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terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

A Invenção de Hugo, por Tiago Ramos



Título original: Hugo (2011)
Realização: Martin Scorsese
Elenco: Asa Butterfield, Chloë Grace Moretz, Christopher Lee, Ben Kingsley, Sacha Baron Cohen, Emily Mortimer, Helen McCrory e Jude Law

Em 2011 muitos dos mais variados filmes estreados tinham - propositadamente ou não - uma mensagem comum: nostalgia e homenagem ao cinema passado. Entre algumas menos bem sucedidas em fazer isso de uma forma que soe naturalmente genuína, parece que finalmente uma traz em si a verdadeira essência do cinema em jeito de homenagem. A história que Brian Selznick criou em The Invention of Hugo Cabret, além de retomar uma série de valores tradicionais e familiares, é também ela perfeita para um cinéfilo como Martin Scorsese, daí percebermos de imediato o porquê desta sua adaptação ao cinema. 

A história porém é simples e bastante comum, admitamos; bastante ingénua também. Os diálogos são banais, bem como muitas das personagens não apresentam grande densidade. O que não quer dizer por si só que o cineasta relegou para segundo plano o argumento, mas que usou a história original (também ela bastante simples) para transmitir todo aquela sensação nostálgica dos filmes infantis e familiares da década de 80. Hugo inicia-se com um excelente plano-sequência que remete para todo o imaginário infantil, como aliás o faz durante grande parte do tempo, com recurso a objectos ou evocações simples, como escorregas, engrenagens, mecanismos, relógios, comboios, livros, filmes e segredos. Técnicas simples, mas capazes de focar o espectador no seu objectivo: estimular a nostalgia. Apesar de ser uma história infantil, Hugo deliciará muitos cinéfilos evocando genialmente as origens do cinema, dando oportunidade também de as revelar a novas gerações, revelando obras como Le voyage dans la lune (1902) ou recriando (genialmente, diga-se) La sirène (1904). O filme é uma homenagem ao Cinema, às suas origens, iniciando-se em George Méliès e terminado em Martin Scorsese que, muito oportunamente, utiliza o 3D para dar tom ao avanço do cinema, mas também para tentar surpreender o espectador da mesma forma que os pioneiros da área conseguiram. É uma utilização do 3D bastante competente (e justificada), que transmite uma perfeita sensação de profundidade de visão e que utiliza artifícios como o fumo, neve ou até partículas de pó contra a luz, para destacar esse mesmo trabalho.

Destaque também para toda a componente técnica a que Martin Scorsese já nos habituou, desde o design de produção e direcção artística (que recriam uma nostálgica e belíssima Paris dos anos 30), som e montagem bem como para a escolha do elenco, seja na pele dos jovens Asa Butterfield e Chloë Grace Moretz, na surpresa de redescobrir Sacha Baron Cohen ou na emoção de uma excelente interpretação de Ben Kingsley.

Verosímil ou não, invenção, realidade, pouco interessa. Hugo é um filme para ver e rever com toda a família. Um filme para levar os filhos e dar-lhes a conhecer e incutir-lhes o gosto pelo cinema. Porque eu posso já não me surpreender como aquelas pessoas que viram pela primeira vez imagens de um comboio a chegar a uma estação e pensavam que ia contra elas... mas quero que os meus filhos um dia sintam uma magia semelhante a essa, nem que seja com uma homenagem ao cinema em 3D.


