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domingo, 27 de dezembro de 2009

Tudo Bons Rapazes, por Tiago Ramos



Título original: Goodfellas (1990)
Realização: Martin Scorsese
Argumento: Nicholas Pileggi
Elenco: Robert De Niro, Ray Liotta e Joe Pesci

Se há coisa que se reconhece de imediato num filme de Martin Scorsese é a frontalidade. No seu cinema não há filtros, há apenas uma vontade muito genuína de retratar a realidade seja ela violenta, crua ou inconveniente. Em Goodfellas temos tudo isso, num dos retratos de maior qualidade da Máfia e, de certa forma, comparável ao estatuto de The Godfather.



Embora um retrato violento, não é pelo uso da violência que Goodfellas se destaca. É na qualidade do argumento adaptado por Nicholas Pileggi (Casino), um já hábil retratista deste universo. Um argumento verdadeiro, genialmente vivido (não apenas interpretado) pelo excelente trio de actores, do qual se destaca verdadeiramente Joe Pesci, na pele de um irascível e violento mafioso. Um merecido Óscar de Melhor Actor Secundário e a justa vitória em inúmeros círculos de críticos americanos. É uma interacção soberba de talentosos desempenhos que resultam em perfeitos diálogos, muito bem orquestrados.

Martin Scorsese domina a realização melhor que ninguém. As longas cenas, com ângulos privilegiados, garantem ao espectador uma sensação única do mundo da Máfia. Um mundo habitualmente camuflado onde o cineasta nos permite experienciar imagens de pura violência, mas simultaneamente de uma bela componente artística. Justo crédito mais uma vez à excelente Thelma Schoonmaker pelo seu trabalho conjunto com o cineasta, mais uma nomeação ao Óscar por Melhor Montagem. Ou também a Michael Ballhaus, pelo seu trabalho fotográfico excelente, já visível em outros trabalhos como The Departed (2006).



Pequenos detalhes, grandes momentos fazem deste filme, uma das obras mais aclamadas e premiadas de Martin Scorsese. É uma prova genuína do seu estilo cinematográfico.

Classificação:



sábado, 26 de dezembro de 2009

O Cabo do Medo, por Tiago Ramos



Título original: Cape Fear (1991)
Realização: Martin Scorsese
Argumento: James R. Webb e Wesley Strick
Elenco: Robert De Niro, Nick Nolte, Jessica Lange e Juliette Lewis

Em Cape Fear, o talentoso Martin Scorsese consegue criar o nosso maior medo. Aqui o vilão não é uma entidade abstracta, algo sobrenatural. Max Cady é um ser humano, uma personagem real, um homem temível, assustador e arrepiante, como só a dupla Robert De Niro e Martin Scorsese sabem criar.



A astúcia e conhecimento permitem a Max Cady tornar-se o vilão perfeito para a vingança perfeita, colocando o espectador de uma forma bastante sábia no centro da acção, deixando perante sensações de verdadeiro medo e claustrofobia. Emocionalmente cria uma atmosfera bastante tensa, essencialmente devida ao desempenho de Robert De Niro que mereceu uma nomeação para o Óscar de Melhor Actor por este papel. A nível de elenco também Nick Nolte, Jessica Lange e Juliette Lewis mantêm desempenhos bastante competentes, tendo esta última uma merecida nomeação ao Óscar de Melhor Actriz Secundária.

Também em O Cabo do Medo, Martin Scorsese continua hábil na criação de dilemas internos, onde as personagens se debatem continuamente. Uma excelente direcção artística e realização culminam na certeza que poucos produzem remakes como o cineasta nova-iorquino. Remake de Cape Fear (1962), este homenageia sem nunca perder a sua identidade própria. O já falecido Elmer Bernestein (Far From Heaven) adapta a música de Bernard Herrmann (Taxi Driver) e surgem ainda dois cameos de Gregory Peck e Robert Mitchum, os protagonistas do filme original.



O Cabo do Medo não é o melhor thriller de Martin Scorsese, mas marca igualmente a década de 90, com todos os seus planos e zooms rápidos, que incutem o medo no espectador. Um filme arrepiante.


Classificação:



segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Casino, por Tiago Ramos



Título original: Casino (1995)
Realização: Martin Scorsese
Argumento: Nicholas Pileggi
Elenco: Robert De Niro, Sharon Stone e Joe Pesci

Com Casino, Martin Scorsese entra mais uma vez num universo muito seu. O submundo, as intrigas, a corrupção, a máfia e a violência. Aqui, o cineasta criou um excelente retrato de uma Las Vegas dos anos 70, diferente da cidade eléctrica que conhecemos hoje. Uma Las Vegas, buraco negro, muito bem retratada na cinematografia, mas ao mesmo tempo com cores destoantes, contrastantes e berrantes.



Esta é a história da ascensão e queda da máfia dos casinos, de uma forma violenta e crua. É o apanágio de Martin Scorsese: a violência verbal, a violência visual, a violência física. Ao mesmo tempo é a sensação que conhecemos este realizador de Goodfellas (1990), talvez devido às similaridades da personagem de Joe Pesci. É uma narrativa forte e intensa, esgotante durante toda a sua longa duração, porque nos vemos no lugar das personagens, desconfiamos intensamente de todos e de tudo. Mais uma adaptação fantástica de Nicholas Pileggi e que infelizmente foi completamente ignorada a esse nível nos galardões internacionais, mas que foi recompensado por ter ganho o estatuto de clássico.

E depois temos a voz off. As várias vozes off. E embora Martin Scorsese já houvesse usado em vários filmes a técnica da voz off, a verdade é que aqui sente-se de outra forma. Em Casino, ela tem uma importância vital. É com a sua ajuda que perdemos a subjectividade da visão que nos é dada e que percebemos o que é importante entender. Pormenores que fazem da filmografia de Martin Scorsese, uma filmografia única no Mundo.



A singularidade genial de Martin Scorsese é também ela muito evidente na (sempre) inteligente escolha do elenco. Mais uma vez temos os imponentes e habituais parceiros do cineasta nova-iorquino, Robert De Niro e Joe Pesci. Duas personagens fortes, imponentes e trágicas. Mas aqui quem surpreende é Sharon Stone, naquela que será provavelmente uma das suas melhores interpretações de sempre e que foi recompensada com um Globo de Ouro e uma nomeação para o Óscar de Melhor Actriz.

Casino é um filme com uma enorme beleza cinematográfica. Mais uma vez é a fotografia de Robert Richardson e a montagem de Thelma Schoonmaker que o conseguem. Um estilo barroco nos planos-chave, a banda sonora reflexa dos anos 70, a intensidade como que de um turbilhão de violência e de luz. É sobretudo um excelente épico de máfia como apenas Martin Scorsese consegue fazer.

Classificação:





quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Gangs de Nova Iorque, por Tiago Ramos



Título original: Gangs of New York (2002)
Realização: Martin Scorsese
Argumento: Jay Cocks
Elenco: Leonardo DiCaprio, Daniel Day-Lewis, Cameron Diaz e John C. Reilly

Talvez o maior defeito de todos em Gangs de Nova Iorque seja a ambição. É sem sombra de dúvidas, uma obra poderosa, um óptimo filme, mas não uma obra-prima. Fruto de uma produção polémica, o resultado de Gangs of Nova Iorque acaba por deixar um travo amargo no espectador. A verdade é que tal gosto repercutiu-se na Academia que, das 11 estatuetas douradas para as quais nomeou o filme, não entregou nenhuma.



Contudo, o que se confirma e muito bem na película, é a exímia capacidade Martin Scorsese, em reconstituir épocas. Aqui, vemo-nos subitamente no seio dos primórdios do nascimento dos Estados Unidos, nas batalhas carnais, cruéis e inter-geracionais entre os americanos e os irlandeses que chegavam de barco, no fim do século XIX. São lutas de gangs ferozes, de homens e mulheres de ambição e poder. É uma luta complexa e muito bem filmada, sem meias medidas, selvagem e dura. É Martin Scorsese visceral e ciente da violência que apresenta. É uma fúria de linguagem clássica, mas simultaneamente reinventada.

O poder do filme faz-se sentir sobretudo devido às soberbas interpretações de Leonardo DiCaprio e Daniel Day-Lewis. Monumentais desempenhos, uma ode à liberdade e ao poder, à mitologia fundadora de uma nação. Um herói idealista e um dos melhores vilões da década. Infelizmente, Cameron Diaz apresenta-se um erro de casting e é uma mácula na superioridade deste elenco.



Tecnicamente, Gangs de Nova Iorque é mais um grande filme. Ou não fosse Martin Scorsese reunir-se de novo com uma grande equipa. Michael Ballhaus na fotografia, Sandy Powell no guarda-roupa, Dante Ferretti na direcção artística, Francesca Lo Schiavo na decoração dos cenários, Thelma Schoonmaker na montagem e Howard Shore na banda sonora. Os habituais companheiros do cineasta nova-iorquino e que sempre têm garantido um nível técnico excelso nas obras de Martin Scorsese. Destaque ainda para a canção The Hands That Built America, um magnífico tema de encerramento.

Contudo, Gangs de Nova Iorque não é a obra-prima que ambicionava ser. Produção megalómana, perde-se no meio dos efeitos visuais e dos grandes cenários, perdendo para o argumento que se arrasta em dadas alturas e que resulta num ritmo inconstante e inconsequente. A larga duração também não ajuda, juntamente com uma visão demasiado caricatural de algumas personagens, proporcionando determinadas acções forçadas. Mesmo assim, apesar de não ser o seu melhor, o filme acaba por confirmar o estatuto superior de Martin Scorsese.

Classificação:





terça-feira, 8 de dezembro de 2009

O Aviador, por Tiago Ramos



Título original: The Aviator (2004)
Realização: Martin Scorsese
Argumento: John Logan
Elenco: Leonardo DiCaprio, Cate Blanchett, John C. Reilly e Alec Baldwin

Em O Aviador, Martin Scorsese consegue criar um fascinante e raro exercício de cinema. A própria paixão do cineasta pelo cinema é claramente notada em cada frame deste filme. É evidente a inspiração em clássicos como Casablanca (1942), à medida que recria soberbamente Hollywood dos anos 40 e 50. E na verdade, o próprio cineasta fica fascinado pela figura de Howard Hughes - personagem claramente ambígua e contraditória - que é um herói à medida de Martin Scorsese. Ao mesmo tempo que esta biopic revela um Howard Hughes puro e duro, quase invencível, de atitudes megalómanas, acabamos por sentir seu verdadeiro interior: uma figura cristalina, frágil e vulnerável.

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O estilo de realização de Martin Scorsese cria enormes bailados nos ares, imagens quase idílicas, tratamentos cromáticos diferentes para cada época retratada e detalhes sublimes, perfeitamente conjugados pela cinematografia de Robert Richardson e pela montagem original e nada convencional de Thelma Schoonmaker. São esses pequenos pormenores que fazem de O Aviador, tecnicamente virtuoso e excelso como é, de facto, raro no mundo cinematográfico. Ao primeiro olhar no filme é óbvio porque razão cinco das onze nomeações para os Óscares que recebeu, foram precisamente em categorias técnicas. E acabou por vencer em quatro dessas mesmas categorias.

Mas o maior destaque é a espantosa composição de Leonardo DiCaprio. Naquela que é provavelmente a sua maior interpretação, o actor vive uma personagem de extrema comoção e genialidade. Uma personagem rodeada de demónios anteriores e que se divide entre o idealismo e a loucura. Um desempenho excessivo - como assim tinha de ser - mas sem nunca cair no exagero. Uma personagem que vive de simbolismos, auxiliado tecnicamente por reflexos de espelhos e pela luz dos projectores da sala de cinema onde, a dada altura, se enclausurou. Por outro lado, a figura de Howard Hughes na pele de Leonardo DiCaprio é estrondosamente intensificada pela figura de duas grandes mulheres: Katharine Hepburn e Ava Gardner.



Cate Blanchett respira Hepburn em cada cena do filme e é fácil perceber porque venceu o Óscar de Melhor Actriz Secundária. É ela quem rouba o coração de Howard Hughes, de forma carismática e simultaneamente caricatural, utilizando-se dos seus sotaques e maneirismos de uma forma absolutamente genial. Do outro lado, Kate Beckinsale interpreta Ava Gardner, de um modo mais superficial, mas consegue passar a imagem da paixão a que Howard Hughes não conseguia resistir.

O Aviador é uma obra-prima, tão obsessiva quanto imaculada, tecnicamente soberba, genialmente vivida (e não interpretada) por um extraordinário elenco. Martin Scorsese realiza uma brilhante biopic - não isenta de maneirismos de género - claramente destacada pelo brilho dos projectores de cinema, que são (a par da aviação) o motivo da vida de Howard Hughes.

Classificação:




segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

The Departed - Entre Inimigos, por Tiago Ramos


Alinhar ao centro
Título original: The Departed (2006)
Realização: Martin Scorsese
Argumento: William Monahan e Alan Mak
Elenco: Leonardo DiCaprio, Matt Damon, Jack Nicholson, Mark Wahlberg e Vera Farmiga

Com The Departed - Entre Inimigos, Martin Scorsese veio mostrar que afinal, nem sempre os remakes são sinónimo de fraca qualidade. Remake de trilogia Infernal Affairs, foge do conforto da sua cidade Nova Iorque e utiliza Boston como o plano de fundo para a acção de The Departed.



Aqui constata-se, dada a crueldade das imagens e o toque subtil do realizador, uma história que poderia ter sido banal, mas que acaba elevada a algo superior. De certo modo, é um exercício de estilo agradavelmente bem filmado, que não se coíbe de levar o espectador para o centro de um mundo dúbio e violento, onde a hipocrisia e a violência reinam e onde nada é o que parece. Martin Scorsese retrata aqui com a dureza necessária uma América real e contraditória, onde acabamos no seio da corrupção da Máfia e da Polícia. Pólos distintos, mas unidos por tal imoralidade, onde se vive um contínuo jogo do gato e do rato.

Na verdade, a qualidade do filme reside na dualidade das personagens, infiltradas nos dois lados da acção - como aliás, na tradução portuguesa do título, o sufixo Entre Inimigos denuncia. É um universo obsessivo, onde o Bem e o Mal se diluem, não se conseguindo distinguir. Jack Nicholson tem um dos seus melhores papéis dos últimos anos, precisamente no papel de um líder da Máfia quase à beira da loucura, mas o grande destaque vai para Leonardo DiCaprio e Matt Damon. Ambos vivem um jogo de espelhos, o reverso das medalhas. Ambos são heróis à sua maneira, agindo sob a influência de uma mesma figura - quase paternal - tendo como consequência um natural exercício de actividades violentas e cruéis. Também Vera Farmiga é outra das grandes surpresas do elenco, acabando por se destacar como revelação cujo talento acabou por ser confirmado a posteriori.



Na verdade, ao contrário do que poderíamos supor, o factor humano é muito mais importante que o factor acção em The Departed. Essa questão humana é genialmente contrabalançada pela fotografia sublime e geralmente fria que Michael Ballhaus (Gangs of New York) nos entrega, bem como pela montagem de Thelma Schoonmaker (The Aviator) ou até a banda sonora de Howard Shore (The Aviator).

The Departed - Entre Inimigos é claramente cinema de Martin Scorsese. Não é o melhor dos seus trabalhos e peca devido à sua excessiva duração, mas é uma obra de talento inegável e que finalmente fez com que o cineasta fosse homenageado pela Academia. Foi um ajuste de contas para com alguém que estava a ser, obviamente, injustiçado. A paixão pelo Cinema efectivamente respira-se aqui.

Classificação:





domingo, 6 de dezembro de 2009

A Idade da Inocência, por Carlos Antunes

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Título original: The Age of Innocence
Realização: Martin Scorsese
Argumento: Jay Cocks
Elenco: Daniel Day-Lewis, Michelle Pfeiffer e Winona Ryder

Há algo de gratificante ao vermos um Scorsese transformado neste filme, abdicando das suas urgência e ferocidade, e ainda assim perfeitamente ambientado.
Ao invés Scorsese filma com elegância e delicadeza, deslizando pelo interior da alta sociedade da época, demorando-se nos pormenores dos movimentos e dos olhares.


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Pois são nesses movimentos e olhares que se disputa um homem, Newland Archer, que estando noivo de May Welland não resiste à aparição da Condessa Olenska, uma mulher independente e altiva.
Não é a beleza da Condessa que ameça o casamento aparentemente perfeito, é a sua rebeldia vivida no interior de uma sociedade fechada e repleta de regras rígidas feitas para estrangular todas as pulsões, todas as liberdades.
Aqui os casamentos e os comportamentos são utilitários, usados como benefícios e influências.

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Mas à conta da importância das relações e dos comportamentos, a verdade é que há verdadeiras guerras a decorrer, guerras silenciosas feitas de sugestões e expectativas, os tais olhares e movimentos a que Scorsese deu tanta atenção e que revelam tanto daquilo que é menos secreto do que se pretendia.
Neste caso particular, a luta parece entre uma mulher de enorme experiência e e uma inocente e frágil rapariga apaixonada.
Mas a verdade é que os protagonistas estão muito menos definidos do que aparentam ou não fosse a Inocência do título uma caracterização irónia.

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Os três protagonistas são muito mais do que aparentam, por vezes mais frágeis, por vezes mais ferozes, mas dificilmente dispostos a renderem-se.
O final é, pois, tão surpreendente quanto esclarecedor, desmontando por completo o jogo de aparências e poder, reclamando uma verdade que prova definitivamente a ferocidade de um mundo que parecia tão perfeito.

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O trio de actores são peões perfeitos de Scorsese e desta batalha discreta. Mesmo Winona Ryder que parece tão apagada ou esquecida em certos momentos está no tom perfeito que os eventos exigem.
Michelle Pfeiffer é, diria-se, perfeita como sempre, dona de uma elegência e sabedoria a toda a prova.
E Daniel Day-Lewis, tão exigente nas escolha dos seus papéis quanto na sua preparação para eles, não deixa espaço a sequer uma nota fora de tom na sua interpretação.
A Idade da Inocência é um clássico, dê-se-lhe a nota que se der (essa arma demasiado subjectiva). Um clássico magnífico.


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O Cabo do Medo, por Carlos Antunes

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Título original:
Cape Fear
Realização: Martin Scorsese
Argumento: James R. Webb e Wesley Strick
Elenco: Robert De Niro, Nick Nolte, Jessica Lange e Juliette Lewis

Se podemos apontar uma razão para que Scorsese tenha refeito Cape Fear, essa será a de provar ao mundo que todos são, no fundo, culpados.
A distância entre Max Cady (De Niro) e Sam Bowden (Nolte) é muito menor do que possa parecer ao início.

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Max Cady é um criminoso que sabe que o é e que se deleita com isso. 14 anos depois quer vingança por uma péssima defesa em tribunal.
Ele tem o talento brilhante para encarnar o mal, aterrorizando e ensombrando um Bowden dentro dos limites da lei, com um brilhantismo malvado.
Bowden, sabemos desde logo, não é um inocente - ou pelo menos livre de mácula - mesmo que o queira fazer transparecer para a comunidade.
Não sentimos tanta pela dele como deveríamos perante alguém que sofre um tormento como um Cady malévolo e informado.

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Aquilo que Scorsese vai provando é que os instintos de Cady estão presentes em Bowden e, no fundamental, em todos.
Pulsões a que uns se rendem com deleite e que outros tentam controlar.
A menos que uma oportunidade surja para tal, seja facilitar a prisão de um culpado ou mais uma possibilidade de trair a mulher durante a tentativa de reconciliação do casamento.
Cady está apenas a levar a situação ao limite onde Bowen tenha, finalmente, de demonstrar de forma gritante que é capaz de algo ao mesmo nível de Cady.

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Scorcese criou um noir de terror, um filme novo apesar de se tratar de um remake, certamente mais feroz e mais intenso, onde a culpa se dilui sem a evidente oposição entre um bem e um mal.
Isso tudo muito graças à interpretação de De Niro, sobrecarregado de tatuagens como que um Harry Powell (The Night of the Hunter) levado ao extremo, é aterradora e inesquecível.
Nick Nolte não tinha hipótese de rivalizar com um De Niro assim, mas tem também uma grande interpretação que não se deixa apagar perante a força de De Niro.
Cape Fear é menos surpreendente na obra de Scorsese do que parece, pois os temas da culpa e do crime presentes no coração até da pessoa mais comum estão lá com uma nova e radical roupagem.



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