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domingo, 24 de novembro de 2013

Vénus de Vison, por Tiago Ramos


Título original: La Vénus à la fourrure (2013)
Realização: Roman Polanski
Elenco: Emmanuelle Seigner e Mathieu Amalric

Se Roman Polanski sempre se destacou pelo cuidado e detalhe da direcção técnica dos seus filmes, nos últimos anos tem-se notado uma interessante utilização do espaço como mecanismo narrativo. Se em The Ghost Writer (2010), aquela casa era praticamente uma personagem, de traços direitos e com uma percepção de isolamento e claustrofobia, em Carnage (2011), o realizador vai mais longe e assumindo o lado teatral, enclausura os quatro protagonistas numa única sala. Em Vénus de Vison reaproxima-se deste lado teatral (é baseado na conhecida peça de David Ives, com quem assina o argumento) e resume a narrativa a uma sala de teatro. Se não é só por essa sensação de confinamento forçado - o primeiro plano apresenta um travelling em fuga de uma tempestade monumental - o filme acaba por encerrar neste teatro e neste palco um mundo de ambiguidades e simbolismos. É aqui, sob o olhar atento e cuidado da câmara de Polanski, que este maneja eximiamente, que entramos num magnífico e inteligentíssimo jogo de espelhos. A começar pela escolha de Emmanuelle Seigner como protagonista, a sua mulher na vida real, numa história repleta de teor sexual e controverso, que aliás permeia grande parte da vida pessoal do realizador. Mas é aí que esta brincadeira e jogo de reflexos começa e que desde logo revela o inteligente cineasta que é. Porque estamos perante um brilhante exercício de metalinguagem, numa encenação de uma encenação de uma encenação, uma actriz (Emmanuelle Seigner) a fazer de actriz, num duplo papel (ou triplo, se assim o quisermos) e um director (a personagem de Mathieu Amalric) a ser dirigido por outro (Polanski), enquanto assume também um papel de autor e actor. Na história temos um director que é afinal dirigido pela sua actriz (é também Polanski um realizador que dirige ou se deixa dirigir por estes actores?), que acaba por transita entre a ficção (quando trabalha como actor) e realidade (quando trabalha como encenador) em dois planos, sendo que Vénus de Vison assenta por isso numa espécie de matrioshka narrativa.

Por mais confuso que possa parecer, o jogo que Polanski permite e que os seus actores tão bem conduzem, assume uma estrutura orgânica na forma como se divide entre intenções e dispositivos (o livro de Sacher-Masoch, a peça de teatro e a realidade). Um filme em constante mutação, com os actores em interpretações camaleónicas, especialmente Emmanuelle Seigner que tem aqui um dos melhores papéis da sua carreira, simultaneamente ingénua, voluptuosa, sexy e manipuladora. Todos trabalham harmoniosamente (realização, argumento, actores, direcção artística e banda sonora, especialmente) para que o filme assuma esta dimensão satírica e negra tanto na tela como fora dela. Um jogo de um realizador que tem muito a dizer e que não tem medo de se assumir como é, mantendo o seu registo obsessivo e cuidado, que faz dele um dos mais magníficos realizadores contemporâneos. Pena que o filme não mantenha este jogo pelo tempo todo, deixando-se enfraquecer por um final moralista e forçado, que quase deita por terra todo o trabalho do realizador e dos seus actores, em manter este registo ambíguo e moralmente sinuoso. Mas ainda assim, perverso e sedutor, Vénus de Vison é claramente um dos melhores filmes que chegaram este ano à sala que, mesmo não sendo original, sabe rentabilizar os seus recursos e talentos, demarcando o lugar de Polanski entre os melhores.


Classificação:

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

O Deus da Carnificina, por Tiago Ramos



Título original: Carnage (2011)
Realização: Roman Polanski

No final do visionamento de O Deus da Carnificina, uma das comparações imediatas que me veio à cabeça foi Fish Tank (2009). O que não deixa de ser curioso dado o contraste entre uma película que se assume pelo seu realismo social e outra pela sua propositada teatralidade. Mas a sensação enquanto assistimos ao "confronto" do filme é a mesma que a claustrofobia de um aquário. Aquário esse minuciosamente organizado por Roman Polanski sempre tão atento aos detalhes, tornando aquela sala um local de batalha deliciosamente orquestrado pelo design de produção de Dean Tavoularis (The Ninth Gate). É precisamente essa claustrofobia que torna o filme mais polanskiano (Polanski é daqueles poucos que consegue tornar o seu nome nome num adjectivo), além de toda a iminente tensão que culmina num inevitável conflito, mas também na certeza da existência de um lado menos civilizado em cada um de nós.

