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segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

The Danish Girl: "Contra a hegemónica heteronormativa hollywoodiana"

Por Miguel Stichini.

Um filme que se preze tenta desenvolver uma ilusão de espelho da sociedade, oferecendo os seus pontos fortes e os seus pontos fracos ao escrutínio criterioso com a esperança de criar um mundo melhor. Ou simplesmente fornece um sentimento de entretenimento ultrajante que nos permite colocar de parte os nossos problemas por umas horas, enquanto nos deixamos deliciar pelas imagens e pela história.

O argumento adaptado de Lucinda Coxon, ao tentar desenvolver uma história que se enquadre no primeiro grupo, torna-se obediente às várias provocações e desafios que o casal de protagonistas enfrenta com a estrita linearidade da sua história. Diria mesmo que se torna rigidamente mais documental que ficcional. A sua estrutura narrativa aborda a progressiva jornada de mudança de Einar para Lili, mas sem nunca conseguir obter um ritmo orgânico que preencha os espaços em branco de um possível e convincente arco interno.

Por uma questão de foco e impulso, Lucinda Coxon poderia ter eliminado um conjunto de narrativas românticas paralelas que nunca chegam a lado algum. Existem momentos sucintos onde palavras são trocadas entre uma mulher atormentada e a pessoa que outrora fora o seu marido. A situação irretratável de alguém preso dentro do corpo errado surge com eximia exactidão. Depois, esse efeito rapidamente desvanece com one-liners que ameaçam neutralizar o factor surpresa.

É difícil entender de forma adequada a frustração e admiração que o filme de Tom Hooper tenta transmitir. Por um lado, a representação de um transgénero/transexual numa Europa na segunda década do século passado é algo refrescante, ainda que contido. No decorrer da acção não surgem inúmeros discursos de falso moralismo ou demasiadamente melodramáticos. Por outro lado, trata-se de uma história contada através de uma perspectiva de alguém que se pôde dar ao luxo de se submeter a uma intervenção de mudança de sexo e de estatuto social, sem grandes barreiras impostas pela sociedade.

Para um filme que retrata a história de uma das primeiras pessoas a transitar de sexo fisicamente, ela nunca nos transmite uma sensação de medo ou dificuldade face a algo que ainda hoje é extremamente difícil de concretizar. Não deveria ser uma história sobre o sofrimento, por si só, mas não deveria surgir como algo banal. As coisas nem sempre são cor-de-rosa para o protagonista, mas certamente que existirão momentos penosos e trágicos durante a sua jornada e esses nunca nos são apresentados.


Ainda assim, tecnicamente este é o trabalho do sobrestimado Tom Hooper que consegue atingir mais notas certas. O realizador opta por colocar de lado os seus floreados visuais mais irritantes de forma a criar um sentimento mais genuíno, mais imponente. O cineasta decide remeter sua tendência de recorrer a uma gama cinzenta e a espaços de uma negatividade inútil, que nos remetem para uma teatralidade amadora, a um canto deixando que aquelas pessoas ganhem vida e a história surja o mais natural possível.

Enquanto estudo de empatia o filme apresenta-se imparcial e inteligentemente evita tomar o partido de um dos protagonistas. Valentemente conta-nos uma história que precisava ser contada, ainda que o faça mais sobre a perspectiva de Gerda. A transformação de Einar em Lili não contém material suficiente para que se torne em algo profundo e que responda a todas as nossas perguntas. Contudo, é um testamento à versatilidade de Eddie Redmayne que consegue criar mais camadas a uma personagem que rapidamente se poderia ter tornado oca. O actor aceita novamente uma personagem que o desafia fisicamente. Ele consegue adoravelmente jogar com os seus traços andróginos e maneirismos femininos, criando duas personagens discretas, recatas e apaixonadas. Numa das cenas mais marcantes do filme, vemos Einar a visitar um peep-show, enquanto tenta duplicar os gestos da performer atrás do espelho.

O título do filme poderia estar no plural, pois o trabalho de Alicia Vikander não deve ser desvalorizado de forma alguma. A actriz consegue de forma exímia e repleta de nuances retratar uma mulher que se balanceia entre um sentimento de culpa auto-imposta, decepção e lealdade para com os desejos do marido. Argutamente o argumento não a transforma em algo unidimensional; ela suporta o marido de forma incondicional, ao mesmo tempo que o vê fugir-lhe por entre os dedos e com o decorrer da acção apenas a sua solidão persiste.


