Mostrar mensagens com a etiqueta Lars Von Trier. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Lars Von Trier. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Ninfomaníaca: Volume 2, por Tiago Ramos


No final do primeiro volume, Joe grita "Não consigo sentir nada". E ao espectador apetece-lhe gritar também. É um facto. Não conseguimos sentir também. E se a Joe, a vida agora lhe negava o prazer (ou a sua fuga), também nós nos sentimos privados desse mesmo direito. Daí que se parte para o segundo volume com essa expectativa, a de sabermos se haveria algo para sentir ali, se havia algo mais para além da sua visível condição de cínico, se havia algo de facto para sentir. É quando nos apercebemos que afinal, Lars von Trier sempre esteve por ali e se pensámos de outra forma, se achámos que dentro daquele humor bizarro havia uma noção contrastante do habitual modelo do cineasta, foi porque este no induziu em erro. Manipulou-nos do início ao fim, levou-nos às origens da adição por sexo (Joe não é uma viciada em sexo, avisa-nos: é uma ninfomaníaca), aqui leva-nos ao lado negro e mais profundo do mesmo. Brincou connosco, criou inúmeras referências, metáforas mirabolantes por Seligman, para gozar com a nossa eventual sobre-análise, para nos divertir e nos deixar absolutamente desarmados. Fê-lo para depois nos esbofetear e pontapear, para nos revoltar (quem não se sentiu assim, quando este parece encenar o prólogo de Antichrist?), para nos esmagar e levar ao abismo junto com a sua protagonista. Fez-nos escarnecer a tolice masculina, para depois nos fazer regressar à misoginia do costume. Fez-nos sentir repulsa. Fez-nos sentir.

Provocador e cínico, leva-nos a observar a odisseia de uma mulher que é também a sua. Que revisita os seus temas, as suas condições e os seus propósitos. Charlotte Gainsbourg tem neste segundo volume o destaque para brilhar, para se entregar às nefastas vontades do seu realizador, para se subjugar (as cenas com Jamie Bell são de uma violência esmagadora - a interpretação é notável), para nos enganar também. Maliciosamente entrega-nos aos seus propósitos. Estarrecedora cena com Jean-Marc Barr. Revolta-nos, pontapeia-nos, manipula-nos. Aqui está. É Lars von Trier. Afinal sempre esteve aqui.

É por isso que o lado mais cruel da acção de Lars von Trier é visível no clímax da sua narrativa. A mulher que nunca vira redenção em si mesma, que se via como a personificação do pecado e do mal, sem qualquer hipótese de salvação, apercebe-se agora que talvez afinal haja - contra todas as improbabilidades estatísticas - a hipótese de se redimir. A nós enquanto espectadores, manipulados desde o primeiro volume a acreditar em alguma condescendência dentro do tom por si só irónico (quase divertido), pareceu-nos também que sim. Caímos na mesma armadilha de Joe, para voltarmos a ser manipulados como sempre o fomos por Lars. Não há salvação, não há hipótese. E deita-se por terra toda e qualquer teoria do um num milhão, citada por uma qualquer psicóloga de validade duvidosa. Porque não há redenção, só condenação. E a condição biológica permite-nos talvez só um fim. Somos manipulados, mas ao menos dentro do embuste, sentimos algo. E por mais imoral e abjecto que possa ser, esse é um sentimento tão válido como qualquer outro.


Classificação:

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Ninfomaníaca: Volume 1, por Tiago Ramos


Título original: Nymphomaniac: Volume 1 (2013)
O nome de Lars von Trier tornou-se aparentemente quase indissociável da palavra marketing, não só por culpa do próprio, mas também por conta da máquina promocional que se aproveita do seu próprio potencial polémico. Daí não vem mal maior, por si só, mas permite avaliar um dos motivos para muita da incapacidade de apreciar o produto isolado do seu autor. Isto para dizer que Nymphomaniac, desde o seu processo de pré-produção, esteve sempre rodeado desse burburinho que parece ser cada vez mais atreito, directa ou indirectamente, ao realizador dinamarquês. Uma dessas decisões que advêm do marketing correspondeu à divisão do filme em duas partes e por isso sim, de sumária importância analisar. Isto porque logo no início, ainda a tela está a preto - e assim continua por alguns minutos - é-nos anunciado que essa mesma divisão foi feita com autorização do realizador, mas alheia de certo modo à sua vontade. "Sem o seu envolvimento", como que a avisar-nos que aquilo que estamos prestes a ver, não era necessariamente aquilo que o seu autor queria que víssemos. Daí que se torna difícil avaliar esta primeira metade por si só - atendendo ao facto de ser isso mesmo, uma metade de um filme, para além da óbvia questão moralista da censura.