Classificação:

sexta-feira, 20 de maio de 2011

A Letter to Elia, por Carlos Antunes


Título original: A Letter to Elia
Realização: Kent Jones e Martin Scorsese
Argumento: Kent Jones e Martin Scorsese
Elenco: Martin Scorsese e Elia Kazan

Uma carta é sempre uma oportunidade para que quem a escreva fale de si próprio, até mesmo para que compreenda aquilo que não conseguiria expressar de outra forma.
Esta carta é dessas, uma forma de Martin Scorsese revelar como o cinema de Elia Kazan o formou como ser humano muito antes de o formar como cineasta.
Filho de um bairro de emigrantes italianos e de uma cultura fechada, onde os homens não expressavam emoções, Scorsese revela que através de Kazan e das figuras que ele dirigiu - Marlon Brando em Há Lodo no Cais, James Dean em A Leste do Paraíso e Montgomery Clift em Quando o Rio se Enfurece - aprendeu que há emoção no masculino.
Filmes que olhavam o microcosmos de que Scorsese fazia parte e que traduziam o que um jovem não sabia dizer sobre, por exemplo, a relação que tinha com irmão.
Como uma carta, é um filme que não tem medo de ser parcial e incompleto. Depende somente da vontade de Scorsese, que viria a ser amigo de Kazan e que aqui o defende, mesmo depois de lhe apontar o dedo.
Tendencioso, sim, mas não cego. Este olhar de Scorsese para Kazan e do espectador para Scorsese é uma obra elucidativa sobre o cinema e sobre a existência.
A par do restante que o realizador tem feito na divulgação e preservação do cinema, vem confirmar Scorsese como moderna figura paterna e protectora do significado do Cinema.



sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Shutter Island, por Carlos Antunes

http://www.moviesonline.ca/movie-gallery/albums/userpics//poster_shutter-island-poster.jpg

Título original: Shutter Island
Realização: Martin Scorsese
Argumento:
Laeta Kalogridis e Dennis Lehane
Elenco: Leonardo DiCaprio, Mark Ruffalo, Ben Kingsley, Max von Sydow, Michelle Williams e Emily Mortimer

Shutter Island é a arte da manipulação e sem dúvida que dá gosto ser manipulado por um filme assim.
A música, os planos, a luz, a montagem, todos os elementos conspiram para nos fazer ceder ao ambiente que o filme faz transbordar da tela e assim no fazer seguir nas direcções que a narrativa pretende seguir.

http://cinematropolis.files.wordpress.com/2009/06/staircase-shutter.jpg?w=500&h=300

No que toca a envolver-nos na desconfiança inata a um thriller psicológico, Martin Scorsese conseguiu o seu propósito sem grande dificuldade desde a primeira nota, mas conseguiu muito mais do que isso.
Ele conseguiu manter-nos no interior de uma trama que não se simplifica nem dá escapatórias ao público senão mesmo no seu final e mesmo aí tudo se adapta ao que ficou para trás sem precisar de um artifício de lógica.

http://fusedfilm.com/wp-content/uploads/2009/08/shutter-island-image-1.jpg

A resolução do filme surge porque o olhar se mantem fiel à dimensão pessoal do que sucede, à importância que tem o indivíduo.
A manipulação existe na construção cinematográfica, na forma como o filme é pensado estruturalmente, as suas partes como forma indispensável de uma experiência que seduz e ludibria o espectador sem ter de sacrificar a lógica do argumento.
A história é sobre o sofrimento de um homem. Uma história intricada, mas com um sentido incorrupto e um significado mais importante do que aquele que muitos esperarão.

http://cinematropolis.files.wordpress.com/2009/06/shutter-island.jpg?w=500&h=300

Quando Teddy chega à ilha já traz uma certa perdição consigo, um desajustamento que é palpável mas cuja causa não se consegue precisar.
Magro demais e em claro desmoronamento físico, olha para a ilha como quem mede a dimensão do adversário numa luta de beco.
Esta personagem está em confronto com o mundo, um mundo confinado e de regras muito próprias, por isso mesmo mais opressivo ainda.
E como todas as personagens em confronto com o mundo, está afinal em confronto consigo mesmo, algo que chega a passar despercebido no seio da trama mas que retorna com força redobrada graças à inteligente e discreta última cena.