Dos actores secundários destacam-se três: Matthias Schoenaerts é sedutoramente viril e apresenta uma mentalidade bastante aberta para a época enquanto Hans Axgil, amigo de infância de Einar e futuro amante de Gerda; Ben Whishaw carrega uma sensibilidade intrigante como Henrik, o primeiro amor de Lili; e Amber Heard adiciona um toque de energia e frescura na pele de Ulla, uma bailarina de espírito livre e amiga próxima do casal de protagonistas.

The Danish Girl, tal como um grande artista, tenta ver o mundo a partir de inúmeras perspectivas. Enquanto tenta compreender a sua própria identidade, desenvolve em nós uma sensação de empatia para com a rebeldia e as normativas, os adaptados e os que não se deixam rotular, entre a ténue linha que separa os sexos socialmente estabelecidos.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

A Rapariga Dinamarquesa, por Carlos Antunes



Título original: The Danish Girl
Realização:  
Argumento: 
Elenco: , 


Perante um filme que se define na interpretação do seu principal actor é interessante notar que o mesmo alcança, numa das suas cenas, a definição exacta do trabalho de Eddie Redmayne.
A cena mostra um momento em que Einar Wegener se dirige a um peep show para aí visualizar e mimetizar os gestos que a rapariga executa.
Einar procura definir Lili através de gestos que são eles próprios exageros de feminilidade moldados à imaginação (ou falta dela...) dos homens que ali se apresentam.
Assim vai Eddie Redmayne, mostrando-se um homem à procura de fazer de mulher por um certo exagero sem nunca encontrar um ponto em que se sinta confortável.
A desadequação pode ser natural ao início da transformação mas depois prolonga-se perante o público como se de um ensaio se tratasse em que vemos os passos titubeantes da busca por uma interpretação credível: de tal maneira que dela não desapareceram os tiques que tornam Redmayne reconhecível e que este deveria apagar no seu persongam..
Reconheça-se que a cena tem a sua beleza - ainda que seja um pouco obtusa quanto à lógica do que nela acontece perante o contexto envolvente - ao conseguir que se transforme em algo mais do que um jogo de espelho quando a rapariga começa a desafiar Einar no seu próprio jogo secreto.
A mesma cena resume a essência da relação de Redmayne com a intérprete que o acompanha, Alicia Vikander.
A sua Gerda Wegener é, para os efeitos desta comparação, anónima num filme que terá sempre mais olhos para o seu marido.
Só que a sua interpretação sóbria é aquela que sustenta a do seu colega, influenciando nela algum corpo dramático.
Em Vikander reflecte-se algo que evita que a prestação de Redmayne seja completamente espúria.
Deseja-se que a actriz não acabe secundarizada (quanto a prémios) como Felicity Jones em The Theory of Everything onde a interpretação de Redmayne era, de facto, substancial, mas já se ancorava na mulher a seu lado.
A par dela há que destacar a banda sonora. Alexandre Desplat é sinónimo de qualidade - nem sempre de diferenciação - mas desta vez adiciona uma camada de complexidade à sua orquestração que se transmite à leitura que se faz dos personagens.
Um benefício claro para um argumento pobre que se vale vezes demais de cenas que são um resumo simbólico do processo de aprofundamento psicológico que deveríamos ver no filme.
O sofrimento físico, em particular, é esboçado com leviandade. Uma cena em que Einar é agredido por homofóbicos para demonstrar a sua luta com a sociedade parece apenas servir para marcar o ponto. Os gritos no pós-operatório são abafados por morfina e por um corte rápido a uma cena que provavelmente tinha alguma importância adicional para falar da coragem de ser o primeiro a fazer a operação de mudança de sexo.
Esta pobreza é suficiente para Tom Hooper, cada vez mais interessado em projectos prestigiantes e cada vez menos atento ao que deve extrair dos seus actores.
Convencido pelos prémios que lhe deram o realizador procura mostrar agora uma alguma inventividade que passa por estabelecer muitas das cenas em planos com um eixo de simetria que faça deles um verdadeiro quadro (em referência a um dos aspectos definidores da história).
Os resultados visuais são mornos de emoção. Já os efeitos dramáticos são os de reduzir a chama de vida dos personagens.
Mesmo assim não se apagam por completo. Como já ficou evidente - e felizmente para ele - há Alicia Vikander!




terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Os Miseráveis, por Carlos Antunes


Título original: Les Misérables
Realização: Tom Hooper
A noite estava engalanada, com a sala de espectáculos do Centro Cultural de Belém transformada em cinema e libretos distribuídos à entrada.
As razões para tal ficaram por descobrir visto o filme revelar-se um insuportável acumular de tempo perdido, tal como a sala revelou servir muito mal à função pretendida e os libretos revelaram não serem mais que reproduções dos pósteres e dos chavões do filme.
Para aqueles que não podiam alardear que haviam estado em Londres ou Nova Iorque para ver o espectáculo em palco, a pergunta que restava era "Como?".
Como pode este musical ter estado tanto tempo consecutivo em cartaz e com salas cheias se...?
Se as mais importantes das suas linhas narrativas estão atabalhoadas pelo romance sem graça que se dá entre duas personagens esvaziadas das suas mais importantes características porque nenhum letrista consegue emular o efeito das muitas páginas que Victor Hugo pôde escrever.
Se a sua essência são as letras vulgares - que, talvez no seu original francês que ninguém pareceu referir, fossem mais inspiradas - e as melodias orelhudas mas repetitivas - para lá do ponto em que se diz que partilham uma composição-base.
Contra tal, resta admitir que encarar todos os trechos cantados como canções independentes seja, talvez, um engano. Os trechos são sentimentos expressos por via de monólogos (e, em raras ocasiões, diálogos) entoados.
Por isso se entende a opção de registar as interpretações dos actores sem o filtro do tratamento de estúdio, captando as interpretações do texto mais do que as interpretações vocais. A ideia exigia outro entendimento, de que as vozes são a primeira expressão da interpretação que se estende depois às expressões.
Convinha, em consequência, que o casting tivesse sido feito de acordo com as vozes e que fosse o realizador a extrair desses intérpretes uma representação do nível que desejaria que o elenco escolhido tivesse dado.
Samantha Barks e a sua Eponine parece confirmar essa ideia que teria evitado a constrição permanente de Russel Crowe, como quem tem sempre de se apresentar numa posição que lhe permita projectar a voz em vez daquela que melhor servia a representação. Até porque não há sinal de que essa posição lhe tivesse permitido produzir algumas notas agradáveis.
Era necessário que Tom Hooper não tivesse perdido o senso como realizador ou que não se tivesse atirado a um projecto para o qual (ainda?) não tem capacidades.
Até agora o seu talento era colocar a discrição do seu trabalho ao serviço do argumento e dos actores, até mesmo no mais ousado do seu trabalho televisivo em John Adams e que teve o seu melhor momento em Maldito United.
Aqui achou que a única forma de abordar os dramas dos personagens era num grande plano permanente, ocupando de tal maneira o ecrã com rostos - quando não goelas - que toda a cenografia se torna invisível.
Uma estratégia que só se justifica quando Anne Hathaway se entrega ao seu solo - ainda que com objectivos premiáveis... permiáveis a discussão - e que acaba por reforçar a ideia de que tanto o contexto histórico como a linha dramática que deveria opõr do início ao fim Javert e Valjean estão a ser apagados por uma vontade irreprimível de exibir a ideia de ter os actores a cantar "em directo".
Uma ideia que, na verdade, acaba com as possibilidades de extraordinária composição de cenas que gente talentosa dera ao Musical. Assim não admira que a câmara esteja sempre colada aos actores.
Qualquer escape a essa abordagem de Tom Hooper parece um momento de salvação do aborrecimento que nos vai impondo, sobretudo porque a primeira cena é a que mais se destaca e menos alerta para o que está por vir.
A escapatória explica o apreço que se gera pela cena de errante concepção protagonizada pelo casal Thenardier. Um momento humorado com uma música completamente divergente de todo o espírito anterior do filme mas cujo efeito mais pernicioso é dar a sensação de que o realizador, no momento em que lhe falha qualquer ideia melhor, se limita a repescar o estilo e o elenco que outro (Tim Burton com o seu Sweeney Todd: O Terrível Barbeiro de Fleet Street) juntou com muito melhor resultado.
Contra tal acumulação de elementos nocivos apenas recordo Hugh Jackman, que tem o talento - e o passado - capaz de sustentar a interpretação como aqui lhe foi pedida.
Mais do que isso, tem os episódios suficientes para construir uma personagem, enquanto que a maioria dos outros personagens, na sua função de efeito breve, têm de ser esquematizados em dois ou três versos.
Pode funcionar para manter o musical em andamento, mas não basta para dar riqueza ou interesse a uma história mal contada num registo que só parece pesar sobre ela em vez de a elevar a qualquer novo patamar.


quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Os Miseráveis, por Tiago Ramos


Título original: Les misérables (2012)
Realização: Tom Hooper

Se o romance original de Victor Hugo é um marco inegável da literatura, é verdade também que o musical homónimo lhe trouxe grande parte do seu mediatismo mundial. Entre várias das adaptações do romance ao cinema, há muitos anos que o seu sucesso na Broadway lhe pedia uma adaptação também musical ou não fosse também Hollywood sempre atenta a novas formas de criar dinheiro. Depois de The King's Speech (2011), a tomada das rédeas desta adaptação pelo britânico Tom Hooper poderia ser também ela de certa forma a mais justa e acertada tendo em conta o perfil dos grandes estúdio e nota-se que há uma intenção clara em reinventar-se dentro do género e brincar com a linguagem cinematográfica. Uma delas - pelos menos a mais popular - é o facto dos actores interpretarem as canções ao vivo durante as filmagens, garantindo uma maior genuinidade e emoção nas suas interpretações, sem terem de se preocupar em coordenar a sua interpretação física com a interpretação vocal, como no caso da grande maioria dos musicais adaptados ao cinema onde as canções são gravadas previamente. É precisamente aí que reside uma réstia de frescura (embora não seja totalmente original - de repente recordamo-nos de Across the Universe em 2007) no filme e que permite sobretudo que os actores se destaquem, saindo da sua zona de conforto, mesmo mais habituados ao género e garantirem momentos onde a voz não soa inteiramente afinada, mas é seguramente cheia de emoção.

A segunda forma que Tom Hooper encontra para se destacar é precisamente no seu trabalho de realizador. Longe da frequente estática, aqui a câmara é altamente frenética: à mão, roda por completo à volta dos actores, faz close-ups das suas faces, mas também sobe e desce constantemente em gruas. Não obstante a sua interessante opção, a verdade é que parece que o realizador boicota constantemente a sua própria intenção de criar um épico memorável. Entre um filme tão ansiosa e, arriscaria até dizer, pretensiosamente desesperado em exibir um orçamento tão generoso, através da sua (magnífica) direcção artística e em demonstrar-se tão epicamente grandiloquente, a sua câmara nega isso ao espectador, esquecendo-se daquilo que tanto quer mostrar, para se focar na face dos protagonistas. E apesar da sua tentativa ser focar a dor e angústia daqueles miseráveis, a sua opção é tão incómoda que se destaca a tempo integral, resultando no oposto: ofusca os protagonistas. É a sua câmara pretensiosa que perde a mão ao filme que tinha potencial (não fosse o material de origem, o orçamento e o elenco de luxo) para ser bastante melhor. É essa mesma câmara que  não consegue deixar de ser tão melodramática, ao ponto de apagar precisamente a emoção que aqueles actores e momentos da narrativa deveriam transmitir ao espectador.

Em Os Miseráveis nota-se que há uma entrega absoluta de toda a equipa. Fala-se claramente dos actores, a gema do filme, a começar por um Hugh Jackman num papel sofrido e sentido, uma Anne Hathaway que rouba todos os momentos em que surge - pena que sejam poucos, já que a partir do momento em que ela sai de cena, perde qualidades - e uns competentes Eddie Redmayne e Samantha Barks. Falemos também de uma inesperada e simpática surpresa e que a muitos passará despercebida: a estreia de um jovem Daniel Huttlestone, como uma brilhante interpretação como Gavroche. Nem tudo porém é excelência e nota-se que falta em alguns casos uma boa direcção de actores - mas mesmo com uma forte entrega, é difícil salvar Russell Crowe da sua patética interpretação ou a dupla Sacha Baron Cohen e Helena Bonham Carter para a qual não há paciência ser reduzida a uma tremenda patetice.

Para os mais incautos há que o dizer: verdadeiramente musical, quase cem por cento dos diálogos são cantados. E se isso dá momentos bastante interessantes (já Les parapluies de Cherbourg o fazia com uma grande mestria) garante também, dada a excessivamente longa duração do filme, a situações bastante penosas - especialmente para os menos fãs do género - mas que apenas confirmam a excessividade do trabalho de Tom Hooper. E apesar de grandes momentos com o inevitável I Dreamed a Dream ou On My Own (mais devido às suas geniais intérpretes), é verdadeiramente nas cenas de multidões e da revolução que o filme mais brilha, tanto musical como narrativamente, conseguindo criar o ritmo adequado e que falta a grande parte do filme.

Não podemos negar, no entanto, o trabalho técnico envolvido - a sua qualidade é magnífica, desde os cenários, ao guarda-roupa, cabelo e maquilhagem - e a coragem e energia despendidas pelo seu elenco. Os Miseráveis tem material para o espectador se emocionar e vibrar - e certamente muitos haverá que não verão desperdiçadas as horas nele dispensadas - mas é inevitável motivo de pesar que o seu realizador não saiba trabalhar o material sem cair do alto da sua pretensão épica.


Classificação:

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

O Discurso do Rei, por Carlos Antunes


Título original: The King's Speech
Realização: Tom Hooper
Argumento: David Seidler

Haverá história mais edificante e animadora do que a de um rapazinho mal amado que se torna num rei de importância capital, do rapazinho gozado pelos irmãos à conta da sua gaguez que se torna na voz de um povo durante o período mais difícil da História Britânica do século XX?
Talvez até haja, claro, mas a cada filme convém colocar de lado a memória e deixar-se enebriar por uma história de grandíloquas conquista e emoção.


Esta história foi capaz de animar uma sala inteira e inspirá-la com a leveza do sucesso pessoal - do qual dependia o espírito de uma nação.
Animar porque não só está imbuída de sentimentos de realização pessoal que qualquer um pode identificar - ou identificar-se - como ainda os coloca num cenário que transcende a dimensão social mais corriqueira e o torna permeável a um lado humano que muitas vezes é escondido do olhar público.
A realeza como ser humano vulgar nas suas emoções, comportamentos, teimosias e nas suas imprecações. Sem desvalorizar o seu papel e sem atacar a sua existência.


Tal é feito mais habilmente porque as duas personagens têm dois óptimos actores a compô-las e, igualmente, porque a dinâmica de cada uma é pensada em favor da dupla.
George VI vive de inseguranças e solidão. Mas mantem a pose que lhe é exigida que lhe causa mais dificuldades a ele próprio do que a Lionel Logue quando tem de lidar com o futuro rei.
A fonte de humor nunca é o rei, mesmo quando ele é a origem das situações que o originam.
Essas situações acabam sempre filtradas pela reacção de Lionel Logue, pela sua defesa que faz do homem maior do Império e que acaba recompensada.
O respeito inerente à figura real nunca está em causa, mas cria-se um companheirismo entre os dois - e com quem se senta na sala.
Colin Firth tem mais uma boa composição - que, no entanto, não tem o interesse que tinha aquela que deixou em Um Homem Singular. Certamente difícil e, provavelmente, exagerada em comparação com a realidade. Mas uma boa interpretação não o é por mera verosimilhança ou imitação, é-o por ser distintiva e intransmissível, o que neste caso se verifica.
Geoffrey Rush é Geoffrey Rush. Satisfeito com os papéis que escolhe, um claro mestre do humor temperado e um executante primoroso.


Escrito tudo isto, há depois que considerar outros valores, outros detalhes e outras implicações.
Em parte por culpa da histeria dos prémios que se sucedem, mas em parte para simples honestidade para com o filme que se viu.
Ainda que os valores de produção sejam excepcionais, a execução é inócua. Tanto a realização como o argumento estão pertos de serem imaculados e, assim, se não há erro possível também não há espaço para um traço vincado de personalidade.
A ideia que todo o filme deixa é a de um serviço bem feito em favor de interpretações ricas demais para o "telefilme" que se está a ver.
O gosto pessoal poderá ditar alguma discordância com esta análise do filme. A divisão entre os aspectos de filme e de telefilme pode ser anulada pelo simples argumento de que as linguagens de ambos os meios continuam a influenciar-se e confundir-se.


Aquilo contra o que não se pode argumentar é que os irmãos Weinstein capitalizaram um filme que facilmente passaria despercebido por entre as estreias em sala semana após semana.
Capitalização daquilo que continua a parecer um subconsciente reconhecimento Hollywoodiano de que já não sabe produzir filmes que estão repletos de executantes de qualidades em todas as suas componentes apenas com vista à satisfação generalizada do público e não a um reconhecimento honorário ou artístico.
Aquilo que os ingleses ou os franceses (lembrar O Concerto) continuam a fazer de forma que se diria descarada, não fosse tão natural.



quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

O Discurso do Rei, por Tiago Ramos



Título original: The King's Speech (2010)
Realização: Tom Hooper
Argumento:
David Seidler

Num ano em que os principais candidatos à corrida pelo Óscar de Melhor Filme situam-se numa época contemporânea, com temas actuais e algum arrojo, não deixa de ser curioso que o provável vencedor do prémio seja um filme que prima pelo convencionalismo. Fantástica ironia esta, num mundo altamente globalizado e numa Academia aparentemente em leve mutação que este O Discurso do Rei volte à fórmula antiga, formal e oficial de fazer cinema que estes sempre premiaram.



O responsável por tal feito é Tom Hooper, um nome a reter . Depois de alguns telefilmes bem sucedidos, com o menosprezado The Damned United (2009) que estreou o ano passado em Portugal, confirmou a sua qualidade enquanto realizador que sabe criar um bom filme, com uma história aparentemente simples. O mesmo faz com este O Discurso do Rei - com um contexto sócio-político já explorado no cinema e com a família real britânica a ser mais uma vez alvo das atenção - que consegue ser original na sua concepção, abordando um tema pouco explorado e até quase ocultado da História, sempre de uma forma respeitosa, mas ao mesmo tempo envolvente para o espectador. E aí reside o principal segredo do filme: encanta, sem nunca ousar contra o espectador. É absolutamente inofensivo. É a típica história de superação, de coragem e de conquista individual: um achado nos dias de hoje, porque nunca chega a fraquejar assumindo um tom paternalista.

David Seidler constrói um argumento inteligente, apostando sempre no tom certo e sabe equilibrar nas quantidades correctas o drama histórico e a história pessoal de um homem, dando-lhe um tom levemente irónico e divertido nos momentos exactos. É precisamente uma das pérolas de O Discurso do Rei. Entra na intimidade da realeza britânica, conseguindo tornar as personagens humanas, nunca as enaltecendo do ponto de vista da sua personalidade. Pelo contrário: todas elas são caracterizadas de uma forma ambígua, tanto com qualidade como defeitos, acabando por criar empatia com o espectador. O mesmo com a realização de Tom Hooper e a montagem de Tariq Anwar: sabem sempre equilibrar o lado dramático e cómico da história e acertam na técnica certa, transformando uma narrativa absolutamente linear e simples, num filme bem estruturado e planeado.



Mas este cuidado e equilíbrio apenas tem como resultado este filme equilibrado dada a química e talento dos actores que compõem o elenco. Colin Firth, depois de uma interpretação menosprezada pela Academia em A Single Man (2009), encarna o papel do Rei George VI de um modo surpreendente. Ele é o herói, o protagonista improvável. Sempre dividido entre o desejo de seguir as pisadas do pai, assumindo um país em tempos turbulentos como o pré-Guerra, cabendo-lhe a ele a ingrata tarefa de acalmar o seu povo e a difícil relação dele com o contacto verbal directo com pessoas, quanto mais multidões. Personagem ambígua, carente, ridicularizado e posto de parte pelo seu problema, tanto pela sua família como por pessoas de hierarquia inferior, frustrado e com ataques de mau génio, mas sempre consciente da sua competência. Uma performance segura e brilhante. A seu lado uma surpreendente Helena Bonham-Carter, longe dos papéis mais bizarros que a caracterizaram nos últimos anos, num desempenho competente e interessante perspectiva da Rainha Mãe. É uma justa nomeação ao Óscar de Melhor Actriz Secundária. Por seu lado, temos também Geoffrey Rush como motor do filme. Rivaliza lado a lado com Colin Firth pelo protagonismo, apresentando aqui uma das mais interessantes e apaixonantes interpretações do ano. É ele, como o terapeuta pessoal do Rei e as suas técnicas inovadores e pouco convencionais, que despoleta toda a força do filme e que, se não existisse Christian Bale na competição, valer-lhe-ia muito provavelmente um Óscar.

Do ponto de vista técnico, o filme é também brilhante. Pontos óbvios a favor para o design de produção, cenários, direcção artística e guarda-roupa, típicos de filmes do género. Tom Hooper tem também uma interessante relação com a câmara, apostando em ângulos interessantes, muito focados na transmissão de sentimentos ao espectador, fazendo recordar Citizen Kane (1941), nesse campo. Existem também interessantes jogos de luz e uma fotografia encantadora da autoria de Danny Cohen. O mesmo se poderá dizer da banda sonora de Alexandre Desplat: um dos mais competentes e interessantes compositores da década e que assina aqui um dos melhores trabalhos do ano. Uma banda sonora no tom certo, tal como o filme.



Contudo, não deixa ser um interessante caso de estudo esta liderança de O Discurso do Rei na corrida aos Óscares. Aqui não existe um rasgo de génio, nem arrojo como abordam a história. É uma obra exemplar e formal, tanto na forma como no conteúdo. Mas acaba por ser irónico que um dos melhores momentos do filme seja uma cena mais arrojada - a única - em que as técnicas inusitadas de terapia resultam numa bela cena onde nem a palavra proibida no léxico da patrulha de moral e costumes norte-americana (o velho e eterno fuck) é omitida. Curioso que esse pequeno rasgo de arrojo acabe por ser censurado nos Estados Unidos, de forma a conquistar uma classificação mais baixa.

Mas no fim de contas, O Discurso do Rei é isso. Uma história relativamente banal, mas bem contada. Uma história rica, mas simples. É um filme inspirador, sobre comunicação, coragem, superação. Mas é precisamente a sua estrutura equilibrada que faz dele o filme grande e apaixonante que é. Porque no final de contas, os homens (e mulheres) como nós, os espectadores, não se conquistam pelo estômago, mas sim pelo coração.



Classificação:

domingo, 25 de outubro de 2009

Maldito United, por Carlos Antunes

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Título original: The Damned United
Realização: Tom Hooper
Argumento: Peter Morgan e David Peace
Elenco: Colm Meaney, Oliver Stokes, Michael Sheen e Timothy Spall

Há quanto tempo se esperava por um filme sobre futebol que tratasse com tanta riqueza os seus personagens?
Há quanto tempo se esperava por um filme de futebol que não se esgotasse no mero truque ilusivo de jogadas coreografadas?
Pois bem, The Damned United é esse filme.

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O futebol é aqui um combustível de paixões, como na vida real pois claro, que afecta um homem em particular.
Esse homem é Brian Clough, um homem que é movido pelas mais Shakespearianas motivações, um ego magoado e uma sede de validação acima de tudo perante si mesmo.

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Só que não há forma de Brian Clough provar o valor a si mesmo senão por demonstrá-lo primeiro a todos os outros.
Ele, um alegre e simpático treinador da segunda divisão que se prepara como um fã obsessivo para receber o Leeds na "festa da Taça", e que se julga afrontado com o homem que o derrota - embora a derrota seja o menor dos males.
A vingança que ele elabora é aquilo que o torna uma figura tão mesquinha quanto grandiosa.
Ele leva a sua pequena equipa ao topo do futebol, subindo de divisão e acabando por ganhar o campeonato que ninguém conseguia retirar ao Leeds.

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Tudo para afrontar o treinador que, na sua visão, se recusara a cumprimentá-lo.
É um choque de egos, mais do que de equipas, um choque que leva Brian Clough a arriscar a parceria que o tornara grande para treinar o Leeds e substituir, no afecto dos adeptos, o nome do seu antecessor e rival pelo seu.

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Assim assume a personalidade do arrogante, só contra o mundo, que temerariamente assume conseguir mais do que os restantes.
Daí que o seu reinado de 44 infelizes e derrotados dias seja o retrato da sua queda, mas também da sua aprendizagem, aquela que o restituiu à realidade e que o haveria de tornar num dos melhores treinadores ingleses de todos os tempos.

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Michael Sheen interpreta Brian Clough com a sua habitual intensidade, como quem não sabe senão dar vida absoluta às suas criações.
Ele apaga-se quando se torna numa nova personagem, mas é impossíel imaginar qualquer outro actor no seu lugar.
Isso torna-o tão indispensável a um projecto como este. É ele que faz Brian Clough a personagem que verdadeiramente queremos ver na tela.
Claro que ter a contracenar consigo dois actores que sem esforço nenhum demonstram igual talento, Colm Meaney e Timothy Spall, ajuda ainda mais ao resultado final.

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Um drama onde o futebol ganha vida, talvez o filme para conciliar o público que enche os estádios com o cinema e o público que enche as salas com a essência do futebol.



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