Na verdade, o filme é propenso a menos polémica do que a sua própria campanha de bastidores sugere, já que apesar de ter o sexo como óbvio e claro tema transversal, parece mais inclinado a ser um interessante estudo filosófico e psicológico acerca das motivações humanas. E esse estudo é o que faz do filme, simultaneamente, o mais e o menos interessante. Porque teoricamente e na sua ambição, Nymphomaniac tinha de facto tudo para resultar, tendo como principal recurso a vontade de criar uma espécie de charada com o espectador. Essa charada, repleta de metáforas (é o filme ele mesmo, uma delas?), que faz inteligentes (?) associações entre o sexo e a pesca, entre o sexo e a sequência de Fibonacci ou entre o sexo e a música de Bach. É um jogo válido, uma brincadeira interessante e altamente teórica, que embora merecedoras de atenção individualmente (nem que seja por uma mera e simpática curiosidade), acabam por perder a sua força em todo o conjunto. O exagerado didactismo das intervenções e que teimam em explicar em demasia o significado por detrás das metáforas tornam todo este primeiro volume uma amálgama de conceitos, uma enciclopédia visual, que se torna demasiado bizarro em alguns momentos. A insistência nessa estrutura de capítulos propicia ainda mais o sentido dessa intenção (ou casualidade?), que faz permanecer a dúvida se estamos perante algo forçado, genial ou genialmente forçado. É a mística de Lars von Trier em acção que, dentro e fora da tela, permite esse jogo de aparências, fazendo voltar a à apreciação inicial: é o filme indissociável do seu autor?

Ainda assim há que admitir que este Ninfomaníaca: Volume 1 permite-se a momentos divertidos e curiosos, dotados dessas invulgar manipulação do espectador, fazendo-nos sentir constrangidos (mas nunca chocados) não necessariamente pelo que estamos a ver, mas pela forma como o tema nos é apresentado. E estamos rodeados de momentos (in)voluntariamente divertidos, com destaque para o clube das jovens, com a máxima "Mea vulva maxima vulva" ou a brilhante sequência protagonizada por Uma Thurman, genial na intenção passivo-agressiva do seu autor. Nota ainda para a brilhante Stacy Martin, uma revelação na forma ambígua como se passeia entre a sua ingenuidade e a sua intensa sexualidade.

Até agora e ironicamente, o primeiro volume de Ninfomaníaca é divisivo na apreciação, não sabemos ainda se por conta do objecto ou da sua estrutura forçosamente bipartida. Mas na realidade, de chocante, apenas a inocuidade do produto. Espera-se pelo segundo volume.


Classificação:

sábado, 2 de junho de 2012

Melancolia, por Carlos Antunes


Título original: Melancholia
Realização: Lars von Trier
Argumento: Lars von Trier
Editora: Clap Filmes

Não volta a haver em Melancolia um momento tão eloquente como os cinco minutos do prólogo onde todo o filme se resume com beleza e exactidão.
Esses cinco minutos tornam o resto do filme redundante. Não fosse por as mesmas história e metáfora estarem já e melhor narradas, seria porque a revelação do destino final das personagens - e da Terra - nos torna indiferentes ao seu percurso.
Começa-se por um casamento onde ninguém mediu a sua desproporção perante a realidade e durante o qual a noiva parece incapaz de evitar dar-se ao luxo de minar a felicidade que os outros esperam ver nela.
Justine desaparece por longos períodos, refugia-se num longo banho, faz sexo com um dos convidados que mal conhece e emborca álcool como combustível para continuar a representar o papel de noiva.
À sua volta acumulam-se as figuras típicas que - assim Lars von Trier nos quer fazer crer - tornam a vida de alguns tão horrífica por estarem rodeados da norma humana de bons e maus.
As personagens são as representações da visão que Justine - e Lars von Trier que, sejamos honestos, escreveu uma metáfora sobre si mesmo - tem dos peões do Mundo. Uma visão limitada, tornada preconceito, de quem não sabe olhar para si mesmo.
Vale a pena enumerar as personagens e as suas características para vermos como nenhuma tem um traço redentor aos olhos da noiva. O seu pai é um homem feliz e despreocupado mas que pouco investe no amor às filhas. A mãe é uma cabra amarga que só aceita que os outros sejam tal e qual ela. A irmã é controladora, pensando que pode salvar Justine da sua tristeza apenas pela demonstração do seu próprio auto-domínio. O cunhado obteve enorme sucesso mas apenas sabe agora ver a vida pela medida do dinheiro que a ela atira. O chefe é um homem que reconhece o talento mas que o explora ao ponto de perder a noção dos sentimentos humanos. O marido é um homem demasiado bom que, ao aceitá-la, não lhe consegue impôr uma vida que contrarie aquela que ele se vê obrigada a levar.
Todas as figuras são culpadas de minarem o terreno por onde Justine poderia fugir à sua melancolia, mas todas elas não são mais do que versões do individualismo errático de Justine que de nada as pode acusar excepto de não a colocarem a ela à frente de si mesmos - o que eles a poderiam acusar a ela.
O casamento tem intenções que não vão além do de montar um mundo que não compreende Justine. Um mundo em que ela é uma espécie de pária por não aceitar as desculpas que os outros têm para viverem confortáveis, seja em boa ou má disposição.
Essas intenções são importantes para fazerem a oposição à segunda metade do filme, uma metade que pouco parece ter a ver com esta primeira e que é a mais substancial (a haver uma).
No momento em que se percebe que aquilo que Lars von Trier conseguiria explicitar em não mais do que duas ou três cenas, durou uma hora num estilo de câmara à mão em busca de uma energia naturalista que nunca surgiu, está-se completamente separado do filme rodando sobre a ideia de que não houve sentido em ver tudo aquilo se estas personagens vão estar mortas dentro de mais uma hora, quando finalmente o planeta Melancolia se aproxima da Terra.
Entrando na segunda metade do filme, este inverte o papel das personagens - as poucas que recuperou do ensemble anterior - por inverter o estado do mundo. Do conforto passou-se à catástrofe e, com isso, os que julgavam ter o controlo de si mesmos não conseguem dominar o medo e Justine torna-se na arauta da aceitação. Ela engolfa-se no fim do mundo com serenidade. Afinal, quem prevê sempre o pior, acabará por nele acertar, estando mais do que preparado para viver uma forma própria de alegria por isso.
Na mansão que albergou o enorme grupo de casamento sobram Justine e Claire, irmãs em momentos opostos da vida, senhoras da situação em momentos opostos do Tempo.
Estão isoladas num espaço inesgotável e o infinito tempo escasseia. E é, no meio desse desnorte, que Justine se revela para dominar o terror de que Claire parece incapaz de resguardar o seu próprio filho.
Se são estas personagens a viver a transformação da realidade e das personalidades, está-se obrigado a perguntar porque se teve de olhar para as outras figuras ou porque teve o mundo de ser destruído se a tragédia privada as colocaria na mesma posição.
O que nos fica disto é que Lars von Trier quis alertar para a preponderância que os melancólicos como ele têm no mundo. Autores que desconfortam as almas humanas mas que são capazes de as sossegar quando o fim está à vista. Criadores até ao limite, como Justine que cria uma pequena realidade para três pessoas que ainda vai a tempo de os levar para longe do desastre.
Era escusado ter criado uma metáfora tão exagerada - um planeta gigante feito de gases, nem mais nem menos - para se justificar ou purgar a si mesmo: o cinema psicanalítico deve ser projectado nas paredes da casa de cada um.
O filme torna-se mais doloroso de assistir quando houve um momento em que filmou o carácter enigmático de Justine que a poderia ter tornado na personagem que atrai a si todos os olhares apagando a consciência para o fim do resto de um mundo que não tem interesse porque dele não faz ela parte.
Justine banha-se nua à luz da catástrofe e não se sabe se conscientemente a atrai para si ou se apenas insconscientemente se deleita nela. A cena está entre o melhor da filmografia de Lars von Trier mas morre no meio de um filme que se conta entre o seu pior.



Extras

Três curtos documentários, O Universo, Efeitos Visuais e O Estilo Visual, dão uma visão técnica do filme na sua atenção ao detalhe científico e na sua diversidade de escolhas técnicas para obter a qualidade visual do mesmo.
Um outro, Sobre o filme Melancolia, aproxima-se mais dos actores e das questões emocionais que ressoam no filme.
Mesmo assim ficam longe dos documentários mais intensos que nos habituámos a ver acompanhando o trabalho do realizador.


domingo, 18 de dezembro de 2011

Melancolia, por Tiago Ramos


A melancolia de que fala o título é bem mais que o planeta que ameaça colidir com a Terra. Aliás, é bem mais ainda que o estado depressivamente catatónico experienciado de certa forma pelas duas protagonistas (numa primeira instância e clinicamente falando, mais em Justine que em Claire). Melancolia é um filme à (e sobre a) deriva e ainda bem que o é. O que Lars von Trier faz aqui é encenar o apocalipse: de um casamento, de uma família, de uma relação, de uma personalidade, do mundo. O apocalipse existe, de início, naquele magnífico prólogo (a juntar ao igualmente requintado prólogo de Antichrist), de forma operática, ao som de Wagner e do seu Tristão e Isolda, enquanto se observa aquele inverno retratado por Pieter Brueghel, o Velho, na pintura Caçadores da Neve. O apocalipse é todo aquele destino magneticamente trágico.

A colisão que é iminentemente recordada nesse prólogo é igualmente a colisão de duas irmãs, entre si e contra elas próprias. Irmãs essas protagonizadas por Kirsten Dunst (retrato de uma depressão tão cruelmente genuína - que lhe valeu a Palma de Ouro em Cannes 2011) e Charlotte Gainsbourg (em agonia consigo própria e contra a consciência da ausência do controlo que outrora teve), ambas com uma das melhores performances do ano em cinema. Curioso que Lars von Trier tão bem as opõe, dividindo o seu Melancolia em dois capítulos portadores dos seus nomes - Justine e Claire. A mesma Justine que inicia o filme numa quase-referência a The Celebration (1998), de Thomas Vinterberg, num casamento que é um micro-cosmos da sua vida, mas também do trágico destino do planeta. Logo ali, na brilhante cena da limusine, o destino está fadado. A melancolia de Justine que a leva a um profundo estado de depressão é perfeitamente recriada pela metáfora do planeta que absorve o ar da Terra e gravitacionalmente atrai o que está próximo, resultando num impacto que tudo absorve. A mesma Claire que se vê conscientemente auto-controlada na primeira metade do filme, para depois entrar num pânico enorme de quem se vê inevitavelmente condenada a um destino que não deseja (de quem tem algo a perder). Pois Justine não o tem e Lars von Trier ironicamente provoca o espectador.

Dizem os mais puristas (dever-se-ão chamar assim?) que, ao abandonar o terreno do Dogma 95, Lars von Trier perde também a noção do seu cinema mais genuíno. Se o perde ou não, far-nos-ia entrar no terreno ambíguo da definição de cinema e genuíno. Mas na verdade, este terreno que o cineasta mais abertamente começou a abraçar em Antichrist (2009), revela-se também num dos mais inquietantemente trágicos (e belos?) e filmes. Ao olharmos para o Lars von Trier de há uns anos atrás nunca conseguiríamos imaginar neste magnífico trabalho de montagem, conjugado com esta assombrosa fotografia (Manuel Alberto Claro ou este trabalho no que diz respeito ao design de produção. Tecnicamente irrepreensível. Mas também não conseguiríamos imaginar que com tão grandiosa equipa técnica conseguiria fazer o mesmo que fazia: provocar de forma tão niilista. Lars von Trier não faz mais que nos provocar a nós espectadores (nós que tantas vezes o criticamos) com o aumento (quase telescópico) das nossas próprias falhas morais. São essas falhas que nos conduzem ao extremo estado de impotência, a esta apocalíptica melancolia ou dormência com que nos defrontamos assim de quando em vez. «Estamos sozinhos», diz Justine. E perante tal trágico destino, resta-nos encontrar esta serenidade perante o apocalipse.


Classificação:

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Anticristo, por Tiago Ramos



Título original:
Antichrist (2009)
Realização: Lars von Trier
Argumento: Lars von Trier
Elenco: Willem Dafoe e Charlotte Gainsbourg

Saber reconhecer uma obra-prima ou uma peça de arte é, em alguns casos, saber olhar de uma forma superior e transcendente à repugnância e choque que nos provoca. É saber olhar para algo que o instinto animal nos faz rejeitar e compreender a motivação por detrás disso. Mas simultaneamente reconhecemos tal estatuto num filme quando o seu objectivo não é efémero e faz perdurar na mente do espectador, a reflexão.


Anticristo é um desses poucos filmes. Fora a sua natureza chocante que se tornou alvo de várias críticas exacerbadas, inclusive uma não-recomendação do Júri Ecuménico do Festival de Cannes deste ano, o filme deve ser avaliado como algo mais. O último filme de Lars von Trier centra-se obviamente na polémica, afinal toda a sua filmografia caracteriza-se por esse efeito, mas seguramente não é essa polémica que faz o filme.

O cineasta dinamarquês consegue desenvolver um intenso clima de tensão psicológica, consequência do próprio estado depressivo em que se encontrava aquando a realização do projecto. O filme consegue, em todos os momentos, engolir os espectadores na direcção de um enorme poço angustiante, mantendo uma atmosfera melancólica e profundamente densa.

Mesmo no belíssimo prólogo, quase idílico, Lars von Trier consegue iludir o espectador, confrontando-o entre a beleza do preto e branco em slow-motion, ao som de “Lascia ch’io pianga”, interpretado Tuva Semmingsen e a catástrofe familiar que ocorre simultaneamente. A lente do cineasta ultrapassa todas as barreiras convencionais, onde tanto convergem noções cruas e brutais, como de beleza artística. Em Anticristo, o realizador utiliza o habitual sistema de divisão por capítulos, mas desta vez aborda uma viagem kármica, num questionamento da natureza humana. As imagens fortes e chocantes – são todas elas justificadas – servem para rematar o processo de luto, catalisador da dor e consequente insanidade e sadismo.

As interpretações soberbas são, também elas, contrastantes. A personagem William Dafoe, de sua natureza fria e, de início, brutal, contrasta com a de Charlotte Gainsbourg, inicialmente passiva, mas por fim sádica. É inclusive este desempenho feminino que merece o maior destaque, tornando-se o papel de uma vida para a actriz, mas também uma das mulheres mais fortes da filmografia do cineasta.

Tecnicamente, o cineasta abandona de uma vez por todas o Dogma 95, para utilizar todos os recursos à sua disposição para criar uma obra de arte maior. A cinematografia de Anthony Dod Mantle é das mais líricas que temos visto, superior às técnicas utilizadas em Dogville (2003) e Manderlay (2005).

Por fim, as respostas estão contidas na Natureza. Tanto a animal, como a vegetal. A Natureza é a Igreja de Satanás. É a natureza humana, da dor ao caos, os três mendigos personificadores do Mal. Anticristo é visceral nessa conclusão, num distúrbio de sentimentos divergentes, que sem chegar a uma resposta concisa, permite ao espectador o seu auto-exame, a procura de uma resposta maior e transcendente. Uma convulsão artística que resulta num dos melhores filmes dos últimos anos.

Classificação:

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Epidemia, por Tiago Ramos



Título original: Epidemic (1987)
Realização: Lars von Trier
Argumento: Lars von Trier e Niels Vørsel
Elenco: Lars von Trier, Niels Vørsel, Allan De Waal, Ole Ernst, Michael Gelting e Colin Gilder

Quer se goste, quer se odeie, a verdade é que é impossível ficar-se indiferente a um filme de Lars von Trier. Epidemia é um dos seus primeiros trabalhos mais conhecidos e o segundo capítulo da conhecida Trilogia da Europa ou Trilogia Hipnótica. É maioritariamente uma obra incomodativa e constrangedora.

Em Epidemic vivemos um filme dentro de um filme. Lars von Trier é Lars von Trier e divide cena com o argumentista Niels Vørsel, que é também ele próprio. Ambos criam um curioso exercício de desconstrução da criação cinematográfica, onde tentam escrever um argumento para um filme de terror sobre uma epidemia. Mas a dada altura, essa epidemia materializa-se e ocorre realmente à sua volta. Aí vemos dois filmes. O filme escrito e visualizado e o filme que é, realmente, o filme.



Ao mesmo tempo, encontra-se o habitual sentido crítico do realizador dinamarquês. Somos imediatamente remetidos para o mundo moderno onde as epidemias são condicionadas perante aquilo que são políticas governamentais e de instituições privadas, pelos jogos de pressão e até pelo terrorismo. Com Epidemic encontramo-nos invadidos. Lars von Trier gosta de o fazer, manipulando o espectador, colocando-o de encontro aos seus medos, enfrentando-o. Estamos no mundo da doença, do sofrimento e da morte. Mas mais que ter medo do inevitável, o realizador sabe (e muito bem) que temos mais medo do desconhecido. Do que não podemos (e não conseguimos) controlar, do incerto.

Tecnicamente, Lars von Trier continua com os seus maneirismos (não no sentido negativo). De modo curioso, utiliza a diferenciação entre ficção e realidade, com recurso à banda sonora, mas também na mudança de 35mm para 16mm. Temos um filme a preto-e-branco, tal como a história que nos é contada, um abismo de medos e incertezas, com imagens pouco límpidas – mais uma vez como a própria intenção do argumento.



Em Epidemic, a dada altura, diz-se que um filme deve ser como uma pedra no sapato. E este é-o realmente, porque incomoda, porque gelifica como, aliás, toda a filmografia do realizador.

Classificação:

domingo, 8 de novembro de 2009

Medea, por Tiago Ramos



Título original: Medea (1988)
Realização: Lars von Trier
Argumento: Carl Theodor Dreyer e Euripides
Elenco: Kirsten Olesen, Udo Kier e Henning Jensen

Medeia é das figuras mitológicas mais inspiradoras da História, influenciando muito daquilo que conhecemos como Arte. Essencialmente são os seus sentimentos cruéis e contraditórios que resultam numa interessante obra que Eurípides tornou numa tragédia grega e que Lars von Trier teve ideia de adaptar, numa obra feita directamente para televisão.


Encontramos em Medea, aquilo que o realizador dinamarquês usou para criar as mulheres de força, mais icónicas da sua filmografia: Emily Watson em Breaking the Waves (1996), Björk em Dancer in the Dark (2000) e Nicole Kidman em Dogville (2003). Uma mulher sofredora, mas que ao mesmo tempo rejeita o conformismo. Um conflito de personalidade, onde o amor e o ódio ocupam o mesmo espaço, resultando numa das figuras mais impressionantes da dramaturgia mundial.

Ao contrário de Dogville, em Medea o carácter da personagem transforma-se ao longo da trama, porque de início ela é desprovida de ira. Mas com uma breve referência ao seu passado traumática, torna-se numa mulher cheia de ódio e vingança. Um fantástico desvendar das origens da filmografia de Lars von Trier, mas longe de ser o seu melhor, pois revela-se uma obra minimalista e melodramática. Mais do que poderíamos esperar do realizador.

Contudo e apesar de tudo, o realizador consegue imprimir o seu cunho a Medea, usando o silêncio e as imagens de uma forma espantosa. O realizador usa técnicas de montagem revolucionárias para a altura, usando a técnica chroma key para dar um visual mais moderno à sua película.


Medea não é mais que uma experiência de Lars von Trier, que funcionou com um grande laboratório para toda a sua obra seguinte. Dada também à sua curta duração, o filme não causa grande impacto no espectador (especialmente porque a grande maioria conhece o mito que lhe deu origem), mas que de certa forma resulta numa interessante obra de estudo do realizador.

Classificação:

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Manderlay, por Tiago Ramos



Título original: Manderlay (2005)
Realização: Lars von Trier
Argumento: Lars von Trier
Elenco: Bryce Dallas Howard, Isaach De Bankolé, Danny Glover e Willem Dafoe

Segunda parte da trilogia EUA - Terra das Oportunidades, Manderlay cria novas questões da parábola que Lars von Trier começou com Dogville (2003). A voz de Deus é a mesma, a mesma narração omnisciente e omnipresente, mas a atitude de Grace mudou. Se em Dogville, víamos uma protagonista ingénua e apesar de tudo, crente na Humanidade; em Manderlay temos uma certa arrogância idealista.



Utilizando a mesma estética de ausência de cenários, o filme não causa tanta estranheza inicial como o seu antecessor. Contudo, assistimos a uma reinvenção da personagem Grace, de uma gélida Nicole Kidman, para uma mais calorosa Bryce Dallas Howard. Essa alteração é propositadamente feita para se notar a evolução da personagem, mas ao mesmo tempo como se torna vítima dos seus próprios ideais e como, de certo modo, ilude o espectador. Inicialmente, encontramo-la com uma doçura enigmática (como que ignorando os eventos anteriores), para depois a vermos crescer no autoritarismo, vaidade e prepotência.

Manderlay é muito mais ligeiro que Dogville. A crítica à sociedade continua, mas é desta vez mais directa no âmago do orgulho americano, usando a temática do racismo e do fim da escravidão. É uma crítica à liberdade superficial, nunca associada à melhoria das condições de vida e uma interessante recordação de passagens bíblicas, de quando os hebreus foram libertados da escravidão do Egipto, mas que se lamuriavam constantemente de falta de condições. É uma visão, ela própria racista, mas muito assente na escravidão cultural em que ainda se vive. É o ponto de vista de Lars von Trier, provavelmente muito mais gratuito que o seu antecessor, mas também mais ingénuo. Não deixa de ser uma visão de um outsider e portanto diferente do real, mas muito mais leve.



Em termos estéticos, a ausência de cenários sente-se de forma diferente. Existe um maior número de adereços e uma menor subtileza dos actores e da própria câmara, na forma como joga com a ausência de divisões, o que diminui (e muito) o filme em impacto emocional. O que o filme ganha em mainstream, perde em fôlego, prejudicando-se quando utiliza uma crítica mais gratuita, delegando a importância das personagens para segundo plano. Isso resulta em uma grande parte do elenco subaproveitado.

É nesse sentido que os maiores destaques são Bryce Dallas Howard, Isaach De Bankolé, Danny Glover. Todos suficientemente fortes para suportar quota parte do filme, mas simultaneamente frágeis para não o agarrarem por todo. Contudo, Lars von Trier sabe distanciar-se do status da figura do actor, conseguindo dar a mesma importância a estes três (se bem que como já foi dito, o restante elenco é acessório).



Manderlay é sobretudo difícil de classificar. Tendo tanto de mau, como de mau. É difícil de comparar com o seu antecessor, por demarcar-se tão fortemente do mesmo. É um filme claramente ambíguo, que não deixa de ser ingénuo, mas também provocador, deliberadamente. É contudo uma continuação da estética única que o realizador revelou ao mundo, deixando o espectador curioso por saber quais as paredes que ele irá derrubar, quando a terceira parte da trilogia vir a luz do dia.

Classificação:


quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Dogville, por Tiago Ramos



Título original: Dogville (2003)
Realização: Lars von Trier
Argumento: Lars von Trier
Elenco: Nicole Kidman, Harriet Andersson, Lauren Bacall, Paul Bettany, Patricia Clarkson, Jeremy Davies, Ben Gazzara, Philip Baker Hall e Siobhan Fallon

Muitas das filosofias de vida intemporais admitem que para atingir o estágio final de auto-realização é necessário um total sentido de despojamento. Lars von Trier tenta fazer o mesmo com Dogville: uma obra despojada de quaisquer artifícios que, ao abdicar dos cenários e adereços, privilegia o interior de cada uma das personagens, distinguindo o essencial do supérfluo.



Dogville constitui a primeira parte da trilogia EUA - Terra das Oportunidades e torna-se numa interessante e polémica parábola sobre o ser humano, a escolha individual vs a escolha colectiva, o individualismo vs o conformismo, uma crítica à sociedade de classes, numa simplificação à natureza des(humana) de todos nós. Não obstante gostos pessoais, não podemos negar a originalidade do cineasta dinamarquês. Minimalista, utiliza apenas algumas linhas para demarcar a divisão dos cenários, o que permite reparar no plano secundário face à acção principal (note-se a polémica sequência da violação em que as restantes personagens continuam os seus afazeres diários, impávidas).

Mais uma vez, Lars von Trier mostra ser um (excelente) manipulador de emoções que nos leva a querer algo que, no seu fim, recusamos veementemente. Impõe o espectador perante o dilema, dá-lhe uma posição activa, fá-lo temer-se a si próprio e à sua natureza. Faz reconhecer a natureza maligna do ser e não lhe reconhece qualquer outra boa qualidade. Afinal, as personagens que pareciam ser bondosas e tolerantes apenas o faziam por interesses pessoais e por isso mesmo encontramos em cada uma delas, a personificação das fraquezas humanas: a vaidade (Chloe Sevigny), o orgulho (Ben Gazarra), a ira (Patrícia Clarkson), a luxúria (Jean-Marc Barr), a avareza (Lauren Bacall) e a inveja (Stellan Skarsgard). Sobretudo, ao dar a esta trilogia o nome EUA – Terra das Oportunidades, Lars von Trier pretende ironizar a condição e a política norte-americana, tal como se pode notar no fim com recurso a imagens tiradas nos Estados Unidos, na década de 30, ao som de Young Americans, de David Bowie.



É um filme claramente político e social que transforma a vila numa espécie de laboratório, numa clara crítica à sociedade americana e geral. Muito ao estilo da obra de Franz Kafka, Dogville aborda temas como a fuga, paranóia e influências exteriores, rematando também com uma crítica aos intelectuais e pensadores que são meros passivos perante a sociedade. São todos estes elementos do filme que revelam a visão de Lars von Trier: a humanidade não tem salvação. Perante tudo isso, a protagonista torna-se descrente no ser humano e desencadeia o que poderíamos chamar de Juízo Final, numa clara alusão bíblica.

A nível do elenco, destaca-se sobretudo Nicole Kidman, numa das suas melhores interpretações de sempre.Mas também todo o elenco secundário, repleto de nomes reconhecidos na indústria, encontra-se à altura da protagonista e do argumento.



Dogville é uma visão pessimista do Mundo e da Humanidade mas é, ao mesmo tempo, o Cinema mais genuíno, mais cru e real que poderíamos já ter visto. Lars von Trier confirma a sua originalidade, a sua visão, o seu ponto de vista dogmático e de certa forma simplista, mas que não deixa de ter a sua razão. A maldade é aqui retratada como a única certeza do mundo. E o espectador bem que acredita.

Classificação:


quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Dancer in the Dark, por Tiago Ramos



Título original: Dancer in the Dark (2000)
Realização: Lars von Trier
Argumento: Lars von Trier
Elenco: Björk, Catherine Deneuve, David Morse e Peter Stormare

Lars von Trier sabe manipular emoções como poucos. E se a qualidade de uma obra reside precisamente na forma como as emoções são passadas para o espectador, Dancer in the Dark é genial nesse sentido. A fragilidade, simplicidade e perspectiva quase amadora, de câmara ao ombro, faz do filme uma grande surpresa. Há um crescendo de emoções que o torna cada vez mais real, assumindo a sua força com um dramatismo inimaginável, numa das obras mais poderosas do cinema contemporâneo.



Com certificado Dogma 95, no plano estético e técnico, mas também na construção da personagem feminina principal, que decide como meta de vida a dedicação em pleno ao filho, tendo como meio o sacrifício pessoal. Último filme da Trilogia do Coração, Dancer in the Dark é uma inteligente e profunda observação ao plano psicológico e humano, que nos faz engolir em seco muitas vezes, com um nó na garganta que não se desfaz nunca. E é precisamente a figura de Björk que despoleta essa sensação no espectador. É uma entrega incrível àquele que se tornou o papel da sua vida, um notável desempenho realista e comovente, de alguém que (quase sem ver) constrói um mundo à parte, através da música, um musical de sentidos, uma intensa dança. Uma dança no escuro, como forma de fugir ao mundo real, à dor e sofrimento, um refúgio musical, coreografado previamente, o controlo absoluto dos acontecimentos e o sorriso no rosto. A personagem de Selma fere o coração, face ao singelo olhar, à intensidade do seu grande coração e ao espírito de sacrifício. E nesse dramatismo intensifica-se o desempenho mais secundário de Catherine Deneuve e David Morse.



Lars von Trier revela o realizador inteligente que é. O olhar frio e calculista é soberbo, manipulando o espectador de início ao fim, torturando-o, fazendo-o sofrer, para no fim sentir a força de todo o argumento. Os apontamentos fotográficos, os planos soberbos e a cor fazem de Dancer in the Dark um musical avant-garde, único no mundo cinematográfico e dificilmente irrepetível. A direcção artística de Peter Grant (Breaking the Waves) e a música composta pela própria Björk complementam o retrato único da dedicação da Mulher.

Dancer in the Dark é um magnífico filme – um dos melhores – de Lars von Trier. Uma obra poderosíssima, uma inevitável convergência de emoções fortes, comovente, com o final mais poderoso de sempre. O musical que nunca acaba, o nó na garganta que nunca se desfaz.

Classificação:


terça-feira, 16 de junho de 2009

Cada um o seu cinema, por Carlos Antunes


Título original: Chacun son cinéma ou Ce petit coup au coeur quand la lumière s'éteint et que le film commence
Realização: Theodoros Angelopoulos, Olivier Assayas, Bille August, Jane Campion, Youssef Chahine, Kaige Chen, Michael Cimino, Ethan Coen, Joel Coen, David Cronenberg, Jean-Pierre Dardenne, Luc Dardenne, Manoel de Oliveira, Raymond Depardon, David Lynch, Gus Van Sant, Lars von Trier, Walter Salles, Roman Polanski, Nanni Moretti, Wim Wenders e Yimou Zhang
Argumento: vários

Cada um o seu cinema é, exactamente, uma relação com a sala de cinema, como pretende.
A sua conjugação de episódios estabelece uma variância de qualidade e atenção que proporciona uma alternância de sentimentos - se não mesmo de comportamentos - durante o seu visionamento.


Há momentos em que nos apetece levantar e sair para fumar um cigarro.
Outros em que ganhamos uma dolorosa consciência da sala que nos rodeia e de tudo o que lá acontece.
Outros ainda em que não percebemos que já entrámos na magia desta arte da hipnose senão quando nos volta a libertar.


Os episódios vão do documentário (ou, se preferirem, da observação particular) à piada, da reflexão à imersão na imaginação, da biografia à confissão.
Cada um poderá - e certamente assim o fará - encontrar os que mais lhe tocam, embora seja inegável que haverá sempre evidências dos que entre eles sobressaiem, para o bem e para o mal.


Polanski a filmar uma velha piada é desapontante, mais pelo que deixou por fazer do que pelo falhanço do riso.
Jane Campion a tentar ser inventiva e poética sem conseguir mais do que irritar o espectador com o seu insecto é um falhanço monumental.
Amos Gitai e o seu oco experimentalismo de simbólicas ressonâncias temporais destoa do resto do que se vê.


Mas a forma como os irmãos Dardenne e Gus Van Sant traduzem em imagens a pura magia do feitiço do cinema, a forma como Cronenberg ironiza com as modernas considerações sobre o cinema contra outros meios visuais ou a simples demanda pelo olhar feminino que é a de Abbas Kiarostami compensam tudo isso.
E entre o muito bom e o muito mau há ainda tanto a descobrir.
Para quem gosta de cinema e para quem gosta de salas de cinema, este é um filme a ver.