Roman Polanski tem aqui um dos seus mais interessantes trabalhos precisamente pela simplicidade subjacente, embora grande parte do mérito deva ser dado também a Yasmina Reza, dramaturga responsável pela peça God of Carnage e que aqui a adapta, juntamente com o cineasta, ao grande ecrã. É essa natureza teatral que serve precisamente como pretexto para ser criada uma comédia que pode ser vista como uma sátira social e que culmina também numa óbvia moral. A carnificina que o título sugere, começa ali, naquela sala de estar que encurrala tantos os anfitriões como os convidados e que serve como uma arena de batalha para ambos os casais que se digladiam abandonando o terreno da civilização para algo mais primitivo e que a banda sonora de Alexandre Desplat antecipa logo de início.

Mas o trabalho de O Deus da Carnificina nunca estaria completo sem o body of work dos protagonistas. Jodie Foster é precisamente a que mais surpreende ao retomar um estilo de interpretação que não víamos na actriz há muitos anos, mas excelentemente bem acompanhada por uma intensa e apaixonada Kate Winslet (num divertido desempenho) e por um Christoph Waltz (sempre com a sua marca irónica), a servir de sátira a uma civilização moderna e comprovar o excelente actor que é. E mesmo John C. Reilly, o mais mediano dos actores ali presente, prova regularmente durante o filme que merece estar ali. São eles que interpretam personagens que são encurraladas ali naquela sala e que se transformam gradualmente naquela que se vê com a verdadeira natureza humana: agressivamente instintiva.

E o remate de génio no argumento e na orquestração de toda a equipa é que naquela batalha constante, o alvo nem sempre é o mesmo e se, de início, os casais se opõem, rapidamente é tempo de se ver surgir (sempre com ironia anexada) a solidariedade masculina e feminina ou até a batalha entre membros do mesmo casal. Isto porque se há algo que O Deus da Carnificina nos quer mostrar (encurralando o espectador ali naquela sala) é precisamente os males sociais actuais que advêm de uma série de problemas retratados naquelas personagens, mas que culminam essencialmente na ausência de comunicação e na dificuldade de resolver conflitos.


Classificação:

segunda-feira, 19 de julho de 2010

O Escritor Fantasma, por Carlos Antunes


Título original: The Ghost Writer
Realização: Roman Polanski
Argumento:
Robert Harris
Elenco: Ewan McGregor, Kim Cattrall, Olivia Williams e Tom Wilkinson

Dois mestres abordam o thriller e dois mestres fazem do thriller algo novo jogando pelas suas regras clássicas.
Um deles foi Martin Scorsese com Shutter Island, o outro é Roman Polanski com este The Ghost Writer que vem mostrar que continua a saber dominar os caminhos do género como muito poucos.


Um thriller sem necessidade de criar situações espalhafatosas mas com ideias de cinema ainda revolucionárias na sua ligação ao clássico.
Um thriller com entoação política mas que não necessita de agitar a crítica na cara do público para o fazer comparecer.
Um thriller com ritmo mas com espaço para respirar, com espaço para se render às personagens.


Aliás, o elenco foi magnificamente composto, sem protagonistas nem secundários, mas antes com uma partilha da construção global do trabalho de interpretação, toda ela em uníssono criando e servindo a história com o cuidado que merece.
Porque por mais que o elenco seja bom, o filme é Polanski, da sua composição de planos, da sua escolha de cenário, da sua articulação dos movimentos sensoriais.
Veja-se como o espaço arquitectónico da casa, onde há tanto espaço aberto, não deixa de ser motivo de tensões e receios. A casa que parece uma prisão vista de fora, que atrai depois na sua modernidade interior mas que deixa todos com uma sensação de liberdade - ou será isolamento - que não apaga uma percepção de estar constantemente vigiado.
Com estas subtilezas Polanski cria o ambiente que é o grande motor do filme.