http://cinematropolis.files.wordpress.com/2009/06/ghost-shutter.jpg?w=500&h=300

Teddy é DiCaprio em grande forma, a atirar-se ao sacrifício de uma personagem que parece estar sistematicamente a perder a substância que a define, sendo que é nesse processo que acabará por se concretizar quando tudo estiver exposto.
Uma interpretação assim não é simples, demasiado perto da caricatura que seria tanto a concepção como herói ou absoluto paranóico.
Mas ele demonstra que tem o estofo certo para o fazer.

http://cinematropolis.files.wordpress.com/2009/06/fire-shutter-copy.jpg?w=500&h=300

Num filme assim, tão dependente da sua resolução, o melhor que dele pode ficar é o nosso interesse em revê-lo, mesmo que o efeito surpresa nunca volte a ter o mesmo poder.
Revemo-lo porque nos interessam as personagens e porque, mesmo conhecendo o final, acabaremos por sucumbir à qualidade cinematográfica que demonstra que esta é, de facto, a arte do hipnotismo: por duas horas não desviamos os olhos do ecrã e nem por um momento regressamos ao mundo real.


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domingo, 27 de dezembro de 2009

Tudo Bons Rapazes, por Tiago Ramos



Título original: Goodfellas (1990)
Realização: Martin Scorsese
Argumento: Nicholas Pileggi
Elenco: Robert De Niro, Ray Liotta e Joe Pesci

Se há coisa que se reconhece de imediato num filme de Martin Scorsese é a frontalidade. No seu cinema não há filtros, há apenas uma vontade muito genuína de retratar a realidade seja ela violenta, crua ou inconveniente. Em Goodfellas temos tudo isso, num dos retratos de maior qualidade da Máfia e, de certa forma, comparável ao estatuto de The Godfather.



Embora um retrato violento, não é pelo uso da violência que Goodfellas se destaca. É na qualidade do argumento adaptado por Nicholas Pileggi (Casino), um já hábil retratista deste universo. Um argumento verdadeiro, genialmente vivido (não apenas interpretado) pelo excelente trio de actores, do qual se destaca verdadeiramente Joe Pesci, na pele de um irascível e violento mafioso. Um merecido Óscar de Melhor Actor Secundário e a justa vitória em inúmeros círculos de críticos americanos. É uma interacção soberba de talentosos desempenhos que resultam em perfeitos diálogos, muito bem orquestrados.

Martin Scorsese domina a realização melhor que ninguém. As longas cenas, com ângulos privilegiados, garantem ao espectador uma sensação única do mundo da Máfia. Um mundo habitualmente camuflado onde o cineasta nos permite experienciar imagens de pura violência, mas simultaneamente de uma bela componente artística. Justo crédito mais uma vez à excelente Thelma Schoonmaker pelo seu trabalho conjunto com o cineasta, mais uma nomeação ao Óscar por Melhor Montagem. Ou também a Michael Ballhaus, pelo seu trabalho fotográfico excelente, já visível em outros trabalhos como The Departed (2006).



Pequenos detalhes, grandes momentos fazem deste filme, uma das obras mais aclamadas e premiadas de Martin Scorsese. É uma prova genuína do seu estilo cinematográfico.

Classificação:



sábado, 26 de dezembro de 2009

O Cabo do Medo, por Tiago Ramos



Título original: Cape Fear (1991)
Realização: Martin Scorsese
Argumento: James R. Webb e Wesley Strick
Elenco: Robert De Niro, Nick Nolte, Jessica Lange e Juliette Lewis

Em Cape Fear, o talentoso Martin Scorsese consegue criar o nosso maior medo. Aqui o vilão não é uma entidade abstracta, algo sobrenatural. Max Cady é um ser humano, uma personagem real, um homem temível, assustador e arrepiante, como só a dupla Robert De Niro e Martin Scorsese sabem criar.



