modo funcional, anonimamente lançando one-liners quando lhes é pedido.
As excepções são Uhura e Kirk, que mais substancialmente podem representar os seus papeís formatados de femininista maternal e rebelde sem causa a esconder a genialidade.
E, claro, Spock, interpretado por um Zachary Quinto que parece talhado para o papel, de uma inexpressividade carregada de magnetismo e com emoções palpáveis logo abaixo dessa superfícia fria (o que, no fundo, é a evolução da sua inexpressiva mas desinteressante personagem em Heroes).


Olhando o resto do filme, vemos que Abrams não faz mais do que voltar aos seus lugares de conforto (embora não necessariamente de talento), a acção a ritmo imparável, reduzida a uma escala humana que não faz sentido num filme que tem como trama a perseguição entre duas naves.
Passa-se para lutas corpo a corpo e banaliza-se um cenário de ficção científica que pedia detalhes e imaginação para lá do habitual espectáculo pirotécnico.
O Espaço como espaço de ficção vê-se reduzido e nem as naves ou os buracos negros são convenientemente aproveitados em película.
Acredita-se que a genérica - como se constata no final - trama de viagens no tempo chega como símbolo da ficção científica que é a matriz de Star Trek.


Há um desgosto nisso mesmo, de que aquilo que fazia Star Trek elevar-se para lá da mera novela televisiva fique assim esquecida, embalada numa FC que se quer apenas espectacular e não especulativa.
Esse desgosto faz depois sobressair outro problema, que um "filme de origem" tenha uma trama que tão ricamente sugestiva desaproveitada sem que, no final, nos sirva uma verdadeira dose de personagens plenas é, afinal de contas, um falhanço.
Mesmo com boas cenas de acção, mesmo com inventividade.
Não um falhanço total, mas um falhanço ainda assim.


Star Trek andou perto de ser uma grande obra, apesar de alguns defeitos que lhe seriam inerentes, mas não logrou lá chegar.
Mas não há desapontamento que apague o bom entretenimento que aqui temos e que, queiramos ou não, marca o ano cinematográfico.
Um falhanço que ainda assim dá gosto, portanto.



sábado, 9 de maio de 2009

Star Trek, por Tiago Ramos



Título original: Star Trek (2009)
Realização: J.J. Abrams
Argumento: Roberto Orci e Alex Kurtzman
Elenco: Chris Pine, Zachary Quinto, Leonard Nimoy, Eric Bana, Simon Pegg e Winona Ryder

De Star Trek pouco conhecia. Não sendo seguidor nem fã do franchise, foi a curiosidade em relação ao hype que se gerou na comunidade cibernauta e também os nomes do realizador e argumentistas que me fizeram ir ver este filme.



O exercício do reboot tem sido utilizado recentemente como forma de combater a crise e renovar aquilo que em tempos já foi a galinha dos ovos de ouro e deixou de ser. E a expectativa de J. J. Abrams dar um novo fôlego à saga conduziu a toda uma série de grandes motivações, especialmente depois de sucessos como Alias, Lost, Cloverfield ou o mais recente Fringe.

E a primeira desilusão é mesmo essa. Star Trek não sobrevive a todo esse buzz que se gerou pela blogosfera, provocando-me uma certeza estranheza perante a aclamação mundial da obra. Na tentativa de tornar a obra acessível a não conhecedores da saga (como eu), o filme deu um tiro no próprio pé, reduzindo-o a um mero blockbuster no início da época estival.



O filme é ritmado, intenso, tecnicamente irrepreensível e fascinante, capaz de deixar colados ao ecrã os olhos do espectador, mas acaba por se tornar inquientantemente inconsistente, sem uma definição no argumento, mas um enorme conjunto de cenas distintas. E especialmente ao tentar agradar a gregos e troianos, ou melhor a trekkies e não-trekkies, este reboot de Star Trek caiu no erro de adoptar um tom demasiado ligeiro e fácil, que acabou por levar algumas outros franchises à ruína.

Mas nem tudo é negro. Aliás, este futuro de Star Trek é brilhante e cheio de referências agradáveis à cultura pop, com uma valorizável realização de J. J. Abrams, cenários fantásticos e sobretudo os efeitos-especiais e visuais que abrilhantam todo o filme. A sonoplastia é outro factor que não podemos descurar, recuperando alguns dos sons originais da saga, mas também a banda sonora que mais uma vez revela o trabalho do talentoso Michael Giachinno, que habitualmente trabalha em conjunto com o realizador/produtor.



A nível do elenco, destaque para a química entre Chris Pine e Zachary Quinto, tendo especialmente este último um desempenho absolutamente notável ao longo do filme. O piscar de olho a outra obra de J.J. Abrams, mas também para os mais puristas de Star Trek é a presença de Leonard Nimoy, o Mr. Spock original da série.

Contudo, todos estes pontos positivos não são suficientes para superar a imagem inconsequente de blockbuster ligeiro que trouxeram a Star Trek. Um filme que teria muito mais para dar, se não fosse este tom que lhe dá um sabor semelhante a cinema fast-food, que não perdurá nas nossas memórias.

Classificação: