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quinta-feira, 2 de junho de 2011

Carlos, por Carlos Antunes


Título original: Carlos
Realização: Olivier Assayas
Argumento: Olivier Assayas, Dan Franck e Daniel Leconte
Elenco: Édgar Ramírez, Alexander Scheer e Alejandro Arroyo

Carlos e Che são simétricos. E, à conta disso, são opostos.
São visões íntimas de homens cujos nomes se tornaram símbolos evocativos de conceitos ideológicos e cujos actos de domínio público se tornaram - mesmo entre os que os censuram - símbolos exemplares do que um homem pode alcançar por si mesmo e pela repercussão que os outros fazem de si.
Disto que têm em comum chegamos ao que os afasta, pois se Che criava o mito por nos mostrar a fraqueza humana superada, Carlos destrói o mito por mostrar a energia humana desperdiçada.
Olhar a intimidade de Carlos é ver o homem que começou com ideais e coragem terminar rendido ao que faz de um ser humano indigno de nota.
Um machista que precisava de submeter as mulheres a si, um homem que se excitava mais com a violência do que com as suas acompanhantes, um sujeito vulgar que se deixa encantar pelas histórias que os jornais contam dele, um soldado a crer no seu poder e a usá-lo para obediência dos quadros mais baixos das organizações em que se quer afirmar, um arrogante (quase) sempre em fuga.
Um "animal" como denominaríamos muitos dos homens violentos e arrogantes com que nos cruzamos no quotidiano. Porque seria diferente com este? Porque continuaríamos a dizer "O Chacal" com reverência (mesmo que apenas íntima)?
Por isso os seus actos terroristas - que Olivier Assayas faz por manter fora do ecrã - parecem momentos menores, não só no seu percurso, mas para a própria consciência histórica.
O homem que manteve a Europa refém é uma figura desagradável, um ser humano digno de desprezo e um mito que podemos censurar e retirar-lhe importância.
Assayas consegue preencher activamente as horas de filme sem recorrer à violência, que seria uma repetição maçadora. Os aspectos íntimos têm mais vida do que qualquer acto terrorista e isso é o que torna o filme tão repleto para o espectador.
Já aquilo que o torna arrebatador é a vivência de Édgar Ramirez. Vivência porque se submete às alterações físicas do seu personagem tal e qual como se as vivesse em directo. As muitas línguas que fala, a barriga que ganha e que perde e a idade que vai ganhando em ritmo acelerado, tudo são exemplos do processo que o fez chegar a esse ponto, mas é o seu desaparecimento completo por detrás da personagem que torna o seu trabalho admirável e (suponho) difícil de se libertar: tanto para os espectadores que voltem a vê-lo na tela como para a sua própria vida.
O único senão do filme é que parece correr demasiado depressa entre alguns momentos, negligenciando pormenores que, ainda não tenhamos a certeza, nos parecem ser determinantes para a visão final do personagem. Mas por isso mesmo saímos com vontade de ver a mini-série e voltar a este magnífico trabalho.


segunda-feira, 9 de maio de 2011

Carlos, por Tiago Ramos


Título original: Carlos (2010)
Realização: Olivier Assayas
Argumento: Olivier Assayas, Dan Franck e Daniel Leconte
Carlos não é tanto um filme sobre os actos da figura mítica do terrorista conhecido como “Carlos El Chacal” como é, na verdade, sobre a ascensão e queda de um ser humano cujo ego suplanta os ideais. Obra exibida na sua versão de 160 minutos (tem outra com cerca de cinco horas, que foi exibida como minissérie no Canal+) no Festival IndieLisboa 2011, marca o regresso de Olivier Assayas depois de Boarding Gate (2007) e L’heure d’été (2008).



Embora esta seja uma versão obviamente romanceada devido ao facto de alguns pormenores sobre a vida do venezuelano Ilich Ramírez Sánchez permanecerem incógnitos (salvaguardado logo de início), é uma obra marcante e historicamente interessante apresentando um retrato dos anos 70 e 80, onde a actuação de terroristas era completamente diferente do que vivemos no período pós-11 de Setembro. Período idealista e violento, onde não se distinguem as diversas facções das causas assim tão linearmente, devido à enorme ambiguidade que paira nas relações entre Estados.

O curioso e o que faz de Carlos uma obra tão competente é que Olivier Assayas nunca vai ao extremo de glorificar os feitos do protagonista ou, pelo contrário, julgar o seu comportamento e atitudes. Esta perspectiva marca também a verdadeira acepção do significado social e político da figura do terrorista Carlos: ora visto como um mercenário sem escrúpulos, ora considerado um ídolo. Edgar Ramírez é sem sombra de dúvida o ponto alto do filme. O actor conhecido pelos seus desempenhos secundários em obras como Che: Part One (2008) tem aqui o papel da sua vida, personificando com detalhe assombroso o guerrilheiro. É sobretudo impressionante a forma como assistimos à sua gradual transformação, que passa pela ascensão e glória até ao inevitável declínio. Esta transformação é brilhantemente recriada quando logo de início assistimos à triunfante pose de Carlos, nu perante o espelho, ao som de “Dreams Never End” dos New Order. Eis o mito de Carlos, banhado pela luz que entra pela janela do quarto, eis um momento narcisista de alguém impressionado consigo próprio. Se nasce aqui o mito de Carlos, el Chacal, temos também aqui o ponto de partida para o seu fim.



Perdido entre o ideal marxista e anti-imperialista, convicto do seu próprio poder e quase divindidade, Carlos é suplantado pela propaganda de si próprio. Essa visão é vista com um olhar melancólico pela câmara de Olivier Assayas. Rápida e intensa, mas sempre neutra. Essa câmara ao ombro do cineasta admira a figura de Carlos, mas sobretudo os seus gestos de veneração pelas armas e mulheres, ao mesmo tempo que nos seduz enquanto espectadores. O seu charme domina o ecrã, assim como o seu ego lhe domina a alma.

Destaque para as espectaculares cenas de acção que reconstituem eventos como a tentativa de explosão de uma avião no aeroporto de Orly ou o assalto com posse de reféns numa cimeira da OPEP, na cidade austríaca de Viena. A câmara pulsante de Olivier Assayas revela-nos simultaneamente a fragilidade e a dinâmica entre operações de guerrilha tão depressa bem sucedidas como falhadas. A sua câmara aliada ao argumento competente que condensa em tão pouco tempo cerca de 20 anos de vida de Ilich Ramírez Sánchez, com todas as mudanças geopolíticas a que obrigou assim como todas as alterações graduais de personalidade.



É verdade que a versão que assistiremos nos cinemas portugueses poderá fazer sentir a falta do detalhe e acção que a minissérie trouxe. Contudo, Carlos não deixa de ser uma arriscada obra na filmografia de um cineasta competente como Olivier Assayas. Tomara que todos assumissem riscos como estes.

Classificação:

terça-feira, 16 de junho de 2009

Cada um o seu cinema, por Carlos Antunes


Título original: Chacun son cinéma ou Ce petit coup au coeur quand la lumière s'éteint et que le film commence
Realização: Theodoros Angelopoulos, Olivier Assayas, Bille August, Jane Campion, Youssef Chahine, Kaige Chen, Michael Cimino, Ethan Coen, Joel Coen, David Cronenberg, Jean-Pierre Dardenne, Luc Dardenne, Manoel de Oliveira, Raymond Depardon, David Lynch, Gus Van Sant, Lars von Trier, Walter Salles, Roman Polanski, Nanni Moretti, Wim Wenders e Yimou Zhang
Argumento: vários

Cada um o seu cinema é, exactamente, uma relação com a sala de cinema, como pretende.
A sua conjugação de episódios estabelece uma variância de qualidade e atenção que proporciona uma alternância de sentimentos - se não mesmo de comportamentos - durante o seu visionamento.


Há momentos em que nos apetece levantar e sair para fumar um cigarro.
Outros em que ganhamos uma dolorosa consciência da sala que nos rodeia e de tudo o que lá acontece.
Outros ainda em que não percebemos que já entrámos na magia desta arte da hipnose senão quando nos volta a libertar.


Os episódios vão do documentário (ou, se preferirem, da observação particular) à piada, da reflexão à imersão na imaginação, da biografia à confissão.
Cada um poderá - e certamente assim o fará - encontrar os que mais lhe tocam, embora seja inegável que haverá sempre evidências dos que entre eles sobressaiem, para o bem e para o mal.


Polanski a filmar uma velha piada é desapontante, mais pelo que deixou por fazer do que pelo falhanço do riso.
Jane Campion a tentar ser inventiva e poética sem conseguir mais do que irritar o espectador com o seu insecto é um falhanço monumental.
Amos Gitai e o seu oco experimentalismo de simbólicas ressonâncias temporais destoa do resto do que se vê.


Mas a forma como os irmãos Dardenne e Gus Van Sant traduzem em imagens a pura magia do feitiço do cinema, a forma como Cronenberg ironiza com as modernas considerações sobre o cinema contra outros meios visuais ou a simples demanda pelo olhar feminino que é a de Abbas Kiarostami compensam tudo isso.
E entre o muito bom e o muito mau há ainda tanto a descobrir.
Para quem gosta de cinema e para quem gosta de salas de cinema, este é um filme a ver.





segunda-feira, 1 de junho de 2009

Paris, Je T'Aime, por Tiago Ramos



Título original: Paris, je t'aime (2006)
Elenco: Florence Muller, Bruno Podalydès, Cyril Descours, Julien Beramis, Leïla Bekhti, Salah Teskouk, Marianne Faithfull, Elias McConnell, Gaspard Ulliel, Steve Buscemi, Catalina Sandino Moreno, Barbet Schroeder, Li Xin, Javier Cámara, Emilie Ohana, Miranda Richardson, Leonor Watling, Juliette Binoche, Willem Dafoe, Yolande Moreau, Paul Putner, Dylan Gomong, Sara Martins, Nick Nolte, Maggie Gyllenhaal, Fanny Ardant, Bob Hoskins, Olga Kurylenko, Elijah Wood, Emily Mortimer, Alexander Payne, Natalie Portman, Gérard Depardieu, Gena Rowlands e Ben Gazzara