A astúcia e conhecimento permitem a Max Cady tornar-se o vilão perfeito para a vingança perfeita, colocando o espectador de uma forma bastante sábia no centro da acção, deixando perante sensações de verdadeiro medo e claustrofobia. Emocionalmente cria uma atmosfera bastante tensa, essencialmente devida ao desempenho de Robert De Niro que mereceu uma nomeação para o Óscar de Melhor Actor por este papel. A nível de elenco também Nick Nolte, Jessica Lange e Juliette Lewis mantêm desempenhos bastante competentes, tendo esta última uma merecida nomeação ao Óscar de Melhor Actriz Secundária.

Também em O Cabo do Medo, Martin Scorsese continua hábil na criação de dilemas internos, onde as personagens se debatem continuamente. Uma excelente direcção artística e realização culminam na certeza que poucos produzem remakes como o cineasta nova-iorquino. Remake de Cape Fear (1962), este homenageia sem nunca perder a sua identidade própria. O já falecido Elmer Bernestein (Far From Heaven) adapta a música de Bernard Herrmann (Taxi Driver) e surgem ainda dois cameos de Gregory Peck e Robert Mitchum, os protagonistas do filme original.



O Cabo do Medo não é o melhor thriller de Martin Scorsese, mas marca igualmente a década de 90, com todos os seus planos e zooms rápidos, que incutem o medo no espectador. Um filme arrepiante.


Classificação:



segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Casino, por Tiago Ramos



Título original: Casino (1995)
Realização: Martin Scorsese
Argumento: Nicholas Pileggi
Elenco: Robert De Niro, Sharon Stone e Joe Pesci

Com Casino, Martin Scorsese entra mais uma vez num universo muito seu. O submundo, as intrigas, a corrupção, a máfia e a violência. Aqui, o cineasta criou um excelente retrato de uma Las Vegas dos anos 70, diferente da cidade eléctrica que conhecemos hoje. Uma Las Vegas, buraco negro, muito bem retratada na cinematografia, mas ao mesmo tempo com cores destoantes, contrastantes e berrantes.



Esta é a história da ascensão e queda da máfia dos casinos, de uma forma violenta e crua. É o apanágio de Martin Scorsese: a violência verbal, a violência visual, a violência física. Ao mesmo tempo é a sensação que conhecemos este realizador de Goodfellas (1990), talvez devido às similaridades da personagem de Joe Pesci. É uma narrativa forte e intensa, esgotante durante toda a sua longa duração, porque nos vemos no lugar das personagens, desconfiamos intensamente de todos e de tudo. Mais uma adaptação fantástica de Nicholas Pileggi e que infelizmente foi completamente ignorada a esse nível nos galardões internacionais, mas que foi recompensado por ter ganho o estatuto de clássico.

E depois temos a voz off. As várias vozes off. E embora Martin Scorsese já houvesse usado em vários filmes a técnica da voz off, a verdade é que aqui sente-se de outra forma. Em Casino, ela tem uma importância vital. É com a sua ajuda que perdemos a subjectividade da visão que nos é dada e que percebemos o que é importante entender. Pormenores que fazem da filmografia de Martin Scorsese, uma filmografia única no Mundo.



A singularidade genial de Martin Scorsese é também ela muito evidente na (sempre) inteligente escolha do elenco. Mais uma vez temos os imponentes e habituais parceiros do cineasta nova-iorquino, Robert De Niro e Joe Pesci. Duas personagens fortes, imponentes e trágicas. Mas aqui quem surpreende é Sharon Stone, naquela que será provavelmente uma das suas melhores interpretações de sempre e que foi recompensada com um Globo de Ouro e uma nomeação para o Óscar de Melhor Actriz.

Casino é um filme com uma enorme beleza cinematográfica. Mais uma vez é a fotografia de Robert Richardson e a montagem de Thelma Schoonmaker que o conseguem. Um estilo barroco nos planos-chave, a banda sonora reflexa dos anos 70, a intensidade como que de um turbilhão de violência e de luz. É sobretudo um excelente épico de máfia como apenas Martin Scorsese consegue fazer.