É o ambiente que retrata a solidão do homem que é, não só, o fantasma de um livro a precisar de ganhar interesse, como o fantasma de um homem que morreu por esse mesmo trabalho.
A história que tem de contar tem pouco interesse, mas a história que ficou por contar traz todo um novo interesse a essa outra.
O homem que ele serve é outro à luz do homem que ele substitui. O dilema político que o filme retrata - e bem, com espaço para o espectador tirar ilações se assim lhe apetecer - é consequência do dilema humano que vive um homem apagado pelas vidas dos outros.
Um homem num espaço que o influencia e a ele connosco.
Num filme sobre um escritor, é apenas natural que Polanski resolva o seu thriller com um bilhete passado de mão em mão até à fila da frente que causa a mesma dose de curiosidade e indiferença sabendo-se que logo depois de lido aquele bilhete será um pedaço de lixo esquecido.
Isto porque, na verdade, o seu thriller já estava resolvido, sem absurdos nem um esticar da realidade admissível.


As indicações de quem era o "culpado" nascem do ambiente que cria. Sabe-se quem é que está por detrás de tudo sem revoluções que colocam em causa da inteligência do espectador, apenas por transmissão de um sentimento de perturbação que se opõe ao traço geral de sedução do filme.
Polanski faz com as imagens o mesmo que o escritor fantasma anunciava sobre o manuscrito que leu: as palavras estão lá mas todas fora de ordem.
Se a narrativa cumpre este prenúncio, o filme cumpre-o também deixando sempre as indicações à mercê de um espectador que sente que algo não está correcto no que vê, ainda que tudo seja perto de perfeito às mãos de quem comanda o filme.


Polanski introduz-nos por completo no ambiente da história que quer contar. Seduz-nos com a construção de um quadro que se estende para o exterior, que cria uma ligação do espaço da tela ao espaço que o espectador tem à sua volta.
Para acabar como comecei, vê-se que Polanski insinua-se para o exterior da tela enquanto Scorsese usava todas as armas para nos puxar para o seu interior. O resultado, no entanto, é o mesmo, a precisão da história a contar, a construção do cinema sem artifícios mas com um toque de ourives e uma conquista do espectador com a surpresa de até onde o Cinema ainda pode chegar.



terça-feira, 16 de junho de 2009

Cada um o seu cinema, por Carlos Antunes


Título original: Chacun son cinéma ou Ce petit coup au coeur quand la lumière s'éteint et que le film commence
Realização: Theodoros Angelopoulos, Olivier Assayas, Bille August, Jane Campion, Youssef Chahine, Kaige Chen, Michael Cimino, Ethan Coen, Joel Coen, David Cronenberg, Jean-Pierre Dardenne, Luc Dardenne, Manoel de Oliveira, Raymond Depardon, David Lynch, Gus Van Sant, Lars von Trier, Walter Salles, Roman Polanski, Nanni Moretti, Wim Wenders e Yimou Zhang
Argumento: vários

Cada um o seu cinema é, exactamente, uma relação com a sala de cinema, como pretende.
A sua conjugação de episódios estabelece uma variância de qualidade e atenção que proporciona uma alternância de sentimentos - se não mesmo de comportamentos - durante o seu visionamento.


Há momentos em que nos apetece levantar e sair para fumar um cigarro.
Outros em que ganhamos uma dolorosa consciência da sala que nos rodeia e de tudo o que lá acontece.
Outros ainda em que não percebemos que já entrámos na magia desta arte da hipnose senão quando nos volta a libertar.


Os episódios vão do documentário (ou, se preferirem, da observação particular) à piada, da reflexão à imersão na imaginação, da biografia à confissão.
Cada um poderá - e certamente assim o fará - encontrar os que mais lhe tocam, embora seja inegável que haverá sempre evidências dos que entre eles sobressaiem, para o bem e para o mal.


Polanski a filmar uma velha piada é desapontante, mais pelo que deixou por fazer do que pelo falhanço do riso.
Jane Campion a tentar ser inventiva e poética sem conseguir mais do que irritar o espectador com o seu insecto é um falhanço monumental.
Amos Gitai e o seu oco experimentalismo de simbólicas ressonâncias temporais destoa do resto do que se vê.


Mas a forma como os irmãos Dardenne e Gus Van Sant traduzem em imagens a pura magia do feitiço do cinema, a forma como Cronenberg ironiza com as modernas considerações sobre o cinema contra outros meios visuais ou a simples demanda pelo olhar feminino que é a de Abbas Kiarostami compensam tudo isso.
E entre o muito bom e o muito mau há ainda tanto a descobrir.
Para quem gosta de cinema e para quem gosta de salas de cinema, este é um filme a ver.