A cidade das luzes merece cada homenagem feita em sua honra. Palco de grandes feitos, monumentos e pessoas, este Paris, Je T'aime é uma obra de amor colectivo pela cidade, com 18 segmentos de curtas-metragens de 20 realizadores que exprimem assim os diversos sentimentos de amor em cada bairro típico da capital.



Apesar da normal diversidade e estéticas distintas das curtas, devido à reunião de nomes tão diferentes, o projecto resultou numa obra coesa e bastante inspirada sobre a temática do amor. Obviamente que há filmes que contrastam devido à qualidade, como o caso da história de amor entre um vampiro e um humano de Christopher Doyle, que resultou numa obra fraca em termos de argumento, apostando muito mais numa vertente estilística.

Por outro lado, Tom Tykwer tem uma das obras mais icónicas do projecto, tendo funcionado até como promoção à colectânea, com a participação de Natalie Portman e Melchior Beslon. O argumento não é particularmente interessante ou consistente, mas a realização e a montagem funcionam de forma bastante equilibrada, dando origem a um produto de cinema bastante bom.



Temas como a morte, as diferenças sociais, prostituição, solidão, turismo, homoerotismo, as drogas, entre outros, são abordados nesta colectânea numa vertente apaixonada e poética. Torna-se complicado então, devido a esta diversidade, eleger o favorito, que poderia passar pelas obras de Joel e Ethan Coen, Walter Salles, Gus Van Sant, Nobuhiro Suwa ou Alexander Payne.

Claro que assistimos constantemente a clichés e lugares-comuns, mas torna-se interessante assistir à criatividade de grandes realizadores que alternam entre retratos citadinos bem humorados, como dramáticos ou surrealistas. Obviamente não é uma obra uniforme, mas o estrondoso sucesso de uns colmata as falhas evidentes de outros.



Também a banda sonora de todos os segmentos equilibra muito bem Paris, Je T'aime como um produto multicultural e emotivo, juntamente com a conjugação final de alguns personagens de curtas diferentes que se cruzam e convivem, fazendo da colectânea uma prova viva da globalização, mas ao mesmo tempo um hino ao humanismo e claro, ao Amor, num bonito postal de Paris.

Classificação:



quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Boarding Gate, por Carlos Antunes


Título original: Boarding Gate (2007)
Realização: Olivier Assayas
Argumento: Olivier Assayas
Elenco: Asia Argento, Michael Madsen, Carl Ng

Boarding Gate é Asia Argento.


Sandra (Asia Argento) é uma mulher fatal e fatalista.
Ex-prostituta, sedutora quase à sua revelia mas com tendência para se entregar irremediavelmente ao amor e sujeitar-se a tudo o que os objectos desse amor lhes provoque.
Sandra reencontra Miles, um empresário com quem esteve envolvida, e o jogo de re-sedução e re-agressão entre os dois parece retomar o velho caminho.
Mas Sandra está numa nova “relação” e tem vontade de cortar com o passado.
Boarding Gate é, como o nome indicia, a procura de uma nova vida.
Embarcar na possibilidade de se tornar numa outra pessoa, num outro lugar.
É isso que faz Sandra, à procura de uma nova vida – nova identidade e nova ocupação – liberta das amarras do passado.
Quando ela enfrenta Miles (e eventualmente o mata) ficamos a saber que mulher é aquela.


Uma mulher disposta ao confronto mas também disposta ao sacrifício. Uma mulher que amou aquele homem e que agora o quer erradicar da sua vida. Uma mulher que (de uma certa forma) se deixou destruir mas também o destruiu a ele.
Sandra é, portanto, a versão mais extremada de Gilda, mas que, por isso mesmo, se arrisca às maiores provações e a um final perpetuamente infeliz.
Ao vermos Asia Argento seduzir a câmara é notório pelo seu corpo o ponto a que as suas desventuras a levaram.
Se o seu corpo transpira confiança e sensualidade, está também vincado por tatuagens que surgem como marcas do que lhe foi feito.
E é ainda com Miles, na luta (quase) territorial que eles protagonizam com disputas radicais em base de diálogos que a revelação é total.
Infelizmente este noir, com a sua vontade de se manter perpetuamente elusivo, acaba enredado em demasiados contornos tão efémeros quanto insondáveis que não lhe permitem ganhar consistência.


A narrativa acaba desequilibrada sem conseguir ser o apoio certo a Asia Argento, ainda que Oliver Assayas consiga retribuir com a câmara o seu jogo de sedução.



Publicado originalmente a 30 de Abril de 2008