Classificação:





quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Gangs de Nova Iorque, por Tiago Ramos



Título original: Gangs of New York (2002)
Realização: Martin Scorsese
Argumento: Jay Cocks
Elenco: Leonardo DiCaprio, Daniel Day-Lewis, Cameron Diaz e John C. Reilly

Talvez o maior defeito de todos em Gangs de Nova Iorque seja a ambição. É sem sombra de dúvidas, uma obra poderosa, um óptimo filme, mas não uma obra-prima. Fruto de uma produção polémica, o resultado de Gangs of Nova Iorque acaba por deixar um travo amargo no espectador. A verdade é que tal gosto repercutiu-se na Academia que, das 11 estatuetas douradas para as quais nomeou o filme, não entregou nenhuma.



Contudo, o que se confirma e muito bem na película, é a exímia capacidade Martin Scorsese, em reconstituir épocas. Aqui, vemo-nos subitamente no seio dos primórdios do nascimento dos Estados Unidos, nas batalhas carnais, cruéis e inter-geracionais entre os americanos e os irlandeses que chegavam de barco, no fim do século XIX. São lutas de gangs ferozes, de homens e mulheres de ambição e poder. É uma luta complexa e muito bem filmada, sem meias medidas, selvagem e dura. É Martin Scorsese visceral e ciente da violência que apresenta. É uma fúria de linguagem clássica, mas simultaneamente reinventada.

O poder do filme faz-se sentir sobretudo devido às soberbas interpretações de Leonardo DiCaprio e Daniel Day-Lewis. Monumentais desempenhos, uma ode à liberdade e ao poder, à mitologia fundadora de uma nação. Um herói idealista e um dos melhores vilões da década. Infelizmente, Cameron Diaz apresenta-se um erro de casting e é uma mácula na superioridade deste elenco.



Tecnicamente, Gangs de Nova Iorque é mais um grande filme. Ou não fosse Martin Scorsese reunir-se de novo com uma grande equipa. Michael Ballhaus na fotografia, Sandy Powell no guarda-roupa, Dante Ferretti na direcção artística, Francesca Lo Schiavo na decoração dos cenários, Thelma Schoonmaker na montagem e Howard Shore na banda sonora. Os habituais companheiros do cineasta nova-iorquino e que sempre têm garantido um nível técnico excelso nas obras de Martin Scorsese. Destaque ainda para a canção The Hands That Built America, um magnífico tema de encerramento.

Contudo, Gangs de Nova Iorque não é a obra-prima que ambicionava ser. Produção megalómana, perde-se no meio dos efeitos visuais e dos grandes cenários, perdendo para o argumento que se arrasta em dadas alturas e que resulta num ritmo inconstante e inconsequente. A larga duração também não ajuda, juntamente com uma visão demasiado caricatural de algumas personagens, proporcionando determinadas acções forçadas. Mesmo assim, apesar de não ser o seu melhor, o filme acaba por confirmar o estatuto superior de Martin Scorsese.

Classificação:





terça-feira, 8 de dezembro de 2009

O Aviador, por Tiago Ramos



Título original: The Aviator (2004)
Realização: Martin Scorsese
Argumento: John Logan
Elenco: Leonardo DiCaprio, Cate Blanchett, John C. Reilly e Alec Baldwin

Em O Aviador, Martin Scorsese consegue criar um fascinante e raro exercício de cinema. A própria paixão do cineasta pelo cinema é claramente notada em cada frame deste filme. É evidente a inspiração em clássicos como Casablanca (1942), à medida que recria soberbamente Hollywood dos anos 40 e 50. E na verdade, o próprio cineasta fica fascinado pela figura de Howard Hughes - personagem claramente ambígua e contraditória - que é um herói à medida de Martin Scorsese. Ao mesmo tempo que esta biopic revela um Howard Hughes puro e duro, quase invencível, de atitudes megalómanas, acabamos por sentir seu verdadeiro interior: uma figura cristalina, frágil e vulnerável.

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O estilo de realização de Martin Scorsese cria enormes bailados nos ares, imagens quase idílicas, tratamentos cromáticos diferentes para cada época retratada e detalhes sublimes, perfeitamente conjugados pela cinematografia de Robert Richardson e pela montagem original e nada convencional de Thelma Schoonmaker. São esses pequenos pormenores que fazem de O Aviador, tecnicamente virtuoso e excelso como é, de facto, raro no mundo cinematográfico. Ao primeiro olhar no filme é óbvio porque razão cinco das onze nomeações para os Óscares que recebeu, foram precisamente em categorias técnicas. E acabou por vencer em quatro dessas mesmas categorias.

Mas o maior destaque é a espantosa composição de Leonardo DiCaprio. Naquela que é provavelmente a sua maior interpretação, o actor vive uma personagem de extrema comoção e genialidade. Uma personagem rodeada de demónios anteriores e que se divide entre o idealismo e a loucura. Um desempenho excessivo - como assim tinha de ser - mas sem nunca cair no exagero. Uma personagem que vive de simbolismos, auxiliado tecnicamente por reflexos de espelhos e pela luz dos projectores da sala de cinema onde, a dada altura, se enclausurou. Por outro lado, a figura de Howard Hughes na pele de Leonardo DiCaprio é estrondosamente intensificada pela figura de duas grandes mulheres: Katharine Hepburn e Ava Gardner.



Cate Blanchett respira Hepburn em cada cena do filme e é fácil perceber porque venceu o Óscar de Melhor Actriz Secundária. É ela quem rouba o coração de Howard Hughes, de forma carismática e simultaneamente caricatural, utilizando-se dos seus sotaques e maneirismos de uma forma absolutamente genial. Do outro lado, Kate Beckinsale interpreta Ava Gardner, de um modo mais superficial, mas consegue passar a imagem da paixão a que Howard Hughes não conseguia resistir.

O Aviador é uma obra-prima, tão obsessiva quanto imaculada, tecnicamente soberba, genialmente vivida (e não interpretada) por um extraordinário elenco. Martin Scorsese realiza uma brilhante biopic - não isenta de maneirismos de género - claramente destacada pelo brilho dos projectores de cinema, que são (a par da aviação) o motivo da vida de Howard Hughes.

Classificação:




segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

The Departed - Entre Inimigos, por Tiago Ramos


Alinhar ao centro
Título original: The Departed (2006)
Realização: Martin Scorsese
Argumento: William Monahan e Alan Mak
Elenco: Leonardo DiCaprio, Matt Damon, Jack Nicholson, Mark Wahlberg e Vera Farmiga

Com The Departed - Entre Inimigos, Martin Scorsese veio mostrar que afinal, nem sempre os remakes são sinónimo de fraca qualidade. Remake de trilogia Infernal Affairs, foge do conforto da sua cidade Nova Iorque e utiliza Boston como o plano de fundo para a acção de The Departed.



Aqui constata-se, dada a crueldade das imagens e o toque subtil do realizador, uma história que poderia ter sido banal, mas que acaba elevada a algo superior. De certo modo, é um exercício de estilo agradavelmente bem filmado, que não se coíbe de levar o espectador para o centro de um mundo dúbio e violento, onde a hipocrisia e a violência reinam e onde nada é o que parece. Martin Scorsese retrata aqui com a dureza necessária uma América real e contraditória, onde acabamos no seio da corrupção da Máfia e da Polícia. Pólos distintos, mas unidos por tal imoralidade, onde se vive um contínuo jogo do gato e do rato.

Na verdade, a qualidade do filme reside na dualidade das personagens, infiltradas nos dois lados da acção - como aliás, na tradução portuguesa do título, o sufixo Entre Inimigos denuncia. É um universo obsessivo, onde o Bem e o Mal se diluem, não se conseguindo distinguir. Jack Nicholson tem um dos seus melhores papéis dos últimos anos, precisamente no papel de um líder da Máfia quase à beira da loucura, mas o grande destaque vai para Leonardo DiCaprio e Matt Damon. Ambos vivem um jogo de espelhos, o reverso das medalhas. Ambos são heróis à sua maneira, agindo sob a influência de uma mesma figura - quase paternal - tendo como consequência um natural exercício de actividades violentas e cruéis. Também Vera Farmiga é outra das grandes surpresas do elenco, acabando por se destacar como revelação cujo talento acabou por ser confirmado a posteriori.



Na verdade, ao contrário do que poderíamos supor, o factor humano é muito mais importante que o factor acção em The Departed. Essa questão humana é genialmente contrabalançada pela fotografia sublime e geralmente fria que Michael Ballhaus (Gangs of New York) nos entrega, bem como pela montagem de Thelma Schoonmaker (The Aviator) ou até a banda sonora de Howard Shore (The Aviator).

The Departed - Entre Inimigos é claramente cinema de Martin Scorsese. Não é o melhor dos seus trabalhos e peca devido à sua excessiva duração, mas é uma obra de talento inegável e que finalmente fez com que o cineasta fosse homenageado pela Academia. Foi um ajuste de contas para com alguém que estava a ser, obviamente, injustiçado. A paixão pelo Cinema efectivamente respira-se aqui.

Classificação:





domingo, 6 de dezembro de 2009

A Idade da Inocência, por Carlos Antunes

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Título original: The Age of Innocence
Realização: Martin Scorsese
Argumento: Jay Cocks
Elenco: Daniel Day-Lewis, Michelle Pfeiffer e Winona Ryder

Há algo de gratificante ao vermos um Scorsese transformado neste filme, abdicando das suas urgência e ferocidade, e ainda assim perfeitamente ambientado.
Ao invés Scorsese filma com elegância e delicadeza, deslizando pelo interior da alta sociedade da época, demorando-se nos pormenores dos movimentos e dos olhares.


ageofinnocenceSPLASH.jpg image by pearlystagedoor

Pois são nesses movimentos e olhares que se disputa um homem, Newland Archer, que estando noivo de May Welland não resiste à aparição da Condessa Olenska, uma mulher independente e altiva.
Não é a beleza da Condessa que ameça o casamento aparentemente perfeito, é a sua rebeldia vivida no interior de uma sociedade fechada e repleta de regras rígidas feitas para estrangular todas as pulsões, todas as liberdades.
Aqui os casamentos e os comportamentos são utilitários, usados como benefícios e influências.

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Mas à conta da importância das relações e dos comportamentos, a verdade é que há verdadeiras guerras a decorrer, guerras silenciosas feitas de sugestões e expectativas, os tais olhares e movimentos a que Scorsese deu tanta atenção e que revelam tanto daquilo que é menos secreto do que se pretendia.
Neste caso particular, a luta parece entre uma mulher de enorme experiência e e uma inocente e frágil rapariga apaixonada.
Mas a verdade é que os protagonistas estão muito menos definidos do que aparentam ou não fosse a Inocência do título uma caracterização irónia.

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Os três protagonistas são muito mais do que aparentam, por vezes mais frágeis, por vezes mais ferozes, mas dificilmente dispostos a renderem-se.
O final é, pois, tão surpreendente quanto esclarecedor, desmontando por completo o jogo de aparências e poder, reclamando uma verdade que prova definitivamente a ferocidade de um mundo que parecia tão perfeito.

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O trio de actores são peões perfeitos de Scorsese e desta batalha discreta. Mesmo Winona Ryder que parece tão apagada ou esquecida em certos momentos está no tom perfeito que os eventos exigem.
Michelle Pfeiffer é, diria-se, perfeita como sempre, dona de uma elegência e sabedoria a toda a prova.
E Daniel Day-Lewis, tão exigente nas escolha dos seus papéis quanto na sua preparação para eles, não deixa espaço a sequer uma nota fora de tom na sua interpretação.
A Idade da Inocência é um clássico, dê-se-lhe a nota que se der (essa arma demasiado subjectiva). Um clássico magnífico.


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